Ensaio

Dramaturgia de autoria de mulheres no Rio Grande do Sul: existência e resistência

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Dramaturgia de autoria de mulheres no Rio Grande do Sul: existência e resistência Natasha Centenaro (Foto: Vanessa Raminelli)

O teatro – desse jeito genérico de se pensar – fez meus olhos se apertarem e se abrirem num feixe de brilho desconhecido ao meu cérebro de criança com quatro anos. A velocidade daquela luz do primeiro espetáculo ainda reverbera no meu corpo e chega de partícula em poeira até o lugar por mim escolhido, enquanto escritora, pesquisadora, dramaturga, professora. 

Diante da restrita habilidade em palcos, ruas, espelhos, me resignei resiliente na atuação das palavras nas páginas. Pela escrita, me formo mulher em busca de outras mulheres que, assim como eu, seguem explorando a palavra para existir e resistir. A palavra para encenar. Aquela palavra para se ler como peça. A palavra que é para ser performada, entoada, gritada ou sussurrada. A palavra que é para ser integralizada, sentida, guardada e expelida pelo gesto, pelo corpo, pela ação. No teatro. 

A palavra para a cena produz uma espécie de dependência, alto risco de desencantamento encantatório do cotidiano. Daí que, tomada pelas possibilidades da dramaturgia, voltei a me perguntar sobre as palavras e os textos forjados pelas mulheres. Estão publicados? São encenados? Têm reconhecimento de crítica e público? 

Desde 2019, conduzo uma pesquisa independente a fim de mapear a dramaturgia de autoria de mulheres no Brasil. Pensei, incialmente, em duas variáveis: a primeira delas seguindo a metodologia da pesquisa realizada pelo grupo Dramaturgia Contemporânea: Representação e Crítica, da UnB, coordenado pelo professor André Luis Gomes, a partir dos catálogos das editoras, em categorias como “Dramaturgia” e “Teatro”; já a segunda, a partir dos dados coletados na categoria “Autor” do Prêmio Shell de Teatro. O prêmio é restrito ao eixo Rio de Janeiro-São Paulo, com duas premiações por ano (uma por estado). A categoria mudou, no site, para “Dramaturgia”, em 2019. 

(Foto: Édnei Pedroso)

Você sabe qual é a porcentagem de autoras de teatro presentes em catálogos de editoras maiores e independentes no cenário nacional? E qual é a porcentagem de dramaturgas vencedoras do Shell?

De 2019, ano em que fiz o primeiro levantamento, para 2021, os resultados se modificaram, mas ainda dão conta de uma absoluta disparidade de gênero. A começar que são poucas as editoras que mantêm em seus catálogos publicações do gênero dramaturgia. Para se ter uma ideia da disparidade, adianto aqui alguns resultados: no Prêmio Shell de Teatro, na categoria Autor, desde 1988, ano em que começou, até 2018, dos 60 prêmios no total, apenas 9 foram para mulheres dramaturgas – 15% e 5 prêmios para duplas – homem e mulher – 8,33%. Somando os percentuais, chega-se a 23,33%, ou seja, nem 25% do total. A pesquisa continua e sigo divulgando esses dados em eventos e palestras sobre o assunto. 

Em 2021, estabeleci o foco da pesquisa no estado do Rio Grande do Sul e comecei um projeto inédito, executado através do Edital Criação e Formação Diversidade das Culturas, realizado com recursos da Lei Aldir Blanc nº 14.017/20. Além do levantamento de dados quantitativos sobre a produção, publicação e reconhecimento de dramaturgia de mulheres em catálogos de editoras e premiações da área, busco identificar o perfil das dramaturgas, através de um questionário. A divulgação dos resultados será feita no lançamento do site do projeto, concomitante à realização de oficina de dramaturgia voltada exclusivamente para mulheres, no mês de setembro.  

(Foto: Édnei Pedroso)

O levantamento vai indicar as autoras mulheres que escreveram e escrevem dramaturgia no estado, desde 2010 até hoje. Para mapear as dramaturgas em exercício, a pesquisa utiliza o critério de autoria de, ao menos, um texto em formato dramático escrito e publicado (impresso ou online) e/ou um texto ou roteiro de peça encenado (presencial ou virtualmente). O formulário foi pensado para compreender os diferentes perfis e posteriormente traçar estratégias de visibilidade e divulgação da produção das dramaturgas. 

As respostas serão recebidas até a primeira quinzena de agosto. O questionário pode ser solicitado pelo e-mail [email protected]. A pesquisa pretende alcançar o maior número possível de mulheres residentes nas diferentes cidades do estado. Se você é uma delas, ou conhece uma dramaturga em ação, não deixe de fazer contato!  

(Foto: Édnei Pedroso)

Logo estarei de volta para o segundo ato, contando mais sobre os resultados da pesquisa no RS. Será que as mulheres se percebem e se reconhecem como dramaturgas? Quem são elas? 

Aguardem o terceiro sinal tocar de novo! 


Natasha Centenaro é doutora em Letras – Teoria da Literatura (PUCRS / CNPq) com estágio na Sorbonne Université – Faculté des Lettres; mestra em Letras – Escrita Criativa; Licenciada em Letras – Língua portuguesa e literatura (PUCRS); jornalista, professora, escritora e dramaturga. Autora de duas vezes draMática (EDIPUCRS, 2018).

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