Ensaio

Uma viagem fotográfica pela história do Satélite Prontidão

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Uma viagem fotográfica pela história do Satélite Prontidão Associação vai completar 120 anos em 2022 (Foto: Facebook/ ASP)

O clube Satélite Prontidão faz parte do cenário cultural da cidade de Porto Alegre há quase 120 anos. A mim foi apresentado por meu pai, Nilo Feijó, que por sua vez conheceu o clube por intermédio de meu avô. Falar do Prontidão é falar de uma tradição familiar pois o clube foi, durante muito tempo, a segunda casa da minha família.

Meu pai amava o local, e nos ensinou a amá-lo também. Seu trabalho foi incessante para que o clube conseguisse evoluir, atendendo aos anseios da juventude sem deixar de lado a tradição que o tornou uma referência de clube negro na Capital. Nilo Feijó foi presidente da entidade por mais de um mandato e junto há outros colaboradores, membros do conselho presidencial e amigos do Prontidão criou novos eventos, como as festas nas sextas e sábados, e manteve o foco na educação, sem deixar de promover momentos primorosos, como a entrega do Troféu Zumbi – criado na gestão do presidente Elói Angelos – a negros e negras que influenciaram outras pessoas por meio de seus trabalhos. Em 1993, o prêmio foi recebido por Antônio Carlos Cortês.

Com o troféu, Antônio Carlos Cortês. À direita estão os pais de Ana Lúcia Glacy e Nilo Feijó (Foto: Memorial da ASP)

Falecido em 2016, meu pai foi um homem batalhador que acreditava na cultura como um meio de transformação social potente e deixou um legado até hoje. Desde o ano passado, o curso pré-vestibular do clube leva o seu nome.

O Prontidão foi mais do que um ponto de encontro entre famílias negras. Foi um local de preservação da nossa cultura. Desde que nasci eu frequento o clube. Lá encontrava com outras crianças iguais a mim, ouvíamos as nossas músicas, falávamos sobre assuntos que nos interessavam e enriqueciam, como combate ao racismo, religião afrobrasileira, prevenção de doenças características da etnia negra entre outros.

Grupo das Senhoras Prontistas nos anos 90. Ao centro, a mãe de Ana Lúcia, Glacy (Foto: Reprodução)

Tive o privilégio de nascer em uma família de classe média, meu pai trabalhou desde muito jovem e nos proporcionou estudar em escolas particulares, uma boa casa, boas roupas, viagens etc. Eu e meus irmãos desde pequenos sempre nos relacionamos com crianças de outras etnias, pois os lugares que frequentávamos eram frequentados na sua maioria por adultos e crianças brancas. As relações de amizade com outros negros se davam com as pessoas de nossa família e no Satélite Prontidão.

Era também lá que eu me sentia mais acolhida e que nossas mães se reuniam para preparar quitutes que aprenderam com suas mães. Histórias, músicas, literatura, artes, tudo era rico e valorizado. Esta tradição da oralidade era uma das maneiras mais simples de transmitir conhecimento. 

Minha família sempre participava dos eventos sociais e culturais que o clube promovia. Minha mãe fazia parte do grupo de “Senhoras Prontistas”, responsável pela realização de festas, almoços, jantares entre outros eventos que arrecadavam verbas para o clube. Há documentação com registro deste grupo já no ano de fundação do clube.

Grupo de Jovens dos anos 80 (Foto: Memorial da ASP)

Eu e meus irmãos fizemos parte do “Grupo Jovem”, que, além de realizar festas, promovia palestras sobre assuntos de interesse da juventude, tanto aos filhos dos sócios quanto às comunidades próximas ao clube. Os temas abordados iam desde o uso indevido de drogas até a preparação para o mercado de trabalho e a contribuição da cultura afro para o RS.

Segundo relatos orais e a pouca documentação que não se perdeu na enchente de 1941, o clube que nasceu como uma entidade carnavalesca realizava outras atividades culturais e tinha como missão especial o preparo educacional por meio de mutirões promovidos pelas senhoras daquela sociedade, que realizavam o trabalho de alfabetização de alguns de seus sócios, seus filhos e crianças do entorno da sede social.

História

O dia 20 de abril de 1902 representa o marco inicial na história do Satélite Prontidão. No início do século 20, passados apenas 14 anos da abolição da escravatura, algumas famílias da comunidade negra fundaram a Sociedade Satélite Porto-Alegrense, na verdade, “Sociedade Bailante Satélite”. Estavam unidas no propósito de construir uma sociedade que pudesse abrigar as suas culturas, suas ideias e saberes, e de um espaço de promoção de lazer e de entretenimento.

