Ensaio

Em tempos de pandemia…

Change Size Text
Em tempos de pandemia… "Os curumins e cunhantãs livres de Nazaré em tempos de pandemia não estão mais fazendo suas brincadeiras, correndo livremente, jogando bola, brincando de pião..."(Foto: Napra/Divulgação)

Compilação de relatos (fragmentos da autora)

Os curumins e cunhantãs livres de Nazaré em tempos de pandemia não estão mais fazendo suas brincadeiras, correndo livremente, jogando bola, brincando de pião, se ajuntando para pintar o cabelo com urucum, para pular n’água, para irem arpoar os peixinhos com seus arquinhos e flechinhas.

Os curumins e cunhantãs de Nazaré estão ficando dentro de casa. No começo, quando o coronavírus chegou eles ainda se arriscavam a sair com as máscaras caseiras, feitas pelas mães e avós, mas agora estão assustados, pois estão vendo a tristeza de todas e todos pela perda de uma das guardiãs dos nossos saberes tradicionais: Dona Lurdes, que exerceu por muito tempo o dom de parteira e que até antes de cair doente ainda fazia o uso da medicina tradicional. Mas essa doença a pegou desprevenida… Os curumins e cunhantãs sabem que estamos vivendo tempos difíceis… Sentem que nesse tempo a liberdade está suspensa.

Nazaré está triste, sem a alegria e algazarra dos curumins e cunhantãs livres correndo para cima e para baixo e com a partida da mãe Lurdes! Nossa anciã.

Escrevi esse quase poema na primeira fase de covid-19 em Nazaré, distrito de Porto Velho/RO, às margens do Rio Madeira, território ancestral Mura, após o falecimento da Dona Lurdes, que foi parteira e cuidadora das plantas medicinais. Todas as pessoas que precisavam de algum planta da nossa medicina tradicional era só ir lá com ela. Eu a chamava de cuidadora das plantas, porque, depois das hidrelétricas no rio Madeira, todas as vezes, no período da inundação, ela tirava as plantas do quintal dela, colocava em latas e outros vasos e as suspendia, e quando a água descia ela as plantava tudo de novo no seu quintal.


A pandemia chegou em Nazaré no início do mês de março de 2020. Os moradores de lá estavam assombrados desconjurando o que estavam vendo na televisão sobre as imagens das pessoas na China que caíam repentinamente no chão sem respiração, mas achavam que estariam protegidos em seus lugares. Até mesmo eu achei que não ia chegar por aqui, mas quando vi cada vez mais perto, vi que ia chegar até nós a qualquer momento.

Na primeira semana de março de 2020 ainda iniciamos as aulas, mas não seguimos adiante, pois foi decretado pelo governo do Estado que era para suspender as atividades nas escolas. Num primeiro momento alguns acharam que era exagero, que não precisava tanto. A vida continuou seguindo no seu cotidiano, ninguém usava máscara, a não ser o professor cubano que leciona na escola estadual. Os moradores de Nazaré seguiam a vida, plantando, colhendo, pescando, festejando. Os que estavam na cidade trabalhando, estudando, cuidando da saúde ou mesmo passeando, voltaram para as suas localidades às margens do rio Madeira.


Ficamos bem até as primeiras semanas de maio de 2020, quando foi alarmado o primeiro caso de covid-19. Eu e meu companheiro já havíamos vindo para a cidade, foi uma decisão que tomamos de um dia para outro, quando nos foi oferecida uma carona ainda no mês de março. Foi difícil decidir vir para a cidade, mas nosso filho mais velho estava na Maloca Querida, como chamamos nossa casa em Porto Velho. Sem dinheiro, desempregado, passando dificuldades, saindo de casa e fazendo bicos para conseguir algum dinheiro para se alimentar. Ficamos preocupados com ele e com a parenta Tenharin, que estava fazendo o curso de técnica de enfermagem. Os dois se expondo morando na Maloca Querida.


A decisão de vir para a cidade numa noite foi em uma madrugada silenciosa. Ainda escuro, iniciamos nosso percurso, navegamos pelo rio Madeira numa voadeira em quatro pessoas. Ao amanhecer chegamos na boca do rio Jamari, região onde havia muitos cacuís sob o domínio dos meus ancestrais Mura. Lugar onde se iniciou uma guerra de 100 anos para impedir o avanço dos colonizadores no nosso território, hoje ponto de acesso via terrestre para ir e voltar das localidades às margens do Madeira para a cidade. Da boca do Jamari, pegamos um ônibus às seis e meia da  manhã, viajamos mais uma hora. A sensação: éramos refugiados num campo de guerra.

