Ensaio

Já não quero a calmaria

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Já não quero a calmaria Arnaldo Sisson e Fernando Ribeiro

Era dezembro de 1988. Um Porto de Elis lotado aguardava Fernando Ribeiro subir ao palco para seu único show ao vivo, 10 anos depois de encerrar sua curta carreira musical e migrar para São Paulo. 

Acompanhado de Toneco da Costa ao violão e por mim na flauta e violão, Fernando fez o público cantar junto e se emocionar em muitos momentos. Para aqueles que lá estiveram, ficou claro que o passar do tempo apenas tornou suas canções melhores. Se a carreira não fosse encerrada precocemente, Fernando Ribeiro e seu parceiro letrista Arnaldo Sisson hoje seriam reconhecidos como dois respeitáveis cancionistas brasileiros. De qualquer forma, mesmo com o breve percurso, eles escreveram uma parte importantíssima da história da música urbana gaúcha dos anos 1970.

Dentro das rodas do mundo | e dos sons que nos amparam | dentro das coisas da vida | e da morte que nos separam | eu vou (E viva Fernando Pessoa)

Fernando Ribeiro e Arnaldo Sisson aparecem para cena musical da cidade de Porto Alegre ao vencer, em 1971, o I MUSIPUC (festival de música da PUC) com a música “E viva Fernando Pessoa”. O festival teve ainda como finalistas a música “Gargalhadas”, de Kledir Ramil, e “Vento Negro”, de José Alberto Fogaça. 

Arnaldo Sisson tinha em Pessoa uma de suas referências. Os primeiros versos que o impressionaram a ponto de nunca os esquecer foram: “O poeta é um fingidor | finge tão completamente | que chega a fingir que é a dor | a dor que deveras sente”. 

Talvez por isso, as músicas da primeira fase de Fernando e Arnaldo, que aparecem no disco de estreia Em mar aberto, gravado em 1976 pela EMI/Odeon, tenham um viés mais existencialista. Por outro lado, o segundo e derradeiro disco, O Coro dos Perdidos, gravado na ISAEC em 1978, é político, duro, e coloca o dedo nas feridas abertas naqueles tempos de chumbo.

Fernando e Arnaldo se conheceram no colégio primário do IPA. O pai do Arnaldo costumava dar carona para o Fernando pois moravam perto, na rua Cel. Bordini, em Porto Alegre. Segundo Arnaldo, o Fernando era tipo malandro, casaco de couro, cigarro, bom na bolinha de gude, e por outro lado ele era retraído, gostava de ler, tipo crente. 

A parceria musical entre eles começou na praia de Imbé, quando eram adolescentes. Num desses encontros, chapados, Fernando mostrou a canção “Beijos Noturnos”, que tinha feito em parceria com sua irmã Bete. A música chamou atenção de Arnaldo por ser, segundo ele, “lindamente pré-tropicalista”, e o levou a pensar em escrever uma letra para que Fernando musicasse. 

Nos primeiros anos de poucas canções, compunham basicamente para participarem de festivais e mostras de música como forma de divulgar o que faziam. O processo de trabalho era curioso. Arnaldo deixava as letras das músicas na caixa de correio da casa de Fernando, que o chamava para ouvir quando estivesse pronta: “Nunca aconteceu um vamos falar disso ou fazer desse modo porque o fulano fez assim. O Fernando conseguia musicar as letras porque se preocupava com o significado e com a sonoridade, ele estudava um jeito de declamar antes de começar a musicar”. (Arnaldo Sisson)  

“…Certo ou errado este é o mundo em que vivo | resisto e transformo a verdade em mentira | mentira em verdade | tudo depende do meu estado de espírito.” (Estado de Espírito)

Em 1975, Fernando Ribeiro estava mais uma vez na final do MUSIPUC, depois de um segundo lugar com a música “Quando viajar para o norte” e outro primeiro lugar com “Estado de Espírito” no II e III MUSIPUC, respectivamente. 

Na IV edição do festival, entre os jurados estava o conhecido radialista Júlio Fürst, que vestia o personagem “Mister Lee – o cowboy do rádio” – em um programa diário transmitido pela rebelde Rádio Continental. Impressionado com o que ouve, volta para casa com o firme propósito de gravar nos estúdios da Continental os vencedores daquele ano para apresentar em seu programa diário. 

A estratégia de divulgação da marca das famosas calças Lee nos Estados Unidos era investir na música caipira americana, e assim se fez aqui. O que se ouve é Crosby, Stills and Nash, Johnny Cash, Willie Nelson e Bob Dylan, entre outros. Júlio precisou comprar uma boa briga com o patrocinador que de forma alguma queria os músicos locais. Assumindo o risco de perder o patrocínio – diga-se de passagem o maior da rádio naquele momento –, ele insiste e vai mais longe: “Se der certo faremos um concerto ao vivo com todos os grupos, da mesma maneira que a Lee faz nos Estados Unidos”. Depois de muito papo, convence Américo Bender, o então Diretor de Marketing da empresa, que ainda temeroso diz: “Ok. É tudo contigo. Mas se não funcionar perdes o patrocínio”.

