Ensaio

Dona Leda do Menino de Deus e o irmão Ektor von Hofmeister

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Dona Leda do Menino de Deus e o irmão Ektor von Hofmeister

Há um tempo venho pensando em ser gauche na vida, que, no meu caso, significaria ser o avesso do oposto – para a inconformidade do Drummond. Ando ruminando nas vantagens, pensamentos embalados pelas mãos da melancolia, da nostalgia e do niilismo. No dia 26 de maio, recebo uma mensagem de dona Leda Hofmeister. Pelo Messenger, pede que eu entre em contato pelo Whatsapp. Deixa o telefone. 

“Pronto”, penso, “agora ainda tenho um familiar desgostoso com algo que publiquei.” Há alguns meses, divulguei o resultado de uma pesquisa sobre o gaúcho Irajá Freire Hofmeister (1939-2018), que se tornou um estilista de roupas femininas conhecido fora do país nas décadas de 1960 a 1980 [1]. Com o nome Ektor Hofmeister ou simplesmente Ektor. É uma história complexa, tem aventura, sofrimento, falibilidade humana, excentricidade e um jovem de muito talento – esse provavelmente subnoticiado pelo sensacionalismo com que seus flertes com a homossexualidade e a travestilidade e/ou a arte de drag-queen eram tratados pela imprensa. 

Alguém desconhecido – com o mesmo sobrenome – solicitando uma conversa? “Batata”, reflito. Teclo de volta. Ela me convida para ir até o apartamento em que mora no Menino Deus, numa rua próxima ao shopping Praia de Belas. É uma quarta-feira, acertamos para a quinta minha ida – não quero perder o bonde, já acreditando que não pode ser tão ruim assim. 

Ela abre a porta como se fosse receber um velho conhecido. As cãs combinam com a idade, 89 anos. Chamam a atenção a lucidez e a jovialidade numa figura mignon. Dona Leda acabara de receber, do México, uma remessa com lembranças do irmão, que faleceu em decorrência da diabetes em 2018. É sobre essas memórias que iremos bater um papo, eu sentado no sofá aconchegante, gravador ligado para nada perder. 

Ela diz que leu meu texto sobre o Irajá. E que só não gostou da primeira parte, na qual relatei um pouco das atribulações de quando ele chegou ao Rio de Janeiro no início dos anos 1960. Mais especificamente de quando foi preso, acusado do envolvimento em um roubo de joias, coisa que não ficou comprovada pelos noticiários, que muito exploraram a existência de uma “gang de pederastas” (Última Hora, 09/08/1960). Leda discorre sobre o caso, en passant, negando que tenha havido participação do irmão. 

Meio que na defensiva, alego que essas passagens da juventude pincelam cores de humanidade a uma história que só começa ali. Aliás, como bem ela segue desfiando, iniciou muito antes, no noroeste gaúcho, onde nasceram os cinco filhos de Homero Pereira Hofmeister e de Etelvina Freire Hofmeister, em Palmeira das Missões.  A mãe veio de Dom Pedrito, e o pai, que era representante comercial, era nato de Palmeira das Missões. 

Como não tinha ginásio na cidade natal, Leda foi ainda jovem para Carazinho, onde morou por um tempo na casa de uns tios. Em função do trabalho do pai, a família mudou para Santo Ângelo quando ela tinha 15 anos. Do irmão, desse período, ela relembra que “Irajá era sempre uma coisa à parte. Tudo o que ele tentava fazer, ele fazia melhor que todo o mundo. Ele ganhou um patinete, e com aqueles patinetes ele voava por aquelas ruas de Santo Ângelo, ele dava show, sabe?”

