Ensaio

Dois monumentos literários: o livro de Vargas Llosa sobre Borges (Parte 2)

Change Size Text
Dois monumentos literários: o livro de Vargas Llosa sobre Borges (Parte 2)


A primeira parte deste ensaio você acessa aqui.

Publicidade Publicidade

A contagem do meio século de Vargas Llosa com Borges começa em 1963, data de Preguntas a Borges, entrevista publicada em jornais de Paris e Lima. Nessa época Llosa, com 27 anos, então autor da coletânea de contos Os chefes (1959) e do romance A cidade e os cachorros (1963), já aparecia como escritor de talento, mas muitos degraus abaixo do sexagenário argentino recebido com pompa em Paris. Essa disparidade fica evidente no acanhamento das perguntas – o que está fazendo na França? O que achou do encontro de escritores? Qual seu escritor francês favorito? Que livros levaria para uma ilha deserta? – e na perspicácia das respostas de Borges.

Um exemplo. Quando Borges cita Flaubert como o grande escritor francês, Vargas Llosa emenda uma pergunta sobre qual dos dois Flaubert, o realista de Madame Bovary e A educação sentimental ou o das grandes construções históricas Salambô e As tentações de Santo Antão. Sempre desconfiado das categorias e classificações, Borges dispara: o terceiro Flaubert, do inconcluso Bouvard e Pécuchet. Em 1975, Vargas Llosa publica A orgia perpétua, estudo dedicado à obra de Flaubert, muitíssimo mais sofisticado que o esquema antitético apresentado a Borges na entrevista.

O jovem Vargas Llosa, nessa entrevista de 1963, intuiu mas não avançou na identificação de Paris como centro legitimador da obra de Borges internacionalmente. Ele desenvolve o tema em artigo de 1999, também incluído em Medio siglo con Borges. Em Borges en París, Llosa, a essa altura consagrado nome do boom latino-americano, é certeiro: nenhum país desenvolveu melhor que a França a arte de detectar o gênio artístico forâneo e, entronizando-o e irradiando-o, apropriar-se dele (2020, p. 67). 

Esse diagnóstico sobre a centralidade agressiva de Paris no campo literário está em sintonia com excelentes estudos sobre o tema, A república mundial das letras, de Pascale Casanova, por exemplo, publicado em francês no mesmo ano do artigo de Llosa, 1999. Nesse livro, Casanova trata as tensões do meio literário como uma bolsa de valores que escancara o desequilíbrio entre centro e periferia. Nesse modelo, Paris ocupa o lugar de capital literária capaz de atrair autores das margens para o centro da cena literária. Borges é recorrentemente citado por Casanova como exemplo dessa dinâmica, flagrada também por Vargas Llosa no artigo citado.

Nesse texto, Llosa relembra o encontro de 1963 e o alvoroço causado por Borges na Paris dos anos 1960: conferências lotadas, com ilustres presenças na plateia (Roland Barthes, para ficar no exemplo mais eloquente) homenagens em suplementos literários, traduções e, claro, a referência a Borges no prefácio de As palavras e as coisas (1966), de Michel Foucault. O mote para Borges en París é o centenário de nascimento do argentino (1899 – 1999), largamente comemorado na capital francesa e descrito por Llosa como quase caricatural: “la trompetería y los fastos del centenario” (2020, p. 70). Aparecem também nesse texto avaliações que Llosa repete em outros da coletânea, o estilo inteligente e límpido de Borges, a concisão matemática, a adjetivação audaz, sua aversão ao gênero romance, seu venenoso senso de humor (chamou García Lorca de andaluz profissional, rebatizou o romance de Eduardo Mallea para Todo lector perecerá – o título verdadeiro é Todo verdor perecerá –, disse que a obra de Ernesto Sábato pode ser posta na mão de qualquer um sem nenhum perigo…).     

O ensaio de maior fôlego do livro é Las ficciones de Borges, de 1987. Registro de uma conferência em Londres, nesse texto Vargas Llosa comenta com mais detalhe aquelas que para ele são as linhas de força da narrativa borgeana. Esse comentário vem, no entanto, atravessado pela reflexão sobre sua própria narrativa, o quanto Llosa traçou para si um projeto literário em muitos sentidos oposto ao de Borges. Ele abre o texto com uma referência a Sartre e a tese do engajamento do escritor, sua referência de juventude, e o quanto o fascínio por Borges, iniciado na mesma época, colidia com esse modelo. Conclui afirmando que o Vargas Llosa de 1987 se afastou de Sartre e não deixou de admirar Borges, embora tenha também em relação a ele divergências artísticas e políticas.

