Ensaio

Comer mal em Buenos Aires

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Comer mal em Buenos Aires Foto: Fernando Seffner

Em uma cidade onde se come tão bem, a questão que me coloquei foi exatamente a contrária: onde se come mal aqui? Variando um pouco, a melhor pergunta poderia ser: o que é comer mal em Buenos Aires? O artigo contém algumas doses de xenofobia, não por culpa do autor, mas por culpa dos relatos dos informantes e de materiais colhidos na imprensa. O artigo também contém elementos de típico comportamento classista pois, em parte, os lugares de comer mal são os mais baratos. Mas exploro outras possibilidades de comer mal na cidade, não ligadas ao preço. Quem caminha pela área central de Buenos Aires sem dificuldade encontra restaurantes com comida por peso, por vezes a grafia é “comida X peso”. Transitando pelas ruas, a presença de tais restaurantes logo me chamou à atenção. Não foi difícil perceber que, em todos eles, quem estava atrás do balcão eram orientais. Digo orientais para referir pessoas que têm os olhos pequenos e puxados. Fotografei algumas fachadas destes restaurantes, e comecei a me dar conta que eram mais numerosos do que eu supunha. Achei que fosse um fenômeno apenas da área central da cidade, por conta do afluxo de gente, particularmente trabalhadores. Mas logo me dei conta que nos bairros por onde caminhava também encontrava tais estabelecimentos.

Um dia me parei frente a um deles, do outro lado da rua, para ver quem frequentava. Comecei a tomar anotações. Decidi entrar e almoçar. Repeti a experiência cinco vezes, em cinco restaurantes diferentes, todos na área central da cidade. Escolhi aqueles em que há mesas para comer no local, pois em outros apenas se vende a comida. Foi uma experiência muito rica do ponto de vista da coleta de dados para reflexões das ciências humanas, mas amplamente desastrosa do ponto de vista gastronômico. No primeiro deles fiquei confuso, não achava os pratos para me servir, apenas as embalagens para comprar e levar a comida. Observando as pessoas que comiam no local, me dei conta que a embalagem era a mesma. As mesas para comer estavam localizadas bem ao fundo, lugar quente, com cheiro de comida no ar, e arranjadas de modo um tanto desordenado. Tudo de plástico: embalagem da comida, talheres, mesas, cadeiras, garrafa de água e copo. Um guardanapo por pessoa, entregue no caixa.

Nas primeiras quatro experiências, peguei pouca comida, apenas o pretexto para estar no ambiente por algum tempo. Na quinta escolhi um estabelecimento maior, com várias mesas grandes no fundo, horário de maior afluxo de público, inclusive com fila no caixa, e peguei bastante comida, pois desejava aprofundar minhas anotações acerca de quem frequenta. Fiquei lá dentro por uma hora, tempo amplamente superior à média dos frequentadores. Saí um pouco enjoado, e dei por encerrada a fase de observação participante, me fixando dali por diante apenas na observação indireta do fenômeno. O valor da comida é muito inferior ao dos lugares do entorno. A observação cuidadosa permitiu perceber que ali frequentam públicos bem distintos. Anotei trabalhadores de lojas e escritórios – funcionárias com a blusa da Farmacity, grupo de rapazes com camiseta preta da loja da Samsung, senhoras com o colete que indicava uma imobiliária, jovens com aspecto de empregados de instituição financeira, senhores de terno que pareciam advogados ou servidores estatais. Entre este público era mais comum comprar a comida e levar para comer em outro local, provavelmente o ambiente de trabalho. Mas alguns comiam no local. Este público era mais branco, mais o tipo de pessoa que nos habituamos a tomar como argentinos. 

