Ensaio

Invenção, como qualquer outra

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Invenção, como qualquer outra
Todo mundo sabe usar a expressão “invenção das tradições”. (“Todo mundo” é aquele mundo restrito de gente que a gente conhece, esse pequeno grupo hoje em dia chamado de “bolha”.) A expressão ganhou mundo a partir de um livro assinado por dois historiadores ingleses, o famoso Eric Hobsbawm e o não tão famoso Terence Ranger, e o livro que eles organizaram se chama justamente A invenção das tradições (edição brasileira pela Paz & Terra, tradução de Celina Cardim Cavalcante, 1984). “Por ‘tradição inventada’ entende-se um conjunto de práticas, normalmente reguladas por regras tácita ou abertamente aceitas”, que “visam inculcar certos valores e normas de comportamento através da repetição, o que implica, automaticamente, uma continuidade em relação ao passado”, diz Hobsbawm. Que dá exemplos variados, da arquitetura ao ensino de canções populares, incluindo bandeiras nacionais. A isso se somam invenções descaradas, que por muito tempo passaram como verdade ancestral. O exemplo literário mais notório é de um certo James McPherson, professor que na altura de 1760 se apresentou como tradutor de um poeta primitivo, um certo Ossian. Este Ossian seria a prova da verdadeira ancestralidade escocesa, com os poemas que o qualificavam como um “Homero celta”. Era uma fraude, pura e simples. MacPherson sabia a língua antiga o suficiente para fajutar uns poemas em gaélico, que ele teria então traduzido para o inglês. A fama desse Ossian correu mundo, tendo chegado até mesmo ao Brasil, onde Álvares de Azevedo o saudou como um ideal de permanência, de continuidade entre o presente e o passado. Fraude, nada mais. Fraude, mas ajudou a consolidar uma certa ideia de pertencimento, de identidade cultural, naquele contexto que os tempos viriam a chamar de Romantismo, em que a busca por identidade se fazia mediante uma busca de passado, lá naquele tempo ancestral em que seria possível encontrar as raízes do presente. Sim, aquilo que no Brasil apareceu no desenho de indígenas como o passado que o jovem Brasil localizava como seu berço. Peri, Iracema, I-Juca Pirama, aquela turma. O tempo correu, parecia que o tempo do Romantismo tinha ficado lá atrás, mas que nada. Olha para o Mário de Andrade, o ícone, o totem modernista paulista: em sua admiração por José de Alencar (e em seu desconforto com Machado de Assis, para Mário uma figura muito racional, inconvenientemente racional) em sua busca pela origem ancestral que desse substância para o projeto de São Paulo em sua arrancada para vir a ser o centro econômico brasileiro, nesse processo todo, Mário e até mesmo Oswald, a versão irônica do mesmo processo de que Mário era a versão chapa-branca, eles mostraram que o Romantismo seguia vivo. Sim, senhores, era a mesma sanha pela busca de uma origem que desse tutano ao projeto do presente. Macunaíma é o novo nome da mesma coisa. Tradição inventada, mais uma vez. Segue o tempo, a Segunda Guerra esgota as forças de todo mundo, e aí uns jovens interioranos que viviam em Porto Alegre – numa cidade estourando de modernidade, com Coca-Cola, cinema oliudiano […]

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