Inauguração da sede com a presença de Alceu Collares e Lupicínio Rodrigues (Foto: Reprodução)

O nome Associação Satélite Prontidão surgiu da fusão do Grupo Carnavalesco Prontidão, que também realizava trabalhos assistenciais como cursos de alfabetização e consultas médicas e odontológicas, com a Sociedade Satélite Portoalegrense, que nesta época já havia diminuído suas atividades até a quase paralisação. Este fato ocorreu no ano de 1956, quando foi adquirido um imóvel na rua Cel. Aparício Borges, bairro Glória em Porto Alegre onde o clube permaneceu por mais de 30 anos. 

Após a fusão, a Associação Satélite Prontidão continuou suas atividades com destaque para a área social, onde sempre despontaram com festas de grandes públicos, como o famoso Baile do Chopp, os bailes de Carnaval e os bailes de aniversário da entidade, que antigamente reverenciava a data da fusão, o 30 de setembro.

Antiga sede, no bairro Glória (Foto: Memorial da ASP)

Nas décadas em que se seguiram, houve avanços de ações administrativas, sociais, culturais, educacionais e filantrópicas. E hoje situada na zona norte da capital gaúcha, a entidade mantém seu trabalho em prol da preservação cultural do povo negro, promovendo inúmeros eventos de exaltação e orgulho da negritude e tornando-se assim um dos expoentes mais importantes dentro da história da cidade de Porto Alegre, servindo como referencial para várias gerações de negros e negras.

Em 1996, o Prontidão passa a participar do Projeto Pré-vestibular Zumbi dos Palmares, criado no Rio de Janeiro e trazido para a capital gaúcha, uma atividade que tem a sua base na solidariedade dos professores e pessoas atentas e dispostas a investir de forma espontânea com os segmentos carentes representados na sua maioria pela comunidade negra. Ao desvincular-se do curso carioca, cria o Projeto Educacional Pré-vestibular da Associação Satélite Prontidão. Nesta nova versão, o clube muda o curso de intensivo para extensivo (funcionando de janeiro até dezembro de cada ano) e aumenta vagas, entre outras novidades.

Território negro

Pintura a óleo da primeira sede, feita pelo ex-presidente José Aneron (Foto: Memorial da ASP)

O clube recém inaugurado em 1902 ficava em uma área de quilombo urbano, na atual Cidade Baixa, em Porto Alegre. Lá permaneceu até a enchente do ano de 1941, que inundou parte da cidade, conforme registros em documentos que estão no clube, pois não há fotografias da casa alugada para ser a primeira sede.

O bairro constituía um dos territórios negros que a cidade possuía no passado. São nestes locais que os afrodescendentes afirmam a existência e a permanência da sua cultura: a dança, as artes plásticas, os rituais religiosos, a música que começa também a se mesclar com a cultura da cidade. 

As tradições que vinham dos negros africanos, escravizados aqui no Brasil, iniciava um “diálogo” com uma cultura branca que dominava o país e com uma cultura indígena que já existia antes de outros povos aqui chegarem, automaticamente se remodelava para também assim, continuar existindo. Posso citar como exemplo os Orixás (que são os santos cultuados pelos africanos através do Candomblé, que era a uma das suas religiões) e que no Brasil sofreram um sincretismo, isto é, foram transformados nos santos da Igreja Católica para assim continuarem sendo reverenciados nos cultos das senzalas, sem que houvesse a interferência do homem branco.

Era também nestes Territórios que crescia o espírito de união, cooperação e auxílio mútuo, pois eram através dos mutirões para tratamentos médicos e odontológicos, por exemplo, que os negros colaboravam uns com os outros. O Satélite Prontidão sempre apresentou, em seus fundamentos, constituir-se como um Território Negro, seja por difundir uma cultura tipicamente negra (ou seja, uma cultura que envolve ancestralidade e modernidade, uma produção artística feita de negros para outros negros) ou por manter vivos ideais do tempo em que foi inaugurada, como, por exemplo, a preocupação com a educação e a saúde dos descendentes de africanos. 

Anos mais tarde, deixou a zona de quilombo urbano para bairros de periferia, em zonas residenciais, onde a maioria dos moradores são negros. Esteve sempre em busca de seu público, seu povo, convidando-o a participar de suas atividades, a construir um espaço de troca de conhecimentos e saberes. 

O papel das mulheres

Inicialmente, a mulher negra era uma das responsáveis pela alfabetização de sócios, seus filhos e crianças do entorno do clube, além de, em vários momentos, ter sido “enaltecida” através de concursos de beleza, como a escolha da Rainha Negra na década de 1940. Com o passar do tempo, sua participação tornou-se mais expressiva. Fosse através de suas ideias e opiniões, da sua maneira de agregar outras pessoas ou da sua capacidade de, junto com outras mulheres, transformar o negativo em positivo.