Rapidamente, Júlio inclui em seu programa o grupo Almôndegas, Hermes Aquino, Utopia, Mantra, Byzzaro, Fernando Ribeiro, Inconsciente Coletivo, Gilberto Travi e Cálculo 4, e vira o jogo com as canções dos músicos locais, que fazem estrondoso sucesso. A Continental passa a receber muitos pedidos dos ouvintes para que as músicas do povo daqui façam parte da programação diária. “Em mar aberto” de Fernando, Toneco e Arnaldo, e “Estado de Espírito” de Fernando e Arnaldo com arranjos do violonista Toneco da Costa, são muito pedidas pelos ouvintes, e a frase “Tudo depende do meu estado de espírito”, vira bordão. 

Sem demora, Júlio coloca em prática seu sonho: “Uma mostra de música que misture todas as tendências musicais do que por aqui se ouve”. Assim, no dia 13 de agosto de 1975, o Cine Teatro Presidente em Porto Alegre recebe o Concerto nº1 do “Vivendo a Vida Lee”. O cinema com capacidade para 1100 pessoas superlota, deixando mais de 1500 pessoas do lado de fora.  

O concerto foi o estopim para o que já estava claro no programa do Júlio: a música feita por músicos gaúchos, surgindo com enorme força, deixa para trás a música americana e ganha ares de movimento, posteriormente chamado de Música Popular Gaúcha (MPG). 

Cresce | quando vejo | cresce o sonho | queda de braço com meu pensamento | em cada tombo esmagando um pouco | todas barreiras desta fantasia (Maldita noite)

A ideia de um primeiro show individual entrou nos planos de Fernando a partir do sucesso no MUSIPUC e das canções que viraram hits na Rádio Continental. Embora muito tentadora, ela trazia algumas preocupações fora da pauta até então. Uma coisa é participar de festivais ou de shows coletivos que oferecem infraestrutura: palco, equipamento de som, luz e público garantido. Outra coisa é colocar no seu colo toda a responsabilidade da produção do show. Ele e Arnaldo, a partir de agora, precisam pensar e gerenciar todos os detalhes musicais e extramusicais: escolher o repertório do show, os músicos, a equipe de som e luz, conseguir um teatro e um local de ensaio para o show – de preferência sem pagar aluguel. 

Além disso, cuidar da divulgação, imprimir os programas e cartazes – sim, naqueles distantes anos os cartazes eram importantíssimos na divulgação de qualquer espetáculo. Batalhar um patrocinador para pagar as despesas e custos, e rezar para sobrar alguns trocados no final. A partir de agora, se quiserem levar suas carreiras musicais adiante, vão ter que correr o risco sozinhos. 

Com os músicos e repertório escolhidos, e com o fundamental apoio do professor Zacarias Valiatti – um incentivador incondicional dos jovens músicos, que cede para os ensaios uma sala com piano no Centro de Artes do Clube dos Flautistas do Rio Grande do Sul -, os primeiros passos se desenham e o show começa a ganhar forma.

“Fernando Ribeiro em Concerto” estreia com o teatro lotado, no dia 15 de abril de 1975, no Departamento de Arte Dramática (DAD) da UFRGS. 

O espetáculo foi dirigido por Luciano Alabarse, com arranjos do violonista Toneco da Costa, Neusa Campos do Prado no piano, Beto Roncaferro no baixo e eu na flauta. A iluminação foi de João Acir, o cenário de Christy Schmitt e a produção de Carlos Cunha Filho.

Os shows impulsionaram novas ideias e as novas canções modelaram um novo horizonte para Fernando e Arnaldo.

Mesmo que ainda em uma fase bem inicial – Fernando ganhava a vida em sua hamburgueria chamada Billy Joe -, ele enxergou naquele momento a possibilidade de investir em uma carreira artística. Arnaldo, por outro lado, trabalhava como programador e tratou de ir com mais calma na ideia de seguir só com a música. Provavelmente, se tudo desse certo, seguiria os mesmos passos de Fernando. 

Um dia ainda vou fazer uma canção de amor | deliciosa | provocante e proibida | As mães vão gritar horrorizadas | e sempre vai aparecer algum profeta | antevendo o fim do mundo na malícia dos teus versos (Hora Imprópria) 

O Concerto nº2 de “Vivendo a Vida de Lee” foi a consagração de um movimento iniciado – sem essa pretensão – por Júlio Fürst, que anteviu o potencial da música urbana gaúcha nos festivais da PUC. No dia 9 de novembro de 1975, com o Auditório Araújo Viana superlotado, 18 grupos encararam 9 horas e 30 minutos de som, que ganhou ares de um “Woodstock” – guardadas as devidas proporções, é claro –, por conta do encontro de diferentes tendências musicais, da convivência pacífica e festiva do volumoso público e, principalmente, pela qualidade da música. 