No âmbito da admiração, Vargas Llosa aponta a ruptura que Borges representou com certo complexo de inferioridade do escritor latino-americano, a ideia de que todos têm direito à cultura ocidental. E isso sem deixar de ser profundamente argentino, conhecendo as limitações e potencialidades de sua condição periférica. Aqui, novamente Llosa está em sintonia com o debate teórico do período: Modernidade periférica, de Beatriz Sarlo, é de 1988, Jorge Luis Borges, um escritor na periferia, também de Sarlo, de 1993.  

Sarlo, uma das mais respeitadas intérpretes borgeanas, trata nesses dois livros da relação entre literatura e sociedade em um país periférico que se moderniza fortemente, a Argentina. Em Modernidade periférica, ela analisa as respostas literárias que escritores e escritoras de diferentes classes sociais e posições políticas (Borges incluído obviamente) deram à transformação de Buenos Aires em metrópole nos anos 1920 e 1930. Em Jorge Luis Borges, um escritor na periferia ela segue com problema semelhante mas dedicando-se exclusivamente à literatura de Borges. O argumento de Sarlo é que o cosmopolitismo de Borges é altamente argentino, que Borges registrou como ninguém o conflito de se escrever literatura em uma nação periférica. Para Sarlo, Borges imaginou uma relação não dependente da literatura estrangeira, dialogou de igual para igual com a literatura ocidental, fez da margem uma estética. E é mais ou menos essa a conclusão a que chega Vargas Llosa no texto de 1987. Em suas palavras: “Pocos escritores europeos han asumido de manera tan plena y tan cabal la herencia de Occidente como este poeta y cuentista de la periferia. […] Su cosmopolitismo, esa avidez por adueñarse de un ámbito cultural tan vasto, de inventarse un pasado propio con lo ajeno, es una manera profunda de ser argentino, es decir, latinoamericano” (2020, p. 49-50).     

Ainda em Las ficciones de Borges, Llosa aponta outra dívida dos escritores latino-americanos com o argentino, o que ele chama de uma revolução na tradição estilística da língua espanhola. Segundo Vargas Llosa, na prosa de Borges há quase tantas ideias quanto palavras, ou seja, se expressa em uma precisão e concisão absolutas, algo frequente nas tradições de língua inglesa e francesa, mas pouco presente na língua espanhola, para Llosa, caracterizada pela abundância, a expressividade emocional e certa imprecisão conceitual. Novamente em suas palavras: “Dentro de esta tradición, la prosa creada por Borges es una anomalía, pues desobedece íntimamente la predisposición natural de la lengua española hacia el exceso, optando por la más estricta parquedad” (2020, p. 53).     

Deixando de lado o tanto de generalização que pode haver nessa síntese de Llosa, é interessante observar o quanto esse elogio ao estilo de Borges logo se transforma em crítica, já que a precisão e perfeição da prosa borgeana seriam também responsáveis por seu desdém pelo romance. Para Llosa, há uma imperfeição congênita ao gênero romanesco, uma dependência do “barro humano”, intolerável para Borges. Em singular argumentação, Vargas Llosa usa um mesmo aspecto da prosa de Borges para saudá-lo e apontar uma limitação, pois Llosa parece sugerir que não escrever romance é um defeito de Borges.     

Minha afirmação é um pouco exagerada, para Llosa o descaso de Borges pelo romance é consequência da prosa que valoriza e não resistência ao gênero em si, mas esse exagero ilumina, acho, um traço importante da concepção de Llosa sobre o romance. Para o peruano, o romance é dependente do “barro humano”, está condenado a se confundir com a totalidade da experiência humana, ideias e instintos, indivíduo e sociedade, o vivido e o sonhado, e não pode ser confinado ao puramente especulativo e artístico. Ou seja, Llosa está vinculado (como ensaísta e como romancista) à tradição realista do romance, não diria lukacsiana, pois ele se afasta cada vez mais de qualquer perspectiva de esquerda, mas ainda assim realista, empenhada em elaborar literariamente aspectos da realidade social.

