Ensaio

Cuidado e imaginação

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Cuidado e imaginação

Este é Diego Kurtz. Entre tantas, é fisioterapeuta da UTI do Hospital Criança Conceição (HCC). Também mestre em Produção e avaliação de tecnologias para o SUS. Quem encontra o Diego nos corredores do hospital, em uma reunião ou na beira do leito de algum paciente, nunca sai com a alma vazia. Seu modo de olhar o mundo transborda o óbvio da rotina asséptica e reta do hospital. Como se não bastasse, agora em tempos pandêmicos Diego chega assim, devagarzinho, pelas portas dos grupos de WhatsApp. Não dá tempo de terminar o cafezinho e as suas Nosocrônicas – “Nosocômio é sinônimo de hospital e, assim como há a desconstrução dos objetos, o nome da exposição foi escolhido para ‘brincar’ com a desconstrução das palavras”, explica – já chegaram na porta de consultórios, emergências e territórios do Brasil e além mar. Entre “bah”, “Lindo!” “Que giro!”, o sentimento é gratidão. 






“Esse trabalho nasceu de uma necessidade. Ou melhor, de uma dificuldade minha”, conta Diego. “De entender como tocar nas crianças, no cotidiano do meu trabalho. Isso porque eu percebia que para eu encontrar com as crianças eu precisava muito mais do que só ser um bom profissional na técnica. E aí, me aproveitei de uma linguagem que eu já dominava (e que domino), que é a de animação de bonecos”.

Diego é bonequeiro desde 1993. Trabalhou com diversos espetáculos e atualmente integra a CIA Caixa do Elefante, que há pouco completou 30 anos. Em 2009 ganhou um prêmio da FUNARTE de Residência Artística em Ponto de Cultura e montou o Laboratório de animação com objetos hospitalares, em parceria com o Ponto de Cultura que existia no Grupo Hospitalar Conceição. Buscando superar os obstáculos pertinentes à rotina de um hospital, como a impossibilidade de levar bonecos de espuma, por questões sanitárias de biossegurança (para garantir dessa forma o controle de infecção hospitalar), começou a inventar traquitanas, animando objetos hospitalares. 

“Inicialmente (2005), eu fazia composição dos objetos hospitalares pra transformar em bonecos. E mais tarde, quando eu fui pesquisando mais sobre o teatro de animação, eu comecei a usar os objetos em si, in natura, com as suas propriedades. Alguns bonecos eu acabei incluindo nos meus rituais de saúde, me encontrando com crianças, e disso começou a nascer uma pesquisa mais aprofundada nessa área. Comecei a desenvolver poemas visuais, comecei a desenvolver personagens pra atender as crianças. Foi então que percebi que outros profissionais começaram a se interessar pelo que eu fazia, manifestando a vontade de também se apropriar dessa linguagem”.

As animações de objetos e os poemas visuais que Diego criava dentro do seu processo de trabalho logo se expandiram como uma possibilidade de trabalhar também na formação de profissionais de saúde. Então, para além da assistência, sua intervenção acabou se constituindo numa metodologia de ensino pra trabalhadores, estudantes, preceptores residentes no campo da saúde. “E é isso que eu tenho feito e é isso que eu quero continuar fazendo”. 

O trabalho teórico e a exposição Nosocrônicas, resultado da sua dissertação de mestrado, são construídos por montagens de um processo criativo, de uma poética da imaginação, inventariadas em um processo investigativo e experimental.  Para Diego as tecnoimagens implicam um trabalho com a estética, com a ética, com a sensibilidade e com os modos de ver e de saber. 

Em 2019 Diego foi aprovado para cursar doutorado em Inovação e Educação na Universidade de Santiago de Compostela. Projeto suspenso temporariamente. Enquanto aguardamos boas novas, nos sentimos cuidados por este Diego inquieto, arteiro, humano criativo.  




Marta Orofino e Elisandro Rodrigues – colegas de Diego no Grupo de Pesquisa Narrativas em Saúde – Investigação e Intervenção na Produção do Cuidado, do Grupo Hospitalar Conceição.

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