Ensaio

Desaparados da paisagem: estilo e quadros de Agenor Conceição da Silva

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Desaparados da paisagem: estilo e quadros de Agenor Conceição da Silva Ninho de Pegassos

Na segunda metade dos anos 60, Bom Jesus viveu uma efervescência cultural que acompanhava o mundo. Apesar da Guerra do Vietnã, o planeta vivia um irrefreável progresso, principalmente na música, já que o rock’n’roll se estabelecera como mola propulsora da indústria cultural. Era a sociedade do espetáculo que assentava suas bases. 

Bom Jesus não estava alheio a essa expansão da cultura. A partir do Ginásio, comandado pelos capuchinhos, a cidade viu principalmente o teatro ocupar o seu espaço, chegando mesmo a criar um festival depois de apresentações do seu grupo estudantil pelo país. Eram os jovens vivendo intensamente. 

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Daquele período, duas vertentes culturais se distinguiam em Bom Jesus. De uma parte, mais tradicional, nasceria a dupla Os Serranos, Edson Dutra e Frutuoso Araújo, futuro conjunto musical. De outro, aquele propulsar do teatro que Milton Baggio, as irmãs Zaira e Terezinha Belan, tratavam de fazer crescer. Eram incentivados pelo trabalho anterior do trio de capuchinhos, frei Getúlio, Hermeto e Cirilo. 

É neste contexto, órfão de pais, acolhido por Maximiano Tietböhl, que parece o jovem Agenor Conceição da Silva e o seu talento para a pintura. Talento nato. Ainda muito jovem já realizava trabalhos em bico de pena num estilo singular, que evitava simplesmente copiar a realidade. 

No final da década, Agenor apostando no seu talento, decide se mudar para São Paulo. Lá, é introduzido no circuito das artes e a finalidade é que seu autodidatismo receba o auxílio e o apuro da técnica, da tradição e experiência da História das Artes. 

E Agenor passa a frequentar o ateliê de Flávio de Carvalho, possivelmente então o mais polêmico e requisitado artista e produtor da capital paulista. E articulado. Flávio logo indica Agenor para expor na Associação dos Amigos do Museu de Arte Moderna, exposição que levaria em seguida a um convite para Nova Iorque. Foi meteórica a entrada de Agenor no circuito das artes. 

De volta ao Brasil, Agenor no entanto daria de frente com as dificuldades. Precisava de uma curadoria, de um agente para a sua produção, uma galeria que pudesse comercializar suas telas. E então, seu estilo peculiar padeceria da falta de estrutura e de um ateliê que o segurasse. 

Agenor, apesar das dificuldades, não abandonaria jamais o estilo e a sua singular forma de pintar que o catapultou em três anos de Bom Jesus a São Paulo e Nova Iorque. Como os grandes artistas na História das Artes, como um Cézanne, que apontava, Agenor sempre se via inquieto diante da realidade, da paisagem em particular. Para ele, a arte era negar o retratismo, era impregnar a natureza, a paisagem do “espírito” do artista. E seu guia, como seu peculiar bico de pena, era o grande ilustrador alemão Alfred Durer. 

Agenor tem uma grande produção neste estilo espalhada pelo Sul do Brasil, espalhada abaixo de São Paulo. Produziu bastante, mas suas exposições, poucas, não se refletiam num sustento tranquilo de sua arte. Era difícil se manter em São Paulo fiel ao seu estilo e às suas convicções. Agenor renegava com veemência a simples reprodução da realidade e haveria um preço a pagar por isso. 

E foi então que ainda nos anos 70 voltou a Bom Jesus e tentou a partir dali aprimorar a sua produção e, sim, descobrir aquele que seria o seu “tema”, o seu valor na pintura, a paisagem, mais especificamente os Aparados da Serra. 

E passou a pintar e a estudar, e observar vários outros aspectos que lhe estavam à disposição para criar desde o seu Aparados. E recluso em Bom Jesus, Agenor aprimoraria o seu bico de pena que, além de do traço minimalista de Durer, expressava também os pesadelos de Hieronymus Bosch. 

E as novas telas soaram ainda mais estranhas — e muitas vezes rechaçadas pelos mais próximos que queriam dele retratos originais, mais reais ao expressar o seu lugar. 

Por necessidade, por sobrevivência até o fez, mas sempre, como dizia, “contrariado” por não poder explorar aquilo que lhe apetecia. A paisagem. E a paisagem transfigurada, a paisagem apontada para o futuro, para o apocalíptico, para o Cosmos. 

E Agenor dizia admirar e usar nas suas composições o trabalho do suíço H. R. Gigers, criador das imagens de ‘Alien’, e do pintor tcheco Z. Burian, especializado em telas com ilustrações pré-históricas.

Agenor na passagem do século deixou Bom Jesus. Foi tentar este trabalho singular e inusitado em Londrina, que o recomendaram como ótimo para se manter. Nada. Logo estava em Caxias do Sul, onde também não se adaptou e volta então para Bom Jesus e para os seus ateliês improvisados e uma vida totalmente dedicada ao sustento de seus materiais para a criação de suas telas que chegava a vender por preços módicos. 

Agenor era um mestre. 

Ainda assim, era incapaz de encontrar um agente para suas telas, sempre em busca de uma galeria que o adotasse enquanto amadurecia e pintava mais e mais. Estava mergulhado no Cosmos, e tendo montanhas que se pareciam com os Aparados, mas que no fundo eram montanhas apocalípticas, seus cavalos eram cavalos apocalípticos. Tudo era apocalíptico no que ele produzia. Agenor produziu assim até que teve forças. Morreu em Bom Jesus, em 20 de junho de 2024. 


Paulo Ribeiro é escritor, autor, entre outros, de ‘Vitrola dos Ausentes’. Ex-professor da UCS, seu doutorado na PUC foi sobre Iberê Camargo escritor, intitulado Que forças derrubaram o ciclista? Relações entre a expressão literária e a expressão pictórica em Iberê Camargo. A orientação do estudo foi de Luiz Antonio de Assis Brasil e o texto publicado em ‘Tríptico para iberê’, editora Cosac & Naify, 2010, 

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