Fotos: Arquivo pessoal

Um outro grupo são os trabalhadores da construção civil, que se reconhecem pelas roupas e pela quantidade de comida que colocam no prato. Mas também pela cor de pele mais escura, e muitas vezes pelos traços indígenas, de gente oriunda das províncias ou de outros países, tema que vou explorar em um próximo artigo, pela forte presença na cidade. Estes eram mais ruidosos, vinham em grupos, apenas homens, e comiam no local, as mesas em geral são grandes e coletivas. Tais mesas são uma variação popular do que a grife de padarias “Le Pain Quotidien” chama bobamente em seus estabelecimentos aqui de “communal table”, e que ela reivindica ter inventado a partir de sua primeira loja em Bruxelas. A região central da cidade é local de moradia de uma parcela significativa de população idosa e aposentada. Observei em todas as cinco oportunidades homens e mulheres bastante idosos, usando bengala por vezes, que compravam a comida, e levavam para comer, provavelmente em seu apartamento. Uma questão de gênero me chamou a atenção: mulheres idosas costumam vir em duplas ou trios, se ajudam, saem caminhando pela calçada, se amparam, e logo cada uma entra em seu prédio. Homens idosos vêm sozinhos, e alguns por vezes comiam no estabelecimento. Não vi nenhuma senhora idosa comer no local. 

Quando me posicionei fora do estabelecimento apenas para observar, flagrei em duas oportunidades mulheres com aspecto bastante pobre que entraram, compraram duas embalagens de comida, em seguida saíram. Eu as segui, elas encontraram seu companheiro e filhos, moradores de rua, algo como duas quadras de distância, e todos comeram embaixo de uma marquise, onde estavam morando. Tudo isso fala de uma vida em regime de alta inflação, do aprofundamento da desigualdade social no país, do empobrecimento da grande maioria da população, como mostram os dados econômicos da Argentina de modo consistente nas últimas duas décadas. O fenômeno é chamado aqui – tanto em matérias de jornal quanto na conversa com pessoas – de explosão de “restaurantes chinos” pela cidade. Vários deles é nítido que ocuparam o lugar de restaurantes antigos, que devem ter ido à falência, e dos quais sobraram adereços, pinturas de paredes, banheiros com mármore, alguns vitrais, restos de decoração no teto. O que contrasta com os novos elementos arquitetônicos: as mesas simples, o balcão de comidas, a improvisação das cozinhas e do atendimento, a iluminação fortemente branca que convive com alguns lustres de antigamente.

Ao comentar com vizinhos e colegas de trabalho, colhi elementos que indicam claramente a percepção de que a presença cada vez mais visível de estabelecimentos gerenciados pelos “chinos” é indicativa do empobrecimento. Uma matéria de jornal dizia que “a rápida e evidente inflação na Argentina está obrigando a buscar alternativas econômicas para comer, e então os restaurantes de comida por peso, gerenciados em geral pelos chinos, se tornaram uma opção de moda, mas polêmica”. Conversei com duas faxineiras, as duas brancas e nascidas aqui na capital, nos dois prédios onde já morei. Uma delas me explicou detalhadamente como era o sistema de comida por quilo, para ela uma novidade. Achei sensacional escutar alguém descrevendo para mim um modo habitual de comer no Brasil. A outra fez várias conexões entre a presença dos “chinos” e locais de compra mais baratos, como fruteiras e minimercados, indicando exemplos no próprio bairro. Perguntei porque ela achava que em tais lugares de “chinos” as coisas eram mais baratas, e ela respondeu “é que eles compram as mercadorias de outros chinos, eles têm as suas redes próprias, por isso vendem mais barato”. A xenofobia que adverti logo no início do artigo fica por conta dessa associação entre inflação, empobrecimento, restaurantes por peso, chinos.

Em uma cidade onde temos imensa quantidade de cafeterias, muitas delas com o que aqui se chama de “café de especialidade”, cafés próprios com misturas originais, foi para mim uma surpresa descobrir no supermercado o café de saquinho. Feito um saquinho de chá, para fazer em casa, e produzido por várias marcas diferentes. Em um minimercado consegui comprar avulso dois saquinhos, experimentei, achei horrível. Já sabia que ia achar horrível inclusive, e por isso não queria comprar a caixa com muitos sachês. Na hora de beber o café, descobri que ele é adoçado, o que complicou ainda mais o quesito sabor.