Durante todo o percurso da viagem ficamos em silêncio, preocupados. Usar máscaras e ficar tomando cuidado com tudo nos deixou apreensivos. Ao chegarmos na cidade pegamos um uber e fomos para a Maloca Querida. Lá ficamos até novembro de 2020, embora estivéssemos apenas aproveitando uma ida de barco com o pessoal da escola de Nazaré e Calama no meio do ano.


A fase de contágio comunitário havia passado e algumas pessoas achavam que já estavam livres do vírus. Outras estavam muito assustadas e tristes com a perda de três moradores da comunidade. Dona Lurdes morreu intubada na cidade com a confirmação da causa da morte por covid-19. Seu Aluízio, que tinha problemas cardíacos, adoeceu, foi acompanhado pela equipe de saúde local, que recomendou que ele viesse para a cidade, mas a família achou por bem não trazê-lo, e ele morreu asfixiado, com falta de ar. A terceira pessoa foi uma jovem senhora animada, vaidosa, trabalhadeira, que de repente ficou muito doente e emagreceu exageradamente. Foi trazida para a cidade, disseram que ela tinha um câncer. Ficou um mês internada e veio a óbito. Todas as pessoas ficaram abaladas com essas três mortes, principalmente os mais velhos.


Nessa minha ida à comunidade, levei um kit com reforço alimentar para os idosos: leite desnatado, açúcar mascavo, biscoitos integrais e laranja, além de máscaras para todos os moradores. Tudo foi resultante de doações voluntárias. A entrega aos idosos foi feita com muito cuidado, eu e minhas duas sobrinhas usamos máscara, passávamos álcool em gel nas coisas antes de entregar e conversávamos de longe. Foi muito emocionante, alguns relembraram da minha avó e meu avô já falecidos em outros tempos.

Uma das idosas com quem estive nessa oportunidade não resistiu na segunda leva de covid-19 em Nazaré, que vem se dando desde fevereiro de 2021. Dona Dóris contraiu o coronavírus, ficou com dificuldade de respirar e a trouxeram para a cidade, onde foi intubada e veio a óbito perto do final de fevereiro. Foi mais um baque para nós de Nazaré, mais uma vez eu não estava na localidade, pois tive que subir o rio para vir cuidar da minha mãe.


O mês de fevereiro de 2021 foi o estopim para mim. Desde abril de 2020 venho acompanhando pessoas próximas que contraem o covid-19, seja de longe ou de perto. Primeiro uma amiga muito querida de São Paulo, depois o primeiro parente Mura veio a óbito e vários outros do meu Povo, que vive no Amazonas, morreram. Os parentes não quiseram que divulgassem seus nomes e nem o motivo da morte, para evitar que fossem mais discriminados ainda pela sociedade não-indígena no entorno dos seus territórios.

A cada dia as coisas foram ficando mais tensas. Muitos parentes de diferentes etnias acabaram morrendo. O vírus está chegando bem longe: nos topos das cachoeiras, nas aldeias, nas reservas extrativistas, nos espaços ribeirinhos e na cidade.


Fui ficando cada vez mais desesperada, acompanhava as matérias sobre os óbitos dos parentes indígenas e os dos não-indígenas também. Vi claramente que mais uma vez nós indígenas estávamos correndo o risco de genocídio. A crise de ansiedade, a pressão alta, o medo estavam me consumindo. Pude contar com a parenta Suelane Tenharin, estudante do curso de técnico de enfermagem, que media minha pressão arterial e informava para sua prima médica. Assim pude ser tratada em casa.


Desde o começo da pandemia tive altos e baixos, mas tive que tomar atitude. Via as postagens no grupo dos parentes Mura de Autazes, fazendo barreira na rodovia que liga Manaus a Autazes e passa por dentro do território Mura. Sem o apoio de ninguém, só eles mesmos com seus próprios corpos e espíritos.

Conversei com lideranças de Autazes, Borba, Itaparanã/AM e Coletivo Mura de Porto Velho/RO e propus fazemos uma campanha de apoio aos Mura de diferentes contextos: aldeia, espaço ribeirinho, reserva extrativista e cidade. Como ia ficar difícil fazer a movimentação da campanha não estando na cidade, foi de comum acordo que a campanha fosse na minha conta bancária. Desde abril, recebemos muitos apoios e juntos estamos vencendo os desafios nessa pandemia.


