Ensaio

Coligay: a bola que rolou em outros gramados

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Coligay: a bola que rolou em outros gramados Torcida organizada Coligay - Wikimedia Commons

Em 1981, saí da cidade de Nonoai, no norte do Rio Grande do Sul, em direção à capital para ir ao estádio Olímpico, acompanhado de um primo, gremista roxo, que morava em Porto Alegre, para assistir à semifinal do campeonato brasileiro entre Grêmio e Ponte Preta. 

O Grêmio foi vencido por um a zero, com gol do Osvaldo, que depois viria a jogar no Tricolor. Mesmo derrotado, o Grêmio se classificou por ter vencido por 3 a 2 no jogo de ida, no estádio Moisés Lucarelli, em Campinas.  E foi para a final com o São Paulo sagrando-se campeão daquele ano.

Para mim, jovem, com ares interioranos, tudo era novidade. Ficamos em pé no anel superior, onde não havia espaço para sentar, pois foi este jogo que registrou o maior público da história do Olímpico. Com aquela massa de gente, vi as bichas da Coligay a uns 50 metros de distância, também no anel superior do estádio: aquelas figuras extravagantes, no maior bafo!  Fiquei tentando entender do que se tratava, naquela cena inusitada. Uma imagem que ficou marcou minha memória.

A Coligay (1977 a 1983) foi uma experiência mais que antropológica e, por que não dizer, revolucionária. Foi mais significativa por acontecer dentro de um clube de futebol. E isto ocorreu no Grêmio Foot-Ball Porto Alegrense. Torcida composta por bichas de várias espécies, que saíram do gueto num período em que a ditadura militar ainda mostrava suas garras. 

A Coligay foi o nome que derivou de uma boate chamada Coliseu, um gueto frequentado pelas bichas, localizado na Avenida João Pessoa, 1281, conjugado com a palavra gay. Foi Volmar Santos, dono da boate e criador da torcida, que juntou as palavras e cunhou a Coligay. Elas eram atinadas!

Mesmo que para muita gente essa história já esteja registrada em livro (de Leo Gerchmann, Coligay – Tricolor e de todas as cores), documentário, teses acadêmicas, jornais e revistas da época, ainda há muito o que pensar sobre o que significou essa experiência num contexto histórico de uma cidade como era Porto Alegre naquela época. A capital misturava ares provincianos, mas também recebia a influência do que acontecia no centro do país. Principalmente dos movimentos de contracultura pelo mundo. Afinal, o bairro Bonfim era frequentado por uma fauna para lá de vanguardista, onde se reunia o lixo e o luxo da época.

A experiência de uma torcida de um time de futebol formada exclusivamente por homossexuais, num clube do tamanho do Grêmio, num contexto de final de ditadura militar, em que o AI-5 perseguia não somente os e as comunistas, mas também estabelecia a censura moral na cultura, na mídia e nas artes, ainda hoje causa curiosidade. Intriga saber como poderia, dentro deste contexto, num estado tido como o mais machista do país, uma torcida de bichas ter rompido tantas barreiras e invadido um estádio. Um lugar em que as identidades e papéis de gênero eram muito bem delimitados. 

Cabe registrar o fato de o Internacional de Santa Maria também nesta época ter sua torcida gay, a Maré Vermelha. A amiga Marquita, uma das fundadoras, ainda vive.

Hoje as mulheres estão mais presentes nas arenas construídas para atrair a classe média, mas elas eram exceção nas décadas de 70, 80 e 90. Se para as mulheres o futebol era um local hostil, imagine para um bando de veados nada discretos! 

Uma expressão machista nas arquibancadas da época, era quando um bofe entrava de mãos dadas com sua namorada e os outros gritavam: “E aí, sócio!?”. Era uma expressão reveladora do espaço onde as coisas podem ser ditas. 

No estádio Olímpico nas décadas de 70, 80 e 90, era comum as cortes de rainhas e princesas, que divulgavam festas típicas do interior gaúcho – da uva, moranguinho, melancia, cuca, queijo, bergamota – e tantas outras especiarias, darem uma volta olímpica antes do jogo para convidar o povo para as festas. Na arquibancada, além de aplausos, era comum ouvir gritos dos torcedores apelando para a sexualidade das moças, transformando-as em objetos sexuais. 

A sociedade era vigiada. E a sexualidade sofria suas consequências. Mesmo dentro deste contexto, o desafio de ir ao Olímpico montadas com as cores do Grêmio, vestindo roupas espalhafatosas como túnicas, com uma charanga própria comandada pelo famoso Neri Caveira e ocupar espaços no estádio foi, sem dúvida, uma experiência muito ousada para a época. Elas, diferente do restante dos torcedores do Grêmio, além de torcerem, também questionavam as normas morais e de gênero, mesmo que isto não fosse seu propósito na época.

No Brasil, como sabemos, o futebol não é um esporte como outro qualquer. Alcança uma dimensão que foge ao jogo em si. É parte da cultura diária nos mais variados espaços: integra a própria “identidade nacional”. 