A criatividade é uma constante nas rememorações. São diversos exemplos de engenhosidade: “No Natal na nossa casa, também, eu não sei como ele fez, mas ele fez uma árvore de Natal […], embaixo tinha um moinho, e esse moinho tinha água que rodava o moinho. Não sei como ele fez aquilo, mas era uma coisa, assim, preciosa.” Um dia dona Etelvina foi passar uns dias com Leda, que já estava casada. Era vésperas do nascimento de um neto. “Quando ela voltou pra casa dela, ela não reconheceu a casa, porque ele tinha mudado tudo, tinha pintado, tinha transformado toda a casa, estava linda e maravilhosa. […] Com pouca coisa, ele transformava numa obra de arte.” E essa inclinação para a decoração existia desde pequeno. 

Enquanto Leda queria estudar, o irmão fez o ginásio, mas não concluiu o ensino médio. No entanto, ela ressalta, na área intelectual, a facilidade que ele tinha em aprender idiomas: “Ele nunca estudou. E ele falava francês, falava italiano, falava inglês, tudo por ouvir, sabe, por tentar se comunicar, ele se desenvolveu muito nessa parte.” 

Ektor. Assinado por Eloísa D./1961 Acervo de Leda Hofmeister.

Enrolo para indagar sobre a sexualidade – e acho que ela sorri, mais por dentro do que por fora, percebendo o meu titubear. Afinal de contas, trata-se de uma família vivendo em uma cidade que o Google aponta ser “um município que cultiva as tradições gaúchas”, sem contar a época, entre 1940 e 1950. Quando eu lhe disse que os homens de antigamente eram mais “rígidos”, tentando eufemismos para termos mais diretos, ela pescou e foi mais direta: “Preconceituosos.” Com um certo alívio, questionei se um rapazinho com tantos dons artísticos despertava desconfianças: “Sabe que era uma coisa assim que não […]. Eu, por exemplo, não percebia nada. Eu percebia isso: a arte dele, a facilidade que ele tinha para determinadas coisas. Mas essa parte da sexualidade dele, eu não percebi.”

Dona Leda fez magistério no então chamado Curso Normal e começou a lecionar ainda em Santo Ângelo como professora municipal. Ela comenta que a sua vida passou a lhe tomar o tempo, o que quer dizer que guarda passagens, na memória, como irmã, não como alguém quem vigiou outrem o tempo inteiro. “Chegou uma certa época em que ficou evidente demais” a questão da homossexualidade. Ela já estava casada quando recebeu, em casa, a irmã do marido, que se tornou uma grande amiga de Irajá. Foi por esse tempo, quando ele já estava moço, que ela também notou que havia algo diferente. Antes, todos “encaravam como se fosse brincadeira” de criança, “não uma coisa séria”, mas ali ela se deu conta da “diversidade sexual dele”. “Comecei a perceber e dei bastante apoio. Ele ia lá para minha casa, no apartamento, ficava lá. Anos 1953-54.”

Com os pais, as relações foram mais difíceis. Eles entraram em contato com um sobrinho, que trabalhava no Exército, em São Luiz Gonzaga, para onde mandaram Irajá. “Daí vem uma parte meio triste, sabe […]. Ele não queria ir, mas a minha mãe e o meu pai, esse primo, achavam, eles tinham as melhores das intenções. E aí botaram ele num trem […]. E ele foi sem ser muito consultado, sem ser muito respeitado, digamos, sobre o desejo dele.” Essa passagem diz respeito ao período em que Irajá frequentou a Escola de Sargentos das Armas (ESA), em Três Corações, em Minas Gerais. “Aí ele se libertou. No momento em que mandaram ele para a escola sem o aval dele […].” Ele ficou um tempo lá, sendo que saiu direto para o Rio de Janeiro, sem rever os familiares.

Passados uns seis anos, Leda estava grávida do quarto filho em Santo Ângelo. O marido estava fazendo um curso de paraquedista no Rio de Janeiro. Logo ela também se mudou para lá, passando a morar em Madureira. Ali voltou a ter contato com o irmão, que aparecia dirigindo uma lambreta “todo faceiro”. Irajá, a essa altura, já trabalhava dublando Sophia Loren nos shows de um dos mais famosos empresários da noite carioca, o também gaúcho Carlos Machado.