Chegou o segundo ciclo do covid-19 numa versão mais forte. Nas localidades das margens do rio Madeira houve mais óbitos. Só em Nazaré, em duas semanas no final de fevereiro de 2021 foram três pessoas que faleceram com o covid-19: uma senhora de idade e dois senhores. Pessoas que ainda tinham muito o que viver e que nos chocaram com suas partidas repentinas. Além dos óbitos, há os que estão internados e intubados nos hospitais de Porto Velho.

Os hospitais e as UPAS em Porto Velho estão lotados, não tem mais leito de UTI. Não há nenhum outro leito. No momento estou com um casal de amigos moradores de Nazaré intubados e hoje, dia 15 de Março, acabou de falecer uma prima de 40 anos de idade, que também estava intubada. Os médicos fizeram de tudo para salvá-la, mas ela não resistiu.


O mês de fevereiro foi o estopim para mim. Perdemos um parente jovem do povo indígena, Oro Mon por parte de pai e Canoé por parte de mãe. Um tio veio a óbito, com o pulmão comprometido, e por esse motivo subi o rio para ficar uns dias com minha mãe. Em seguida dona Dóris de Nazaré, e logo na mesma semana a funerária veio buscar nossa vizinha aqui de Porto Velho. Depois outros dois senhores de Nazaré vieram a óbito também de covid-19.  Todas as localidades às margens do rio Madeira do lado de Rondônia estão abandonadas. Não param as constantes notícias de óbitos dos parentes Mura do Amazonas. De outras localidades também, de diferentes etnias, na Amazônia e toda a Pindorama.


Se não fosse o uso da medicina tradicional, muitos mais dos nossos haveriam morrido. Há lugares em que falta até o teste para covid-19 e para malária. Como se não bastasse é tempo de muitas chuvas, o que faz aumentar o volume de água no nosso rio, barrado com duas hidrelétricas que nesse tempo abrem as comportas. O rio sobe aceleradamente e a água transborda, fazendo com que as pessoas que vivem na várzea se sintam ameaçadas de perder suas coisas. Muitos perdem suas plantações e precisam tirar seus pertences de dentro de casa. Agora não é mais a natureza que comanda o tempo da cheia e sim as hidrelétricas. É importante frisar: o tempo é de cheia, de covid e de malária. E com a ausência de políticas públicas, só pioram as coisas.


Graças aos projetos não governamentais e apoios voluntários das pessoas aliadas do Coletivo Mura de Porto Velho, quando a coisa piora muito, fazemos a correria e conseguimos salvar algumas vidas. Mas infelizmente acabamos perdendo alguns. Ainda assim seguimos forte na luta. O mês de fevereiro não foi fácil, até meu filho, nora e neto foram afetados pela covid-19. Tivemos uma noite, uma madrugada e um dia com o rio subindo, mesmo com essa dificuldade foi possível meu companheiro ir cuidar deles com nossa medicina. Eu desmoronei com tudo isso, mas chegaram as amigas e a família para me ajudar a levantar. Mais uma vez me ergo com a força dada pelos ancestrais e Namantuykky (o grande criador). Eles estão sempre comigo.


Também peguei covid-19 em agosto de 2020, junto com meu companheiro. Foi no mesmo mês minha mãe também testou positivo para a covid-19. É desde março de 2020 que minha família vem sendo diretamente afetada com esse vírus. Irmãs, irmãos, sobrinhos, sobrinhas, filhos, nora, neto, tio, tias e primas e primos. Muitos de nós já foram afetados duas vezes. Estamos enfrentando as sequelas deixadas por esse vírus.


Estamos em março, continuamos em luto e na luta. Desejo que minha prima Lenice seja bem recebida no outro plano da vida e que se encontre lá com sua avó, a tia Izolina, que partiu em 2019. Aqui em Rondônia estamos chegando no estágio que passa a condição de Manaus: hospitais e UPAS sem vagas, poucas vacinas, os indígenas que vivem na cidade sem o direito de prioridade na vacinação. Muitas mortes. De acordo com o boletim diário sobre a covid-19 em Rondônia, dos 165.438 casos de covid-19 confirmados em Rondônia, 60.165 são em Porto Velho.