Debate realizado pelo Grupo Razão Negra, nos anos 70 (Foto: Reprodução)

Isto só foi possível porque a mulher de forma geral estava gradualmente inserindo-se cada vez mais na política, nas universidades, nos negócios, nas ciências, enfim, em todas as áreas importantes para o desenvolvimento do mundo. Esta inserção tornou-se mais forte nos anos 70 no clube e tem seus reflexos ainda nos dias de hoje.

Cito os anos 70 pois foi nesta década que as jovens do grupo Razão Negra se fizeram ser ouvidas, mesmo contrariando alguns homens machistas ainda presentes no clube. Impuseram a sua presença e batalharam pelo seu espaço. Foram elas que introduziram a importância de se discutir com o público que frequentava a sociedade assuntos como saúde da mulher negra e doenças características da etnia. Trouxeram juntamente com os rapazes do grupo a arte teatral, ao encenar a peça “O Orfeu da Conceição” em 1978. Abriram uma porta para que mais mulheres pudessem se fazer mais presentes e mais ativas.

Eventos

Baile dos 100 anos (Foto: Memorial da ASP)

Os primeiros eventos registrados por fotos referiam-se à atuação no campo recreativo somente, isso nas décadas de 40, 50 e 60. Podemos constatar inúmeros bailes diversificados como o Baile dos Solteiros, os blocos de carnaval e o Baile dos 10 Mais. Já nos anos 70 iniciam-se as primeiras atividades de cunho artístico no clube. Encenações de peças teatrais de autores negros, palestras de interesse da população negra e desfiles de moda. 

Rainha do Carnaval de 1932

Nos anos 80 e 90, observei uma maior preocupação com questões sobre educação, combate ao racismo, e uma maior abertura para eventos em que as artes eram evidenciadas (músicas, dança, artes plásticas) e eventos esportivos. Dos anos 2000 até os dias atuais mantém-se os mesmos objetivos reforçando o conceito de que o clube é um Território Negro, com atividades em vários âmbitos, como educação, esportes, saúde em prol da qualidade de vida da população negra, além de oferecer um espaço para manifestações artísticas e culturais negras.

As fotos registram também um comprometimento em evidenciar que existia uma beleza negra que era própria e devia ser valorizada. Eventos como a escolha da Rainha Negra na década de 40 deixam claro que as mulheres negras eram tão bonitas com as suas particularidades étnicas e estéticas – como o seu cabelo, o formato do seu nariz, a cor da sua pele, a sua maneira de dançar etc – quanto as mulheres brancas. Ou seja, também podiam ser “rainhas”, soberanas da beleza, mas também tinham que ser cultas. 

Conforme conversei com algumas pessoas que participaram destes concursos, exigia-se que as candidatas estivessem estudando e que soubessem o que se passava no país e no mundo, além de conhecer a história do clube. Estes concursos prosseguiram até o início dos anos 2000, período em que o clube passou a constatar uma total falta de interesse das próprias jovens em participar de eventos como esse.

Resistência

Sede atual, no Rubem Berta (Foto: Memorial da ASP)

O nascimento e a permanência desta sociedade foram conquistadas com enorme sacrifício e até hoje ela persiste por conta própria. Mesmo sendo considerada Patrimônio Histórico e Cultural do Rio Grande do Sul desde 2009, pela Lei Estadual 13.183, não recebe incentivos financeiros e encontra dificuldades para fazer parte de algum projeto cultural proposto pela Prefeitura da cidade.

Penso que é extremamente importante que governantes invistam nestes clubes sociais, pois a maioria deixou de existir por questões financeiras, por não poderem manter as sedes abertas um ano inteiro sem uma significativa participação do público em seus eventos. Como são pólos de resistência cultural, devem ter sua permanência nas cidades garantidas.


Ana Lúcia Felippe Feijó é formada em magistério e pedagogia e professora da rede municipal de Canoas. Em 2007, assumiu a coordenação pedagógica do Pré-Vestibular Popular, onde permaneceu até 2011. Em 2013, concluiu a especialização em Pedagogia da Arte na UFRGS, com o TCC Os 110 anos da Associação Satélite Prontidão em uma viagem através da fotografia, de onde se originou o presente ensaio e algumas fotos de reprodução.

Relembre

Espaços de resistência – Em junho de 2020, a repórter Patrícia Lima contou a história de outros clubes sociais negros na Capital e no Estado. Presentes no Rio Grande do Sul desde antes da abolição da escravidão, alguns desses espaços tentam até hoje manter a relevância para a comunidade que os criou.

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