Fernando, já como um dos principais nomes daquele coletivo de músicos, fez um show impecável cantando as músicas que faziam sucesso na Rádio Continental, e ouve sua romântica “Hora Imprópria” – canção à la Roberto Carlos – ser cantada por um coro de quase cinco mil vozes.  

Em pouco tempo, pela qualidade do seu trabalho, o público e a crítica especializada concordavam que a música de Fernando Ribeiro e Arnaldo Sisson deveria fazer parte do fechado círculo da MPB.  

No canto | só cantava de acordo | na dança só dançava conforme | tinha cuidado com a boca | e “não” só dizia | se a ocasião permitia | É | esse moço sou eu | é você | somos nós | na hora do fato fazendo o surdo-mudo | (Surdo-mudo)

“Allegro com brio” foi o controvertido nome para um espetáculo nada alegre mas com muito brio, estreia no dia 4 de março de 1976 no Teatro de Câmara de Porto Alegre. 

No cenário, cordas emporcalhadas enforcam figuras humanas suspensas, que chocam o público. Atores que representam o sofrido povo da América Latina carregam cartazes com frases de efeito: “A Liberdade é como a maior das sinfonias…só não existe quem as harmonize…talvez por incapacidade”.  A opressão, o medo e o desespero pairam no ar. As canções – muitas delas gravadas posteriormente no disco O Coro dos Perdidos – são musicalmente fortes, e algumas são cantadas como um berro, um pedido de socorro. Fernando impressionava por sua força interpretativa. Sua alma estava sempre à disposição da canção. Havia, por mais contraditório que o show tenha sido, uma verdade expressa na sua voz. Por muitos aspectos, o show, pensado com o distanciamento do tempo, foi o prenúncio do porvir que determinou o final da parceria musical de Fernando e Arnaldo.

Já não quero a calmaria | a revolta me queima | antes ser como o barco que aderna | lutando nas vagas | às vésperas do porto (Em mar aberto)

No dia 20 de outubro de 1976, Fernando entra no estúdio para as gravações de seu primeiro disco, Em mar aberto

Contratados pela multinacional inglesa EMI-ODEON, Fernando e Arnaldo foram recebidos como os novos integrantes do primeiro time de artistas da gravadora, que incluía Milton Nascimento e Ivan Lins.

 Em Mar Aberto recebeu um tratamento de luxo. Além dos músicos de sua banda, o violonista e arranjador Toneco da Costa e eu, tocando contrabaixo e flauta, a gravadora colocou à disposição um time de primeira classe. Estavam lá dois músicos da banda de Elis Regina, o contrabaixista Luizão Maia e o baterista Paulinho Braga. Além do pianista Gilson Peranzzetta, então arranjador de Ivan Lins, e Eduardo Souto Neto como arranjador e orquestrador. 

Por aqui, por conta da importância do momento para a música local, criou-se uma enorme expectativa em torno das gravações. Por telefone, Fernando fazia um relato do dia a dia das gravações para o programa do Júlio Fürst. 

Uma entrevista de duas páginas ao jornalista Juarez Fonseca, publicada no dia 17 de outubro de 1976, para a Revista ZH do Jornal Zero Hora, três dias antes de iniciarem as gravações no Rio de Janeiro, mostrou a importância da sua contratação para a música urbana gaúcha. Fernando e Arnaldo contaram um pouco de suas trajetórias e revelaram suas preocupações com o chegar ao Olimpo. De certa forma, Fernando sentia-se responsável pelo futuro do movimento que se formou em torno dos festivais e shows coletivos. Um grupo de músicos que o respeitava e admirava. 

O sentimento de pertencimento expresso em sua fala ao longo da entrevista tem relação com a sua noção como membro atuante de um coletivo e, como tal, influenciador no caminho futuro do grupo. Sabia que estava levando para o Rio o sonho de muitos e não queria desapontá-los, assim como, igualmente, não pretendia desapontar a si mesmo. Se acontecesse, como aconteceu, voltaria para casa sem remorsos. Afinal, na entrevista declarou: “O fundamental é a gente nunca sair daqui”. 

Disco pronto, realidade exposta. 