No caso dos povos indígenas as vacinas estão chegando nas aldeias, mas alguns não querem se vacinar por diferentes motivos, por causa das informações falsas referentes aos efeitos da vacina, e também porque os mais velhos, principalmente, são desconfiados com tantas coisas que já passaram ao longo do contato com os não-indígenas. Mesmo que tenhamos acionado o Ministério Público, até agora não tivemos nenhuma resposta às nossas reivindicações. Enquanto isso, muitos indígenas de diferentes etnias, que vivem no espaço urbano, estão ficando doentes com o covid-19. O que nos vale é o apoio que damos uns aos outros levando nossas plantas medicinais e dividindo alimentos.


Estamos numa guerra. É muito angustiante ver chegando várias demandas ao Coletivo Mura, de parentes Mura do Amazonas e Rondônia. Temos que fazer muita correria para poder atender as prioridades das prioridades, mas o mais triste é quando não temos nenhum recurso para apoiar as urgências que chegam até nós. Quando morre um dos nossos, mesmo quando de etnia diferente, cada ancião, anciã, criança, jovem, adulto que se vai do nosso povo e de outros povos indígenas é uma grande perda para nós, sentimos muito. Sentimos também ver tanta morte entre os não-indígenas. Sabemos que todas e todos estão sendo afetados. Ainda assim, nós indígenas, além do covid-19, temos que lidar com as invasões dos nossos territórios, com o genocídio, com preconceito e racismo.


Vou contar um coisa que me impactou bastante: o encontro com os parentes Enawenê Nawê, já nas proximidades de Juína/MT, na estrada que corta seu território. Eles faziam o recebimento do pagamento mais do que justo para os que usam a estrada. O problema é que eles estavam sem máscara. Deixamos umas com eles, depois de uns 15 dias na casa da minha sogra e meu sogro, para onde fomos para cuidar deles, que não estavam bem de saúde, voltando para casa levamos mais máscaras para os parentes e explicamos a eles por que precisavam usá-las. Foi nessa viagem que meu filho mais novo pegou covid. Mas cuidamos dele direitinho com os nossos chás, principalmente o de hortelãzinho, que era o que ele mais me pedia quando estava com febre e dor de cabeça.

(Foi justamente isso que me doeu mais quando meu filho mais velho pegou covid. Ele estar longe de mim e eu não ter feito os chazinhos para ele, para minha nora e neto. Mesmo que o pai dele estivesse lá cuidando.)


É importante também registrar sobre uma viagem que fizemos a Juína, entre final de junho e as primeiras semanas de agosto de 2020: nos deparamos com vários animais mortos na estrada. Até uma anta enorme em processo de putrefação. Vimos a expansão da soja e ilhas de florestas que não dão conta de manter os animais nela, por falta de alimento. Isso pode estar contribuindo para que os animais tentem atravessar a BR em busca de alimentos em outras áreas. Eles acabam sendo atropelados. Durante os dias que ficamos em Juína, o céu ficava o tempo todo encoberto com fumaça. Umas semanas depois, no trecho que passamos ao voltarmos para casa, houve uma grande queimada, e em seguida o “bum” do incêndio no Pantanal.

O que posso dizer de tudo isso? É que covid, mortes de animais, desmatamento para monoculturas e queimadas estão todos interligados.


Apesar de toda a política genocida em curso, nós seguimos firmes na luta! Por isso, encerro esse texto me dirigindo a Namatuyky, nosso grande Criador: quantos desafios já vencemos, muitos ainda estão por vir. Alguns querem nos ver cair, mas muitos estão conosco. Se estivéssemos sós, não estaríamos mais aqui. Nosso arco e nossa flecha são a força dos nossos ancestrais. Nossa proteção é Namatuyky, nosso espírito é renovado. E quando os ataques começam a querer nos atingir, os Pandés emanados por Akitirramache nos envolvem com akitiparré e thacorru, num só canto e numa só dança no dhamapuá, para nossas forças renovar e a luta continuar. Anemipá!


Márcia Mura vive no território de seu povo, às margens do Rio Madeira, em Rondônia. É mestre em Cultura e Sociedade na Amazônia (Ufam) e doutora em História Social (USP), onde defendeu a tese “Tecendo tradições indígenas”.

RELACIONADAS
marca-parentese

Abra um parêntese no seu fim de semana com jornalismo e boas histórias. Deixe seu email e receba toda semana as newsletters da revista Parêntese.

Escolhe um dos combos

Pagamento exclusivo via cartão de crédito