Foto: Gage Skidmore/Wikimedia
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O psicólogo Jordan Peterson estará em Porto Alegre no dia 20 de junho, para um evento vinculado ao ciclo de palestras Fronteiras do Pensamento. Sua apresentação no auditório Araújo Vianna foi co-organizada pela produtora Brasil Paralelo e apoiada pela RBS. Autor do livro 12 regras para a vida: um antídoto para o caos, muito popular entre a direita conservadora, o psicólogo se destacou nos últimos anos como um crítico da suposta woke culture, ou “cultura da lacração”, em tradução livre para o português.

Peterson nasceu no interior do Canadá, se formou como psicólogo na Universidade de Alberta e obteve seu título de doutor na Universidade McGill, em Montreal. Entre 1993 e 1998, atuou em Harvard como professor e pesquisador, depois assumiu uma posição de professor titular na Universidade de Toronto, onde se aposentou em 2022, por ser contrário a políticas de diversidade nas contratações. 

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Há uns meses, li 12 regras para a vida, na tentativa de compreender a ideologia dos jovens de extrema direita. Conforme a introdução, a perspectiva do autor se baseia em suas pesquisas anteriores sobre arquétipos:

Em Maps of Meaning, propus que os grandes mitos e histórias do passado, particularmente aqueles provenientes de uma tradição oral mais antiga, tinham um intuito moral em vez de serem descritivos. Assim, eles não se preocupavam com o que o mundo era da forma como um cientista se preocuparia, mas com a forma como um ser humano deveria agir. Sugeri que nossos ancestrais retratavam o mundo como um palco – um teatro – em vez de um lugar de objetos. Descrevi como cheguei à crença de que os elementos constitutivos do mundo como um teatro eram a ordem e o caos, e não coisas materiais. A Ordem acontece quando as pessoas ao seu redor agem de acordo com normas sociais bem compreendidas e mantêm-se previsíveis e cooperativas. É o mundo da estrutura social, do território explorado e da familiaridade. O estado da Ordem é tipicamente retratado, simbolicamente – no imaginário –, como masculino. É o Rei Sábio e o Tirano para sempre vinculados, assim como a sociedade é simultaneamente estrutura e opressão. O Caos, em contraste, é onde – ou quando – algo inesperado acontece. O Caos emerge de maneira trivial quando você conta uma piada em uma festa com pessoas que acha que conhece e um calafrio silencioso e constrangedor paira sobre o grupo. O Caos é o que emerge mais catastroficamente quando você de repente fica sem emprego ou é traído por um companheiro. Como antítese da ordem, simbolicamente masculina, ele é apresentado, no imaginário, como feminino. É o novo e imprevisível que surge, de repente, no seio do cotidiano familiar. É a Criação e a Destruição, a fonte de coisas novas e o destino dos mortos (assim como a natureza em oposição à cultura é simultaneamente nascimento e morte).

A essa premissa de uma relação dicotômica entre ordem e caos, masculino e feminino, Peterson adiciona a psicologia evolucionista. O autor se baseia sobretudo nos mitos abraâmicos para justificar a identificação do masculino com a ordem e do feminino com o caos, embora volta e meia cite os princípios yin e yang do taoísmo para reforçar a premissa. 

Convenientemente, Peterson ignora outras mitologias, como a egípcia, na qual a deusa Maat é a personificação da ordem, ou a hindu, na qual o universo não se fundamenta na oposição entre caos e ordem, mas na complementaridade entre criação, conservação e destruição, personificada pela trimúrti. As noções de sumak kawsay dos indígenas sul-americanos ou do orí africano, evidentemente, passam longe do livro. Quando cita os Vedas, o faz de maneira superficial, traçando um paralelo pedestre entre maya e vieses cognitivos. Essas lacunas, associadas ao taoísmo de boteco e à superficialidade nas interpretações de mitos abraâmicos e greco-romanos, suscita alguma suspeita sobre a seriedade de seu trabalho com arquétipos. 