Para divulgar o disco era preciso viajar pelo país por conta própria. Não havia apoio para isso vindo da Odeon. Ela entende que fez sua parte investindo pesado na gravação e edição do disco, e cobra uma postura ativa de Fernando. Situação difícil para um artista que vive no sul, longe do centro do país, e sem grana para sair por aí divulgando seu trabalho. Os shows e entrevistas nas rádios de Porto Alegre e alguma poucas do interior do Estado, deram conta de um mínimo para incentivar a venda regional. Ao considerar o baixo volume de discos vendidos em nível nacional a Odeon pressiona Fernando, pois o investimento realizado na gravação do disco foi consideravelmente alto.

Eu não vou me destruir e te ofertar os meus pedaços | Eu não pretendo disfarçar com rimas a minha inquietude | e muito menos vestir de poesia a minha incoerência (Pedaços)

Emocionalmente fragilizado pelo fracasso nas vendas do disco e por problemas pessoais que o abalavam naquele momento, Fernando aceita o convite de Geraldo Flach – então diretor artístico da ISAEC – para gravar seu segundo disco em Porto Alegre. O argumento “prefiro ser o primeiro na ISAEC do que nada na ODEON”, disfarça sua insegurança e joga uma cortina de fumaça sobre o real motivo da mudança. 

Para Fernando, o estar de volta era a sua contínua busca por um lugar que ele desejava como seu, um lugar o qual poderia sentir-se integrado a si mesmo. 

O Coro dos Perdidos é um disco com ótimas canções, que foram arranjadas e interpretadas com o peso do momento conturbado. Um pouco antes de ir para São Paulo, com a intenção de abrir novas portas, ele reconhece isso: “o disco é muito pessimista, para baixo. Mas era uma coisa que estava trancada em nossa garganta, e nós fizemos”. (Juarez Fonseca. Jornal Zero Hora |19/08/78)

Como bem escreveu o Juarez em sua crítica ao show de lançamento do disco no então Teatro Leopoldina: “O espetáculo é o melhor de sua carreira, mas é um trabalho difícil pois ele não faz concessões ao agrado fácil”. O Coro dos Perdidos foi sua catarse. 

Quem aqui me vê agora | nunca vai pensar que fui | dono de tudo que é meu | Quem na vida me negou | sempre vai dizer que fui | causa um dia de tudo que calei (Vera Cruz) 

A carga emocional misturou tudo, a relação entre Fernando e Arnaldo azedou e o disco não aconteceu como desejado. 

Pouco depois dos shows de lançamento do disco em Porto Alegre, a ISAEC insiste que ele vá para São Paulo fazer a divulgação do disco. Aos poucos, ele olha para a cidade como um lugar para recomeçar: “A jogada é essa mesmo, a vida está me chamando e não posso ficar mais parado”. 

Enfrentou sozinho a grande metrópole e a enorme saudade do Lucas, seu filho com a Dedé Ribeiro, e, do seu jeito, venceu!

Em pouco tempo recomeçou sua vida como produtor de jingles e posteriormente sócio nos Estúdios Vice-Versa – atualmente Trama -, junto com um seleto grupo de colaboradores que incluía o maestro Rogerio Duprat, Sá e Guarabira. A intensa atividade no estúdio não deixava, propositadamente, muito espaço para pensar no que tinha deixado para trás. 

Entre sair de Porto Alegre e voltar 10 anos depois para o último show no Porto de Elis, compôs algumas poucas canções, entre elas “Minha cidade”, uma lembrança das suas raízes.

Fernando e Arnaldo com todo o talento que mostraram ter, eram iniciantes no universo musical brasileiro e, infelizmente, o tempo necessário para se fazerem presentes no mercado nacional foi interrompido muito cedo. Hoje, passando pela memória os intensos momentos musicais que tive ao lado deles, fico com a sensação de que não se apropriaram do que cantaram na música “Olhos de Freira”: “A vida é a arte de não se dar por vencido”.

Junho de 2021

  • Fernando Ribeiro, nasceu em Porto Alegre no dia 28 de setembro de 1949 e faleceu em São Paulo no dia 10 de agosto de 2006 |
  • Arnaldo Sisson, nasceu em Porto Alegre no dia 20 de setembro de 1950.
  • As citações da letras das músicas são de autoria de Arnaldo Sisson, com exceção de Vera Cruz, que é de Dedé Ribeiro.

Ayres Potthoff – Graduado em flauta pela UFRGS e Mestre em Flauta pela UFRJ. É um dos fundadores da Associação Brasileira de Flautistas, organizador dos Festivais Internacionais de Flautistas do Rio de Janeiro e Porto Alegre. Foi Diretor Executivo da Orquestra de Câmara Theatro São Pedro, grupo que fundou em 1985. Com frequência se apresenta ao lado de Daniel Wolff (violão) e Rodrigo Alquati (cello) em países como Estados Unidos, França, Alemanha, Hungria, Noruega, República Tcheca, Peru, Equador, Portugal e Canadá. 

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