Foto: Arquivo pessoal

Outra modalidade do que considero comer mal aqui é aquela que diz das pessoas que gostam de viajar sem sair de casa. Viajam para comer lá fora a mesma coisa que comeriam em seu país, e nos mesmos estabelecimentos. Em uma cidade como Buenos Aires, considero isso comer mal, e é algo que não está relacionado com gastar menos. Dou exemplos. A carne colocada entre duas fatias de pão, seja de rês, porco ou frango, sejam fiambres, com acompanhamentos variados como saladas ou queijo, seja na forma de hamburguesas, mas também no que conhecemos como sanduíche, ou X, ou nos tostados, ou nos “sanguches de miga”, panchos, choripans, salchipans, ou nos muitos outros nomes que aqui temos, é uma tradição neste país. Simplesmente não vejo motivo para ir comer no McDonalds, quando temos uma diversidade tão grande de opções com sabores e combinações tipicamente argentinas. E se a pessoa gosta das opções ao estilo McDonalds, na forma, no conteúdo e na apresentação dos ambientes para consumo, ela irá encontrar aqui redes nacionais, excelentes, e com o sabor local. O mesmo se passa no quesito cafeterias. Como já comentei acima, aqui são tantas as cafeterias originais, os estabelecimentos únicos, de todas as faixas de preço, que considero um desperdício se enfiar na Starbucks. E se a pessoa deseja comer em estabelecimentos que constituem uma rede, o que significa que entrar em um é como entrar em outro qualquer da mesma rede, se isso lhe dá certa segurança alimentar, não faltam redes de cafeterias no país, com o gosto local. Ainda no quesito cafés, doces e salgados, esta cidade é um paraíso de “confiterías” e “panaderías”, onde, especialmente os doces, estão dispostos nas vitrines como se fossem joias, de tão lindos e apetitosos e coloridos. Quando penso em pizzas, vale o mesmo. Temos uma quantidade tão grande de oferta local, com sabores originais, que vir aqui para comer no Sbarro, a chamada pizza original de New York, me parece um tanto sem sentido, e associo isso a comer mal em Buenos Aires, foco deste artigo.

Por fim, considero que comer mal em Buenos Aires é querer comer de forma apressada. A ideia do rápido aqui, em matéria de comida, se associa com o comer mal, com certeza. Ao invés de fast-food, aqui se utiliza muito a expressão “comida al paso”, em uma tradução literal seria “comida em movimento”, e designa sempre estabelecimentos de má comida. Assim também é a ideia de montar o próprio prato. Aqui a boa comida vem em um prato preparado e montado pelo cozinheiro, e servido pelo garçom, que são os especialistas no preparo e no servir. A tarefa da pessoa é comer. Na hora da escolha do prato, o garçom é o profissional para dar conselhos ao cliente, explica as combinações. Em uma casa de chá, eu disse que gostaria de chá com leite. O garçom então me fez várias indagações acerca do tipo de chá, e das combinações com tipos de leite. Algumas questões eu nunca tinha pensado. Elas me ajudaram a refletir sobre o meu próprio paladar. Não se vem a esta cidade para chegar no balcão de um estabelecimento e pedir a comida que se deseja pelo número, aos gritos, no meio de uma balbúrdia. Menos ainda para sair furungando em recipientes e se servindo e revirando tudo. Montar seu próprio prato, sem auxílio de um profissional, é permanecer na mesmice, é desconhecer a qualidade técnica da produção gastronômica, que aqui é excelente. Proceder assim é, no limite, um acinte a quem elaborou a comida. Fazer tudo isso na pressa é então quase motivo para ser expulso do estabelecimento. Observo no caso das sorveterias. A ideia de servir-se por conta própria, revirando com a concha em cada vasilha de cada sabor, batendo a concha para que a bola de sorvete caia dentro do pote, depois deixando a concha mergulhada na água para o próximo, não se pratica aqui sequer na sorveteria mais simples. Sempre se pede, se é atendido por alguém, e este alguém nos oferta a possibilidade de provar algum sabor, para melhor decidir, se verificar que estamos em dúvida. Comer é momento de diálogo e aprendizado. E isto é, em boa parte, comer bem aqui. O inverso é comer mal.


Fernando Seffner é professor da Faculdade de Educação UFRGS.

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