Pelo que ela recorda, nesse tempo, o irmão mantinha um caso com uma senhora. Embora eu tenha titubeado em registrar a bissexualidade naquele primeiro esboço biográfico, a conversa não deixa dúvidas sobre esse aspecto. Apesar do estrondoso sucesso de “Sophia Loren”, que ganhou capas de revistas como a Manchete e matérias em diversos jornais, a irmã não foi assistir aos espetáculos. Entre o desejo contemporâneo e um certo arrependimento tardio, ela confessa: “Eu tinha vontade de ir, ele também tinha vontade que eu fosse, mas pelas circunstâncias, na época, não deu como encaixar a minha ida lá, eu não tinha com quem deixar as crianças […], uma série de coisas impediu minha ida lá.” “Eu teria tido muito prazer em ver um trabalho tão bonito, tão perfeito”, diz ela sobre a representação como travesti (denominação usada na época). As fotos confirmam a semelhança entre a atriz italiana e dublê.

Ektor como Sophia Loren. Revista do Rádio, 1961.

No RS, a família ficou sabendo. Eles tinham retornado a morar em Palmeira das Missões. Leda afirma que “a mãe sofreu um pouco, porque as pessoas eram um pouco maledicentes, não eram diretamente, mas sugeriam coisas. E eu sei que ela sofreu bastante, porque, na época, na idade dela, era muito difícil aceitar esses tipos de mudança. Numa família que era muito certinha. […] Nem tanto pela religião católica, mais por uma questão moral. Porque era uma coisa diferente. E o que é diferente sempre causa mágoas, alegrias, causa alguma coisa […]. Pra minha mãe, causou muita tristeza. O meu pai era mais fechado, não verbalizava muito. Mas a mãe a gente sabe que ela sofria, mas ela estava sempre querendo que ele viesse, porque ela estava com saudades.” 

Dona Etelvina teve que aguardar um tanto pelas visitas, o que a filha acredita ter sido em função de certo ressentimento guardado pelo irmão, que demorou a “aceitar a visão da mãe.” Mas Irajá retornou. De início, não ficava na casa materna, mas, anos depois, passou a se hospedar com a mãe. “O amor era muito grande”, ela amarra ao explicar o que levou ambos a reatarem. Quando foi anunciada a chegada de Irajá, certa feita, a mãe “ficou numa felicidade tão grande” que se preocupou em ir comprar um sofá novo para colocar no apartamento em que vivia, já doente, para recebê-lo.

A fase como “Sophia Loren” foi estrondosa, mas ele saiu do Brasil em seguida. Conforme a irmã, ainda desgostoso com a repercussão do envolvimento com o roubo de joias, de um anel. Na Europa, seguindo pela Itália e França, Ektor ganhou renome como estilista prêt-à-porter, o que ecoou no Brasil, embora aqui não tenha recebido a atenção que merecia, porque a fase como travesti, nos palcos de Machado, permaneceu ad aeternum o centro das atenções da imprensa e dos mexericos.

Na imprensa italiana. Acervo Leda Hofmeister.

Para a irmã, apesar de alguns dizerem que Ektor teria sido influenciado por uma tal de Maria Augusta, quem de fato o inspirou na arte da costura foi a mãe, Dona Etelvina. “Ele conheceu uma pessoa chamada Maria Augusta, que era ligada à moda […]. Eu não tenho tanta certeza disso, porque a minha mãe, em matéria de costura era maravilhosa, tanto na parte de costura como na parte de bordados.” “A minha mãe fazia bordados divinos […]. E ele via isso. Ele apreciava. Ele dava palpite.”

Após anos na Europa, ele veio ao Rio Grande do Sul, em 1969, para o casamento de uma das irmãs. Quando desembarcou no Rio de Janeiro, com um belo vestido de casamento que seria usado pela irmã, ficou retido na alfândega, tendo que desembolsar um valor significativo para liberar os itens que trazia consigo. Para os jornalistas, comentou que teria sido melhor que, lembrando a fase de “Sophia Loren”, tivesse vindo vestindo o traje. 

