Ensaio

Desamparo sem amargura: os contos de Lucia Berlin

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Desamparo sem amargura: os contos de Lucia Berlin Foto: Autor desconhecido

Lucia Berlin nasceu em 12 de novembro de 1936, no Alaska, e morreu exatamente no mesmo dia, 68 anos depois, na Califórnia. Sua carreira literária começa bem: com 24 anos publica um conto na revista The Noble Savage, editada por Saul Bellow. Depois, tudo fica mais complicado. Com apenas 32 anos já acumula três divórcios e quatro filhos, dos quais cuida praticamente sozinha. A partir da década de 60, escreve quando pode, de modo esporádico, errático, entre o vaivém de trabalhos precários e a luta com um problema sério de coluna e uma herança familiar trágica – o alcoolismo. 

Ainda assim, escreve bastante. Na década de 90, seus contos são compilados em três volumes pela Black Sparrow Press, editora de tamanho mediano, que havia publicado os primeiros livros de Charles Bukowski. A recepção é morna, e as vendas, também. Pouco depois da morte de Berlin, em 2004, a nova proprietária da editora entra em contato com seu filho, Jeff Berlin. Quer saber se ele, por acaso, não estaria interessado em comprar os livros da mãe – todos eles – por apenas um dólar. É que a Black Sparrow Press estava precisando liberar espaço em seu depósito. 

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Em 2015, tudo muda. Sensível aos reclames de admiradores e amigos, a prestigiosa Farrar, Straus & Giroux resolve publicar uma coletânea póstuma dos textos de Berlin sob os cuidados e a edição do amigo e escritor Stephen Emerson: A Manual for Cleaning Women: Selected Stories. Em duas semanas, o livro entra na lista dos mais vendidos da New York Times, e Berlin vende mais livros do que em toda sua vida. Além disso, várias publicações de prestígio, americanas e inglesas, o elegem como o livro do ano. Vem em seguida uma enxurrada de traduções. No Brasil, o Manual da Faxineira: Contos reunidos, chega em 2017, pela Companhia das Letras. 

Hoje, vinte anos após sua morte, o nome da escritora é inseparável de uma realidade que, em vida, Berlin nunca conheceu: sucesso de vendas e reconhecimento da crítica. O hiato entre a recepção de sua obra em vida e post mortem é grande e gera interesse. Questionada sobre esse fenômeno, a editora Emily Bell, da Farrar, Straus and Giroux, atribuiu o insucesso prévio de Berlin, entre outras razões, ao fato de ela escrever sobre a costa oeste e coisas que se passam longe demais de Nova York. Além disso, e talvez de modo mais convincente, a editora observou que o problema parecia vir dos temas sobre os quais Berlin escrevia. Para Bell, vício, infidelidade e pobreza eram temas tidos como “masculinos” e “pouco palatáveis para a elite literária” do país, mesmo no final do século XX.

Seria uma boa notícia para as mulheres se o vício, a infidelidade e a pobreza fossem eventos restritos ao universo masculino. Através da literatura, do cinema e do teatro fomos muitas vezes apresentados aos sofrimentos do homem de classe média baixa: sabemos como ele podia ser maltratado por superiores engravatados e como poderia encontrar consolo no álcool. Conhecemos menos esses mesmos dramas protagonizados por mulheres. Ler os contos de Berlin é adentrar um pouco esse universo escasso de representação (ainda hoje, talvez?) e seguir protagonistas que lidam com o que há de mais difícil nessa vida – pobreza, abandono, vícios e solidão.

A pobreza ou a ameaça dela permeia quase todos os contos da coletânea do Manual da Faxineira. A falta de dinheiro nunca é tratada como algo intrinsecamente triste, no entanto, ainda que não seja apresentada como uma condição nobre ou bonita. A pobreza aparece nos contos como uma situação de dificuldade e, evidentemente, escassez que simplesmente exige esforço de quem está submetido a ela. Muito esforço. Ao contrário da riqueza, que permite o acesso a prazeres fáceis: polo, rugby, cricket, thé dansante, jantares, festas até o sol raiar. Há sempre frivolidade nos ricos de Berlin. No meio do caminho, um denominador comum: ricos e pobres podem ser igualmente ansiosos, traumatizados e incapazes de olhar para si mesmos. Não há fascínio pelos ricos, assim como não há superioridade moral nos pobres. 

No conto “Carpe Diem” a protagonista não tem dinheiro para comprar o sabão da máquina de lavar e não consegue secar seus lençóis também por falta de dinheiro. Saindo da lavanderia, ela carrega os lençóis molhados nas costas e leva muito tempo para chegar em casa e pendurar tudo. Depois desse trabalho, ela enche uma xícara de café e o toma na escada de fundos da sua casa. Isso ela faz com calma, sem pressa. Ela tem prazer. Parece até que o conto é mais sobre a delícia de se tomar um café sentado na escada do que sobre não ter dinheiro para comprar sabão. Talvez seja sobre as duas coisas, sem que uma seja mais capaz de dar sentido à experiência da personagem do que a outra. 

