Ensaio

“Lutamos por reconhecimento!”

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“Lutamos por reconhecimento!” Em uma luta que já dura mais de 50 anos, quilombolas e seus descendentes do Morro Alto, no litoral gaúcho, buscam o direito à posse da terra que segue sendo negada Eram quase 10h da manhã de um sábado frio e nublado quando fomos recebidos pelo casal Ieda Crista Ramos e Maurício Forte em um posto de combustíveis à beira da BR-101 em Osório, litoral norte do Rio Grande do Sul. O dia anterior tinha sido de muita chuva na região, o que já era um prenúncio da aventura que seria o nosso dia. Ela, carioca e socióloga, que casou com Maurício, descendente dos quilombolas do Morro Alto, e que até hoje luta pela posse definitiva da terra de seus ancestrais. “Muita gente já se cansou e foi embora. Mas nós, e alguns outros, estamos voltando e reconstruindo nossas vidas nesse local, que é nosso por direito”, disse Maurício, que atualmente voltou ao quilombo, onde constrói sua casa à beira da lagoa do Ramalhete, terras que pertenciam ao seu pai e onde também residem outros parentes quilombolas.  Depois de enfrentar muito barro e algumas áreas alagadas, a bordo não de um jipe 4×4, mas, de um Voyage 1.0, chegamos até a balsa para atravessar um trecho do rio Forqueta, onde ele se une ao rio Maquiné. Infelizmente, a chuva do dia anterior não permitiu cruzar o rio. Então fizemos o caminho de volta e tivemos que circundar a lagoa do Ramalhete para chegarmos a um dos núcleos do quilombo, às margens do rio Forqueta. Lá encontramos lideranças da comunidade e conversamos sobre a vida na localidade, e principalmente, sobre toda a resistência dos negros da localidade para que seu direito à terra seja, finalmente, reconhecido. – Maçambique: Esse pequeno imprevisto nos fez ter uma dimensão do tamanho do quilombo, que no total tem aproximadamente 4,3 mil hectares de extensão, e que é formado pelos núcleos de Aguapés, Barranqueira, Faxinal do Morro Alto, Morro Alto, Ribeirão e Espraiado. Cada localidade tem suas características, mas também apresenta laços históricos de solidariedade, religiosos como a crença em Nossa Senhora do Rosário, além da cultura negra, do sincretismo religioso que levou a uma das manifestações mais interessantes de todo o Rio Grande do Sul: os tambores do Maçambique do Morro Alto. Uma espécie de congado que une os tambores afro e a fé católica.  Infelizmente não conseguimos assistir ao ritual ao vivo, por conta das restrições da pandemia. Suas apresentações mais tradicionais acontecem anualmente no dia 13 de maio, quando a tradição de Nossa Senhora do Rosário visita São Benedito na comunidade de Aguapés e no mês de outubro, no município de Osório. Quem quiser conhecer, achei esse vídeo do Projeto Gema que é bem interessante: veja. Historicamente, o Maçambique é a representação da cerimônia de coroação da Rainha Ginga e do Rei de Congo em Luanda, atual capital de Angola, em solo africano. A tradição envolve danças e cantos. Em Morro Alto-RS deve ter chegado com os escravos que vieram trabalhar nas plantações […]

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Em uma luta que já dura mais de 50 anos, quilombolas e seus descendentes do Morro Alto, no litoral gaúcho, buscam o direito à posse da terra que segue sendo negada Eram quase 10h da manhã de um sábado frio e nublado quando fomos recebidos pelo casal Ieda Crista Ramos e Maurício Forte em um posto de combustíveis à beira da BR-101 em Osório, litoral norte do Rio Grande do Sul. O dia anterior tinha sido de muita chuva na região, o que já era um prenúncio da aventura que seria o nosso dia. Ela, carioca e socióloga, que casou com Maurício, descendente dos quilombolas do Morro Alto, e que até hoje luta pela posse definitiva da terra de seus ancestrais. “Muita gente já se cansou e foi embora. Mas nós, e alguns outros, estamos voltando e reconstruindo nossas vidas nesse local, que é nosso por direito”, disse Maurício, que atualmente voltou ao quilombo, onde constrói sua casa à beira da lagoa do Ramalhete, terras que pertenciam ao seu pai e onde também residem outros parentes quilombolas.  Depois de enfrentar muito barro e algumas áreas alagadas, a bordo não de um jipe 4×4, mas, de um Voyage 1.0, chegamos até a balsa para atravessar um trecho do rio Forqueta, onde ele se une ao rio Maquiné. Infelizmente, a chuva do dia anterior não permitiu cruzar o rio. Então fizemos o caminho de volta e tivemos que circundar a lagoa do Ramalhete para chegarmos a um dos núcleos do quilombo, às margens do rio Forqueta. Lá encontramos lideranças da comunidade e conversamos sobre a vida na localidade, e principalmente, sobre toda a resistência dos negros da localidade para que seu direito à terra seja, finalmente, reconhecido. – Maçambique: Esse pequeno imprevisto nos fez ter uma dimensão do tamanho do quilombo, que no total tem aproximadamente 4,3 mil hectares de extensão, e que é formado pelos núcleos de Aguapés, Barranqueira, Faxinal do Morro Alto, Morro Alto, Ribeirão e Espraiado. Cada localidade tem suas características, mas também apresenta laços históricos de solidariedade, religiosos como a crença em Nossa Senhora do Rosário, além da cultura negra, do sincretismo religioso que levou a uma das manifestações mais interessantes de todo o Rio Grande do Sul: os tambores do Maçambique do Morro Alto. Uma espécie de congado que une os tambores afro e a fé católica.  Infelizmente não conseguimos assistir ao ritual ao vivo, por conta das restrições da pandemia. Suas apresentações mais tradicionais acontecem anualmente no dia 13 de maio, quando a tradição de Nossa Senhora do Rosário visita São Benedito na comunidade de Aguapés e no mês de outubro, no município de Osório. Quem quiser conhecer, achei esse vídeo do Projeto Gema que é bem interessante: veja. Historicamente, o Maçambique é a representação da cerimônia de coroação da Rainha Ginga e do Rei de Congo em Luanda, atual capital de Angola, em solo africano. A tradição envolve danças e cantos. Em Morro Alto-RS deve ter chegado com os escravos que vieram trabalhar nas plantações […]

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