Talvez seja essa filiação à tradição realista que leve Llosa a encerrar seu comentário sobre a ficção de Borges de forma bastante crítica:

Ninguna obra literaria, por rica y acabada que sea, carece de sombras. En el caso de Borges, su obra adolece, por momentos, de etnocentrismo cultural. El negro, el indio, el primitivo en general aparecen a menudo en sus cuentos como seres ontológicamente inferiores, sumidos en una barbarie que no se diría histórica o socialmente circunstanciada, sino connatural a una raza o condición. Ellos representan una infra-humanidad, cerrada a lo que para Borges es lo humano por excelencia: el intelecto y la cultura literaria. Nada de esto está explícitamente afirmado ni es, sin duda, consciente; se trasluce, despunta al sesgo de una frase o es el supuesto de determinados comportamientos. […] para Borges la civilización sólo podía ser occidental, urbana y casi casi blanca. El Oriente se salvaba, pero como apéndice, filtrado por las versiones europeas de lo chino, lo persa, lo japonés o lo árabe. Otras culturas, que forman también parte de la realidad latinoamericana – como la india y la africana –, acaso por su débil presencia en la sociedad argentina en la que vivió la mayor parte de su vida, figuran en su obra más como un contraste que como otras variantes de lo humano. Es ésta una limitación que no empobrece los demás admirables valores de la obra de Borges, pero que conviene no soslayar dentro de una apreciación de conjunto de lo que ella significa. Una limitación que, acaso, sea otro indicio de su humanidad, ya que, como se ha repetido al cansancio, la perfección absoluta no parece de este mundo, ni siquiera en obras artísticas de creadores que, como Borges, estuvieron más cerca de lograrla. (2020, p. 64-65)  

Em 1987 Vargas Llosa reprovava o conteúdo racista da obra de Borges e assumia uma postura dialética não raro ausente na fortuna crítica do argentino. Com isso, podemos retomar o debate sobre o movimento atual de derrubada das estátuas e sua historicidade brutal: a violência policial e de agentes da “ordem” contra pessoas negras, que com o assassinato de George Floyd ganhou cobertura internacional, mas está longe de ser ato isolado (em Porto Alegre, a tortura, o espancamento, o assassinato de João Alberto Freitas no estacionamento do Carrefour reafirmam nosso fracasso civilizacional). Passei de um assunto a outro de forma extremamente brusca e talvez irresponsável para evidenciar que o racismo, ou melhor, a tolerância que cada presente tem com o racismo incrustado na sociedade e na cultura, é pedra de toque para o debate sobre os monumentos, sua destruição, manutenção ou atualização. Por um lado, é preciso saudar a dialética de Vargas Llosa: sua avaliação crítica complexifica nossa relação com um escritor-monumento como Borges. Por outro, precisamos atualizar essa crítica: nosso presente pode e quer relativizar o racismo na obra de Borges em nome dos inúmeros valores que ela possa ter? As revoluções estilísticas e o inconformismo intelectual de Borges são suficientemente revolucionários e inconformistas hoje? 

De novo, como no campo da história, esse terreno está em disputa no meio literário. Haverá quem defenda Borges inclusive da crítica de Vargas Llosa. Haverá quem concorde ipsis litteris com Llosa, quem ache sua leitura amena e condescendente, e uma série de outras reações que não sou capaz de aventar. Isso não quer dizer que essas reações sejam igualmente legítimas porque elas podem se fundar em preconceito e ignorância. É importante ter consciência que em sociedades racistas e desiguais como a brasileira e grande parte das latino-americanas (mas não só nelas), em que intelectuais negros e indígenas foram historicamente excluídos do debate público, há consensos tidos como generalizáveis que são, na verdade, naturalizações da intelectualidade branca. Idealmente, a intelectualidade branca deveria fazer valer a racionalidade que tanto propaga para ampliar o repertório de argumentos e ressalvas escutando as vozes antes lateralizadas e que agora com justiça protagonizam a cena. 

Em 1988, Lélia Gonzalez já afirmava: “graças aos trabalhos de autores africanos e amefricanos – Cheikh Anta Diop, Théophile Obenga, Amílcar Cabral, Kwame Nkrumah, W. E. B. Du Bois, Chancellor Williams, George G. M. James, Yosef A. A. Ben-Jochannan, Ivan Van Sertima, Frantz Fanon, Walter Rodney, Abdias do Nascimento e tantos outros –, sabemos o quanto a violência do racismo e de suas práticas nos despojou do nosso legado histórico, da nossa dignidade, da nossa história e da nossa contribuição para o avanço da humanidade nos níveis filosófico, científico, artístico e religioso” (2020, p. 136). 