O vício, mais particularmente, o alcoolismo, é outro desses “temas difíceis” de que se ocupa Berlin. No conto “Incontrolável”, ela descreve uma crise de abstinência: o cabelo dói, os olhos doem e os ossos também. O jeito é cruzar a cidade a pé e tremendo para comprar bebida e voltar a tempo de fazer o café da manhã dos filhos. A tensão entre a obrigação de cuidar dos filhos e a incapacidade interna de encarar o mundo sem o auxílio do álcool é extremamente tocante. Já no conto “Passo”, estamos numa clínica de desintoxicação e seguimos Carlota e outros pacientes assistir a uma luta de boxe na televisão. Depois que um lutador cai no ringue, ele se levanta com um sorriso constrangido no rosto. Ele não esperava ter caído tão rápido. Todos percebem o que aconteceu, o susto, a pancada da vida que é maior do que a gente aguenta. Na sala, todos começam imediatamente a torcer por ele, a querer que ele ganhe. O médico da clínica percebe a mobilização e comenta “é lógico que vocês todos iam torcer para um perdedor”. 

O desamparo talvez seja o tema mais amplo e recorrente nos contos de Berlin. A falta de um lugar seguro para onde possamos voltar, a falta de uma “mãe suficientemente boa” e de um ponto de descanso e acolhimento localizável no mapa. É o desamparo, no final das contas, que torna a pobreza e o alcoolismo intoleráveis, pois sem volta; é ele que pode fazer da vida uma coisa descabida. O mais tocante, no entanto, é que esse sofrimento abismal, sempre ali à espreita, não dá nunca ou quase nunca lugar para a amargura. 

Ao contrário, ele parece ser um propulsor de atrito que provoca movimento e energia – os personagens são confrontados com as dores do mundo e não concluem, como tantos outros da literatura do século XX, que o mais lógico diante do desamparo é o niilismo ou o cinismo. O mais lógico, nos contos de Berlin, parece ser continuar a viver, sentir o que tiver que sentir. Ninguém parece nutrir a expectativa de que viver, afinal, significava encontrar amparos sólidos e seguros aqui na Terra. 

Muitos, senão todos os contos de Berlin, refletem sua biografia. No Manual de Faxineira. Contos Reunidos, suas protagonistas vivem em Berkeley, Oakland, El Paso, Albuquerque, cidades pequenas e mineradoras do Chile e na cidade do México, todas cidades em que Berlin viveu. Além disso, elas trabalham nos trabalhos em que ela trabalhou, muitas têm exatamente quatro filhos e três divórcios, outras, assim como ela, conheceram uma vida de frivolidade endinheirada no Chile e têm uma mãe que bebe, um pai ausente e um avô abusador, lutam contra o alcoolismo e tiveram uma irmã com câncer. Ou seja, é bem evidente que suas personagens são projeções de si mesma. A vida de Berlin, expressa e recriada nas suas personagens, acaba gerando um efeito literário curioso: é como se um personagem de Tchecov escrevesse ele mesmo uma estória de Tchecov. Berlin nutria grande admiração pelo autor russo. Segundo ela, ele conseguia narrar a dureza da vida com a “objetividade de um médico” sem perder, nunca, a generosidade. Ela também queria fazer isso.

Diferentemente dos seus esparsos textos de memórias (compilados em 2018 em um livro organizado pelo seu filho: Welcome Home: A Memoir with Selected Photographs and Letters e lançados junto com uma nova coletânea de contos, Evening in Paradise), em seus contos Berlin ficcionaliza a própria vida, o que não é a mesma coisa que escrever a própria vida. Seus personagens sentem e respondem com a liberdade de personagens ficcionais cuja construção vai muito além de um exercício de memória. Isso parece ainda mais claro se olharmos para a grande distância que existe entre a brutalidade factual da sua biografia e o deleite estético de sua literatura. Entre um ponto e outro há engenho, trabalho e recriação do vivido, não apenas desejo de lembrar e recontar os fatos.

É esse engenho na sua escrita de contos que, afinal, nos faz ler as mais de 400 páginas da sua coletânea mais famosa. Os contos são vivos e frescos. E muito disso me parece vir de um senso incomum do ritmo e de uma sensibilidade hilariante para a criação de imagens. Enumerações aceleram o texto de repente e cortes abruptos de sintaxe – o que os gramáticos chamam de anacoluto – injetam energia e criam intimidade com o narrador. Todo o tempo somos lembrados do prazer que pode haver quando uma palavra segue outra palavra: “Even nuns jumped, jump jump they hovered blue in the air.” Tem imagem, tem esquisitice, tem ritmo. Nem todas as pessoas que tiveram histórias de vida extraordinárias conseguem contar boas histórias. Berlin teve as duas coisas: uma vida extraordinária e mais de uma pilha de contos extraordinários. 

James Wood, crítico literário americano, certa vez comentou que bastava um autor escrever uma pilha de contos decentes para ser chamado de “o Tchecov do país”. Convencida por Wood, eu contava me deparar com o epíteto enquanto lia comentários sobre a obra de Berlin. Mas ele não veio. A comparação mais recorrente é, na verdade, com o contista americano Raymond Carver: Lucia Berlin seria a versão feminina de Carver. Logo depois entendi o que tinha acontecido: “o Tchecov americano”, capaz de conciliar objetividade e generosidade, é Raymond Carver, constantemente comparado pela crítica ao mestre russo. Ser sua “versão feminina” foi o que coube a Berlin – e não deixa de ser lá um jeito de alargar a metáfora.


Maíra Matthes é escritora e doutora em filosofia pela Université Paris Cité. 

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