De fato, seu único livro científico, Maps of meaning: the architecture of belief, tem apenas 847 citações listadas pelo Google Acadêmico, apesar da fama mundial do autor, sugerindo que Peterson não é levado muito a sério como investigador de arquétipos. 

A perspectiva de 12 regras para a vida, em síntese, é cristã, colonial, masculina, hierárquica e meritocrática. Uma das coisas mais brancas que já li nos meus 46 anos neste vale de lágrimas. A filosofia da qual ele mais se aproxima é o utilitarismo, combinação um tanto aberrante com sua base junguiana. Todavia, como a obra se sai em seu propósito manifesto de orientar os jovens sobre o caminho para uma boa vida? 

A base da eudemonologia de Peterson é a admissão do sofrimento como um aspecto inextricável da existência. A partir deste reconhecimento, o ser humano tem duas opções: desistir, isto é, ignorar princípios éticos como o respeito aos outros e a não-violência, ou enfrentar o niilismo e buscar significado. Segundo o autor, todo ser humano nasce com propensão a uma conduta ética, mas a incapacidade de lidar com as frustrações – ou a simples preguiça – o faz sucumbir à gratificação imediata. Portanto, desenvolver senso de responsabilidade e disciplina a partir de um significado transcendente seriam as maneiras de se viver bem. 

As regras propostas por Peterson a partir disso são as seguintes:

  1. Costas eretas, ombros para trás
  2. Cuide de si mesmo como cuidaria de alguém sob sua responsabilidade
  3. Seja amigo de pessoas que queiram o melhor para você
  4. Compare a si mesmo com quem você foi ontem, não com quem outra pessoa é hoje
  5. Não deixe que seus filhos façam algo que faça você deixar de gostar deles
  6. Deixe sua casa em perfeita ordem antes de criticar o mundo
  7. Busque o que é significativo, não o que é conveniente
  8. Diga a verdade. Ou, pelo menos, não minta
  9. Presuma que a pessoa com quem está conversando possa saber algo que você não sabe
  10. Seja preciso no que diz
  11. Não incomode as crianças quando estão andando de skate
  12. Acaricie um gato ao encontrar um na rua

Não me parece necessário resumir cada uma delas, inclusive porque à primeira vista se pode constatar a sensatez dos conselhos. Peterson ilustra cada uma das regras com experiências pessoais, algumas das quais são de grande sofrimento, como a doença grave da qual sua filha sofre. É difícil não simpatizar com o inferno pelo qual sua família passou e me pergunto até onde isso pode ter contribuído com algum desequilíbrio que redundou em sua carreira de guru da extrema direita.

O trecho abaixo exemplifica os convites à autorreflexão que Peterson faz aos seus leitores. Não tenho reparos a fazer a essa linha de pensamento e só vejo benefícios em ter rapazes se colocando esse tipo de questionamento.

Considere suas circunstâncias. Comece com pouco. Você aproveitou totalmente as oportunidades que lhe foram oferecidas? Está se esforçando em sua carreira, ou mesmo em seu emprego, ou está deixando que a amargura e o ressentimento o detenham e arrastem para baixo? Você fez as pazes com seu irmão? Está tratando seu cônjuge e seus filhos com dignidade e respeito? Tem hábitos que destroem sua saúde e bem-estar? Você realmente assume suas responsabilidades? Disse o que precisava dizer a seus amigos e familiares? Há coisas que você poderia fazer, que sabe que poderia fazer, que deixariam as coisas ao seu redor melhores? Você arrumou sua vida? Se a resposta for não, tente isso: comece a parar de fazer o que você sabe que é errado. Comece hoje. Não perca tempo questionando como você sabe que aquilo que está fazendo é errado se tem certeza de que é. Questionamento inoportuno pode confundir, e não esclarecer, assim como desviá-lo da ação. Você consegue saber que algo é errado ou certo sem saber o porquê. Seu Ser inteiro pode lhe dizer algo que você não consegue nem explicar nem articular. Cada pessoa é complexa demais para conhecer a si mesma completamente e todos temos uma sabedoria que não conseguimos compreender. Então simplesmente pare quando perceber, por mais vagamente que seja, que deve parar. 