Há outro texto de Medio siglo con Borges que pede um comentário mais demorado. Em Borges, político, de 1999, Llosa segue a avaliação crítica agora comentando a discutível atuação política de Borges. Como se sabe, em termos políticos Borges foi um conservador, muitas vezes reacionário. São inúmeras suas falas antidemocráticas, em especial envolvendo o contexto argentino, mas também para além dele. Llosa não diminui esse aspecto da trajetória de Borges, até porque eles compartilham parte desse conservadorismo (que para eles são ideias liberais). Mas Vargas Llosa faz questão de se distinguir de Borges quando o assunto é o apoio a ditadores, principalmente Videla e Pinochet. Ele se pergunta: “¿Cómo se explica esta ceguera política y ética en quien, respecto al peronismo, al nazismo, al marxismo, al nacionalismo, se había mostrado tan lúcido?” (2020, p. 83). 

Novamente deixando de lado o quanto há de cegueira política e ética de Vargas Llosa por colocar em linha peronismo, nazismo, marxismo e nacionalismo, como se o nazismo fosse comparável aos outros três, como se os quatro termos fossem comparáveis entre si, enfim, deixando de lado esse ponto grave, a afirmação reforça o ponto de vista crítico de Llosa em relação a Borges. Como em outros momentos do livro, ele não recua diante de aspectos condenáveis da trajetória do argentino, embora esses aspectos não diminuam seu interesse e admiração pela literatura de Borges. Vargas Llosa identifica racismo em textos de Borges e posturas antidemocráticas em sua atuação como homem público e também considera revolucionário seu estilo literário e definitiva sua influência entre os escritores de língua espanhola. Quanto dessa mediação não é dependente de alguém como Llosa, homem branco Prêmio Nobel de Literatura? Isso que aprendemos a valorizar como razoabilidade pode ser generalizável como atuação ideal da crítica?

Bom, escrevi este texto, despendi tempo e energia tentando entender o lugar de um livro de Vargas Llosa sobre Borges à luz do movimento atual de derrubada de monumentos. Escolhi escrever sobre esse livro e esses autores e não sobre outros mais urgentes e que recebem menos atenção da crítica, porque acho que esses movimentos são mais complementares do que excludentes. Atualizar a crítica é lançar novos problemas ao que já está assentado e abrir espaço para o que estava fora. Se estou reafirmando Borges e Vargas Llosa como monumentos, se estou defendendo a necessidade de seguirmos nos dedicando ao cânone – e parte dessa postura responde a meu lugar de professora universitária branca –, essa posição não indica necessariamente homenagem e desejo acrítico de permanência. Os monumentos estão caindo porque o presente está revendo suas homenagens, mas homenagear não é a única função dos monumentos. Nesse sentido, há uma sabedoria na derrubada de monumentos em que predominam o conformismo e a reverência.  

Mediação semelhante pode ser feita no debate sobre o cânone literário. O que precisa ser questionado é a reverência a um conjunto de livros e autores destituída de crítica e de atualização de perguntas. Assim, o livro de Vargas Llosa cumpre uma função importante na arguição do cânone na medida em que não assume tom meramente reverencial, mais importante ainda se consideramos o alcance mercadológico de um livro desse tipo; muitos leitores se informarão por esse livro dos aspectos questionáveis da trajetória de Borges.

Embora Vargas Llosa tenha feito o que poderíamos chamar de monumentalização crítica de Borges, ele não fez todo o trabalho. É tarefa de outros críticos tensionar a posição de Llosa, e dessa tensão pode-se chegar à conclusão de que sua crítica é insuficiente, equivocada, autorreferente. A frase lapidar de Walter Benjamin – não há um documento de cultura que não seja também um documento de barbárie –, deveria ser uma premissa para historiadores e historiadores literários empenhados em entender seus objetos de forma complexa. O problema é que inclusive os conceitos de cultura e barbárie estão em constante disputa e tensão. Um campo intelectual ampliado, com pesquisadores antes secundarizados do debate, pode nos ensinar a ler barbárie onde vemos apenas cultura. 


Karina de Castilhos Lucena é professora de literatura no Instituto de Letras da UFRGS.

RELACIONADAS
marca-parentese

Abra um parêntese no seu fim de semana com jornalismo e boas histórias. Deixe seu email e receba toda semana as newsletters da revista Parêntese.

Receba de segunda a sexta a Matinal News, a newsletter que traz as principais notícias e eventos de Porto Alegre e do RS.