Ensaio

Cancelando Wallace

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Cancelando Wallace Foto no Museu de História Natural de Londres

Cancelando Wallace

Lucio Carvalho *

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No mundo da história da ciência, nunca se apaziguaram completamente os ânimos em torno da prevalência de Alfred Russel Wallace ou Charles Darwin na elaboração da teoria da seleção natural. Até onde se sabe, felizmente não houve uma disputa por este legado, já que os seus trabalhos foram apresentados em um único paper em junho de 1858. Todavia existe, sim, e muito, a reivindicação posterior de que luzes em excesso tenham sido lançadas sobre Darwin (ou por ele próprio) em detrimento de Wallace, uma pessoa muito modesta e cujos interesses intelectuais paulatinamente o afastaram da “boa ciência”.

Foto: Linnean Society/WikiMedia Commons

Mas isso teria começado ainda no séc XIX e enquanto eles viveram. É o que se pode saber por meio das biografias de Darwin publicadas no Brasil, já que, de Wallace, não há em curso, parece, nem um projeto de tradução ou edição de qualquer biografia nem da sua prolífica obra para além de livros fora de catálogo. Não que elas faltem em idioma estrangeiro, inglês principalmente, mas aparentemente Wallace caiu fora do interesse editorial brasileiro, repetindo a escrita do seu obscurecimento em todo o mundo.

O problema deste obscurecimento parece começar por aí mesmo, talvez, na popularidade de um e de outro.

Do que se sabe, Darwin começou a trabalhar no que depois veio ser A Origem das espécies ainda quando viajava pelo mundo a bordo do Beagle, mas sua condição de saúde precária fazia com que evoluísse lentamente nas anotações e sua ambição inicial era de que o trabalho não resultasse apenas em um volume, mas um grande livro em muitos volumes. Eis que em 1858, conhecendo sua pesquisa e interesses, Wallace envia-lhe um resumo das suas observações altamente coincidentes com o que ele vinha desenvolvendo. Motivado por amigos cientistas que sabiam do seu envolvimento anterior, um trabalho conjunto de ambos é então apresentado na Sociedade Linneana, no mesmo dia em que Darwin sepultava numa capela perto de casa o seu décimo filho, o bebê Charles Waring. Um ano mais tarde, A Origem das espécies é publicada resumidamente, num volume só, e é um estrepitoso sucesso editorial, com a primeira tiragem esgotando-se em poucos dias.

É a publicação e o sucesso comercial do livro, muito mais do que o empenho de um quase heremita, portanto, o que determina a popularidade das ideias de Darwin. Neste meio tempo, Wallace envolveu-se em novas viagens e em outros interesses. Mais tarde, estes interesses divergentes à ciência contribuíram para a sua obscuridade. Também havia que Wallace, de origem social bem mais modesta que Darwin, passou a viver com muitas dificuldades e envolveu-se nos movimentos políticos socialistas. No entanto tudo indica que foram mesmo os seus interesses anti-científicos e propostas que ele fez neste sentido que o “cancelaram” naquele momento, pois tornou-se um elemento constrangedor nos círculos científicos, ainda mais que ele não se furtava a propor os debates espiritualistas com quer que fosse. Thomas Huxley (avô do escritor Aldous Huxley, conhecido como o “buldogue” de Darwin) parece ter sido quem mais empenhou-se nisto, inclusive colocando Darwin na última fileira das homenagens ao naturalista em seu cortejo fénebre, em 1882. Mais ao final da vida, Wallace recebeu, no entanto, as maiores glórias científicas inglesas e foi lhe reestabelecida a reputação científica. Além das premiações científicas da Sociedade Linneana e da Royal Society, em 1908 recebeu a Ordem do Mérito, distinção máxima da Coroa Britânica.

A bibliografia de Wallace no Brasil é ridícula frente à sua imensa produção intelectual, porém entre os livros aqui publicados se encontram basicamente os destinados ao espiritualismo. Em 1870, mais de uma década após a publicação de A Origem das espécies, foi apenas quando ele publicou um apanhado do seu estudo evolucionista, com o livro  Contributions to the Theory of Natural Selection. A esta altura, Darwin já era debatido, combatido e ridicularizado na imprensa londrina. Wallace tomou as dores de Charles e publicou outro dos seus livros traduzidos ao português, Darwinismo. Uma exposição da teoria da seleção natural com algumas de suas aplicações (EDUSP, 2010). O livro não é apenas uma defesa de Darwin, mas o seu reconhecimento de que o trabalho daquele precisava ser defendido como um patrimônio científico que também era devido a ele. E assim ele fez.

É bastante melancólica essa disputa tardia realizada por terceiros, vez que poderia ser muito mais explorada a relação de proximidade e mesmo as diferenças entre eles, não no sentido competitivo, mas visando enriquecer ainda mais o panorama da ciência evolutiva e também do conhecimento biográfico. Muitas vezes Darwin e Wallace apoiaram-se em questões muito importantes, inclusive de ordem financeira, pois foi Charles quem defendeu que a Royal Society destinasse a Wallace uma pensão em seu maior momento de dificuldade. Wallace quase prestou serviços a Darwin, de revisão e ilustração, mas as relações comerciais nunca se estabeleceram e Darwin parecia preferir o trabalho de desconhecidos a ter de reduzir a relação dos dois a termos empregatícios.

Em paralelo, mas não sempre coincidentemente, tanto Darwin quanto Wallace escreveram e publicaram muitos livros. Como um polímata, Wallace dedicou-se a muitos assuntos enquanto Darwin manteve seu foco nos estudos naturalistas. Porém num ponto específico eles voltaram a se encontrar: na adaptação da teoria evolucionista ao mundo dos seres humanos. Com Darwin, isso resultou em A descendência do homem, um livro até certo ponto constrangedor, pois apoiado numa visão spenceriana e imperialista e sem o brilhantismo original de A origem das espécies. Wallace não obteve melhor sucesso com Man’s place in the Universe, de 1904, no qual aliou a perspectiva evolucionista a uma espécie de teologia espírita metafísica reputada na época como imprestável.

Para além das diferenças e dissidências, Darwin e Wallace mantiveram intensa correspondência e muitas vezes Charles mudou de opinião em razão dos argumentos que Wallace lhe apresentou por escrito ou nas poucas visitas que ele fez a Down House. Na América do Sul e especificamente no Brasil ambos estiveram em momentos distintos. Darwin esteve mais ao sul, nos países platinos e no Chile, enquanto Wallace visitou o Rio Negro e a Amazônia. Em 2013, Wallace ainda não havia reunido admiradores suficientes para que uma campanha visando uma estátua em bronze obtivesse sucesso. O crowdfunding finalizou com 50% da meta e o monumento foi erigido com doações especiais. Está no Museu de História Natural, em Londres. No bicentenário de seu nascimento, em 2023, em todo o mundo promoveram-se iniciativas de recuperação do seu legado pela comunidade científica de todo o mundo. A infidelidade para com a ciência foi finalmente perdoada e Wallace reconhecido como uma das figuras mais relevantes (e por que não libertárias?) da ciência moderna.


Lucio Carvalho é autor de Down House, 1858: o memorial de Charles Waring Darwin, que terá lançamento no dia 06/07, no Museu de Ciências e Tecnologia da PUCRS.

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