O autor promete a seu hipotético leitor adolescente masculino frustrado que, se refletir com diligência sobre sua própria responsabilidade frente aos reveses, ao longo dos anos, seu discernimento sobre as consequências dos próprios atos será mais preciso e, com isso, a vida se tornará menos complicada. É preciso reconhecer o amor verdadeiro de Peterson pelos jovens e sua preocupação honesta com seus futuros.

Embora os conselhos em geral sejam bons, a verdadeira questão é se os leitores de Peterson de fato os incorporam ao seu cotidiano. Este, porém, é o problema de todos os manuais eudemônicos – eudaimonia, em grego, se refere um estado de bem estar ou felicidade. Se a leitura de Epiteto, Gracián ou Schopenhauer fosse suficiente para colocar os seres humanos nos trilhos, as elites coloniais europeias não teriam provocado tragédias humanitárias como a escravatura no Brasil ou o genocídio belga no Congo, pois esses autores sempre foram parte da formação dos aristocratas e burgueses. 

Neste sentido, a fundamentação teórica do livro é problemática, porque reforça as crenças do período imperialista europeu, ideologia a que a direita conservadora costuma denominar “Ocidente”. O utilitarismo e a psicologia evolucionista infelizmente contaminam os bons conselhos de Peterson e, a julgar por seu comportamento na internet, muitos leitores provavelmente guardam para si apenas as informações que reforçam seus preconceitos contra mulheres, contra outras religiões e contra visões de mundo alternativas ao neoliberalismo. 

A interpretação de suas obras não está sob controle de nenhum escritor, então se poderia exonerar o psicólogo de culpa por seus leitores comerem o joio em vez do trigo. Todavia, este é o ponto no qual Peterson comete um grande pecado e coloca a perder suas boas intenções. Apesar da subscrição a teorias questionáveis, 12 regras para a vida poderia ter um saldo benéfico para a sociedade. No entanto, desde o lançamento seu autor parece se esforçar ao máximo para prejudicar o caráter eudemônico do livro. Suas manifestações públicas dirigem a atenção justamente para os aspectos reacionários, em vez de reforçar o incentivo à autorreflexão. Ele decidiu abrir mão do trigo e propagandear o joio.

Um bom teste para os manuais eudemônicos é examinar a vida de seus autores. Se os relatos históricos estiverem corretos, Epiteto, por exemplo, tinha uma conduta perfeita. Infelizmente, no frigir dos ovos, Peterson se revela apenas mais um hipócrita. Enquanto prega a responsabilidade sobre a palavra, propala teorias da conspiração no Twitter, publicando, por exemplo, trechos de filmes pornográficos fetichistas como se fossem oriundos de “fazendas de esperma” chinesas. Enquanto prega a disciplina, se vicia em benzodiazepínicos a ponto de precisar se submeter a um coma induzido para tratamento do vício em uma clínica russa. 

Ao retornar do tratamento, o autor lançou um novo livro, chamado Além da ordem: mais 12 regras para a vida, mesmo tendo falhado em vários de seus próprios mandamentos. Uma das novas regras propostas por Peterson é “abandonar a ideologia” e também nesta ele parece estar falhando, bem como em “não te permitas tornar ressentido, enganador ou arrogante”, a julgar por sua insistência na falácia de que a suposta “cultura da lacração” estaria destruindo a liberdade, a ciência e, enfim, o “Ocidente”. 

Em resumo, através de seu comportamento Peterson se revela só mais um homem branco heterossexual ressentido por ser obrigado a dividir um pouco de seus privilégios com minorias historicamente oprimidas e que, em vez de refletir sobre seu lugar no mundo, decidiu se abraçar à extrema direita.


Marcelo Träsel é jornalista e professor do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da UFRGS. 

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