Além do racismo dentro de muitos clubes desde o início da expansão do esporte, o futebol foi um lugar de afirmação da masculinidade e reprodução do machismo. Ao mesmo tempo também foi fundamental no rompimento de lugares sociais estabelecidos pela classe e cor. Foi se popularizando com o passar do tempo e quebrando a lógica elitista estabelecida inicialmente pelos clubes. 

A desafiadora torcida Coligay emergiu nesse contexto hostil. E mais: passou a ter fama de pé quente, pois o Grêmio vivia uma zica de títulos há quase uma década. Com o apoio da Coligay faturou o Gauchão de 1977, quebrando a hegemonia do Inter. As bichas também ganharam fama por animarem o estádio com sua alegria debochada. Como diria Bourdieu, elas transformaram as qualidades de pé quente e animadoras da torcida em capital simbólico e político a seu favor. 

É nesta hora que as regras sociais são transgredidas e ultrapassam não só as quatro linhas de um campo de futebol, mas a moral imposta sobre os corpos.

A Coligay não se limitava a frequentar o estádio Olímpico. O animado grupo viajava acompanhando seu time do coração ao interior do estado e pelo país afora. 

Em 1977, a convite do presidente do Corinthians, Vicente Mateus, a Coligay foi a São Paulo dar sorte na decisão do Campeonato Paulista entre Corinthians e Ponte Preta em pleno Morumbi. O Corinthians foi campeão depois de mais de 20 anos na espera.

Fico imaginando o impacto que causava nas paradas do ônibus da torcida nas beiras de estrada, quando aquela fauna de bichas descia para ir ao banheiro ou comprar um lanche Mirabel. 

Elas não eram somente umas bichas que ficavam amontoadas na arquibancada superior do estádio, no meio da multidão, desfilando gêneros e atitudes e demarcando espaço. Estando ali, rompiam com o gueto fechado, no caso uma boate, e invadiam um espaço altamente machista, ocupando um local de destaque num estádio de futebol. Nesse sentido, o estádio também pode ser considerado um gueto, pois reúne pessoas pela paixão pelo seu time, que é ponto de convergência identitária e de referência de um grupo.

Fora das quatro linhas do futebol, essas bichas levavam suas vidas no dia a dia como a maioria dos mortais. Mas em alguns momentos circulavam em outros espaços nos quais também se respirava futebol. Talvez um dos fatores que contribuiu para entender o surgimento da Coligay, assim como de sua legitimidade, seja esse aspecto de convivência em outros espaços. Afinal, mesmo o futebol sendo um esporte machista, muitos treinadores, dirigentes, roupeiros, olheiros, jogadores, massagistas jogavam e jogam no time das bichas.

Elas, agarradas nas telas dos campos suplementares, acompanhando seus ídolos com marcação cerrada, corpo a corpo, e também em outros espaços onde os jogadores circulavam na época, jogavam na defesa, meio-campo e principalmente no ataque, sempre atentas para não levarem uma bola nas costas. Um dos locais que frequentavam, misturadas a jogadores de todas as categorias, como o atual treinador do Grêmio, era o Bar do Ramon, ou da Ramona, para elas. Nome do dono do bar que ficava em frente ao Largo dos Campeões, o principal boteco na entrada do Estádio Olímpico, onde também tomei algumas cevas com as amigas Maythê e Mimi. 

Por falar em Mimi, integrante da Coligay, o Miguel frequentava na época, e ainda frequenta, as arquibancadas da nova arena. Uma torcedora fiel como poucos. Este bar, do Ramon, era uma casa antiga, com janelas abertas e decoração com motivos gremistas. Era ponto de encontro cativo durante todos os dias da semana, onde jogadores, boêmios e muitas destas bichas que ali, entre um drink e outro, ensaiavam outras jogadas.

Cabe lembrar que nas décadas de 60, 70 e 80 o controle sobre a vida privada dos jogadores não era tão severo como hoje. Eles não eram só um produto de mercado. Conseguiam dar seus dribles fora dos gramados. Neste bar, como em outros locais da cidade, muita coisa rolava para além dos gramados, onde as bichas também caprichavam nas tabelinhas.

A história da Coligay foi documentada no museu do Estádio Olímpico, em reportagens da mídia da época, juntamente com troféus e taças de títulos conseguidos nos mais de 100 anos de história do tricolor dos pampas. Este foi, sem dúvida, um reconhecimento importante de sua existência. Hoje, com aquela Arena elitista com cara de shopping center sem graça nenhuma, esta história está em segundo plano, num local dedicado à “diversidade”, numa política de invisibilidade do que foi a transgressora história da Coligay. Narrativa e prática que faz coro ao atual momento político. 

Não é exagero dizer que a criação da Coligay está entre as principais façanhas do Grêmio, juntamente com a Batalha dos Aflitos, que tanto orgulha sua torcida.


Célio Golin – tricolor de coração…

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