Os pais já haviam se mudado para Porto Alegre. A relação com os familiares foi se tecendo novamente com a própria arte da costura e da moda. Ele mandava peças prontas para algumas ocasiões especiais – como casamentos ou baile de debutantes das sobrinhas – e croquis que eram costurados aqui. Enquanto isso, num país tupiniquim, nunca houve uma linha que amarrasse a expertise profissional ao reconhecimento. “Ele fala que o Brasil nunca valorizou o trabalho dele. Não valorizou mesmo, sempre procurou ver um lado preconceituoso, negativo, e não procurou ver a luta dele para sobreviver e mostrar o seu valor, mostrar sua capacidade, seu potencial. Foi uma luta muita grande.”

Modelo desenhado por Ektor. Acervo Leda Hofmeister.

Na Europa, quando a sociedade da qual Ektor participava foi desfeita após morte de um dos integrantes, versão recordada pela irmã, ele passou a enfrentar dificuldades. Ele era “gastador, não era de guardar muito dinheiro”, o que o deixou numa situação complicada. Em seguida, ele tentou a vida nos Estados Unidos, mas não se adaptou. O próximo destino foi o México, para onde foi com motivações que ela não sabe precisar. Leda visitou o irmão algumas vezes nesse país. Ele continuou nas colunas sociais, obtendo destaque como estilista. Era dono de uma boutique de alta-costura chamada Senzala, frequentada por pessoas famosas. Leda cita deputadas e a segunda mulher do presidente mexicano.

Modelo de Ektor. Revista Cláudia. Acervo Leda Hofmeister.

A residência na qual ele vivia era tão belamente ornada, que muitos clientes acabavam pedindo dicas de decoração, o que o levou a desempenhar essa outra atividade – a mesma tão evidente nos tempos de juventude -, que acabou se tornando a principal. 

A entrevistada faz questão de trazer um fato pitoresco à baila, descrevendo o momento em que ele precisou da cidadania para permanência. “Aí ele casa com uma pessoa lá, ele casou com uma pessoa com esse objetivo, eram amigos. Ela nunca incomodou ele. Foi amiga dele até o final.” Entre os mexicanos, Ektor viveu confortavelmente em Lomas, na cidade do México, e, depois, ao final da vida, residiu em Puerto Vallarta.

Leda Hofmeister ao lado do acervo. Ao fundo, desenho de Ektor por Eloísa D./1961.

O patrimônio, no México, ficou com a filha de uma cuidadora sua, a quem Ektor muito se afeiçoou. Dona Leda, por sua vez, é guardiã das memórias, o que decidiu compartilhar com algum arquivo que possa digitalizar os recortes – que estão guardados em pastas com certa organização cronológica – e dar livre acesso para pesquisadores, no que prometi ajudá-la de alguma forma. 

Com formação em Pedagogia, Leda foi docente boa parte da vida, o que lembra entre o prazer de ter exercido o ofício e a tristeza com a desvalorização da profissão. Ex-professora do Instituto de Educação e de vilas de Porto Alegre, hoje está aposentada. 

Ela se despede com a mesma efusão com que me recebeu – dando um exemplo de preocupação genuína com a memória arquivística e de total desprendimento para falar sobre o passado sem, do presente, esconder coisa alguma. 

E eu volto para Estrela, onde resido, com uma fenda no niilismo.


  1. Detalhes da biografia de Ektor, um vida marcada pelo multitalento, ao mesmo tempo enfatizada e apagada pela sexualidade, podem ser acessados no meu texto para o blog da Rita Colaço

Jandiro Adriano Koch, ou Jan, nasceu e vive em Estrela, RS. Graduou-se em História pela UNIVATES e fez especialização em Gênero e Sexualidade. Com quatro livros lançados, dedica-se a estudar e mostrar vivências LGBTQI+, especialmente em sua região, o Vale do Taquari. Na Feira do Livro de 2019, lançou um novo livro, pela Libretos, Babá – Esse depravado negro que amou.

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