Ensaio

Não existe história local, nem natural: Canoas como epicentro do Antropoceno e quatro outros casos sobre a tragédia socioambiental no Rio Grande do Sul

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Não existe história local, nem natural: Canoas como epicentro do Antropoceno e quatro outros casos sobre a tragédia socioambiental no Rio Grande do Sul Foto: Acervo Arquivo Público de Canoas

Um sonho ruim. Talvez essa seja a sensação que melhor descreva o sentimento de quem acompanhou a tragédia climática de 2024 no Rio Grande do Sul desde o exterior. Os mais de 10.000 quilômetros entre Porto Alegre e Jena, distribuídos em grande medida nas águas do Atlântico, não me pouparam do envolvimento emocional. Ao contrário: já na madrugada do dia quatro de maio, fui dormir sob alerta: as consequências das enchentes que colapsaram o Hinterland gaucho, particularmente o Vale do Taquari, chegavam naquele momento a Porto Alegre e sua Região Metropolitana. Adormeci já sabendo que Canoas tornaria-se rapidamente um dos piores casos — se é que pode-se mensurar uma coisa dessas.

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O fato é que se trata da terceira cidade mais populosa do Estado. Além disso, os cerca de 350.000 moradores de Canoas não habitam um espaço geográfico qualquer. Há diversas versões para o Município, que até 1939 foi Vila de Gravataí, ter sido batizado de Canoas. Nenhuma delas escapa à óbvia associação do nome com as águas. Mesmo assim, a BR-116 e o Trensurb, que rasgam o território da cidade latitudinalmente pouco dão a chance para os que ali passam de a conhecerem além de sua caótica fachada hiperurbana. 

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Antiga Linha Férrea do RS trecho Canoas 1908. Foto: Acervo do Museu e Arquivo Histórico La Salle
Projeto Trensurb década de 1980. Foto: Acervo Arquivo Público de Canoas

Quase ninguém imagina, mas Canoas tem até uma praia, Paquetá. A cidade é banhada pelos rios Gravataí e dos Sinos e possui diversos arroios, além da Ilha das Garças, parte de uma unidade de conservação ambiental e resistente ao cityscape. Durante as primeiras décadas do século XX, aliás, alguns dos seus campos serviram para plantações de arroz (prática não totalmente abandonada) — outro indicativo que se trata de um espaço sujeito a inundações. Antes disso, ainda nos oitocentos, viajantes que por ali passavam à galope ou a bordo de um dos trens da antiga viação férrea usufruíam as belezas do então chamado Capão das Canôas durante o veraneio, incluindo riachos cristalinos, em um tempo em que a outra Capão da Canoa, no singular, sequer existia. 

Os ares de delírio daquela madrugada, no meu caso, não foram marcados por qualquer fundo bíblico ou somente pela minha condição de expat mas, principalmente, pelos laços profundos que possuo com Canoas, seja como ex-moradora, professora e ou pesquisadora da Região Metropolitana de Porto Alegre. Fotografias das enchentes que atingiram a cidade entre as décadas de 1940 e 1970 pareciam ter saído dos ficheiros arquivísticos diretamente para a tela do meu celular, em uma atualização de mau gosto. Os diques, cujas plantas estão no Arquivo Nacional brasileiro e são símbolo do audacioso projeto desenvolvimentista da nação, não resistiram à versão século XXI das inundações. Subitamente, a cidade onde eu cresci e tornei objeto de pesquisa desde o primeiro semestre na universidade, passou a estampar as capas não só de jornais brasileiros, mas também as de diversas agências internacionais de notícias. Foi nesse momento que meu esforço, tornou-se também o de muitos: argumentar que Canoas não é um caso isolado, resultado de causas naturais e com relevância apenas local. 

Apesar da histórica associação de Canoas com as águas, o longo maio de 2024 trouxe um novo tom para os relatos e imagens que grande parte dos habitantes do Município já tiveram contato em algum momento da vida. O que tornou a cidade alvo dos holofotes globais não foi, afinal, somente sua localização particular junto ao complexo hídrico do Delta do Jacuí, nem seu elevado contingente populacional. Como narrei em meu livro sobre a cidade, o que assolou Canoas foi sua trajetória como caso-exemplar do modelo de urbanização periférica latino-americana, como venho tentando demonstrar há alguns anos (felizmente não sozinha, como ilustra esse trailer de um filme sensacional que será lançado ainda esse ano ou esse artigo, escrito por seis mãos também profundamente envolvidas com a cidade). 

As mudanças climáticas sob ações humanas podem ainda não ter alterado o Holoceno sob o ponto de vista geológico, como argumentaram alguns camaradas cientistas recentemente. Já o custo ambiental para as espécies que habitam o planeta e, sobretudo, regiões muito específicas deste planeta, como as antigas áreas de colonização da era moderna e as sedes contemporâneas de atividades extrativistas, reforçam o peso político e a importância de manter o debate aceso, sobretudo no que diz respeito aos efeitos do Antropoceno no Sul Global. O Brasil, o Rio Grande do Sul e, particularmente Canoas, estão imersos nessas consequências, as quais se somam fatores correlacionados, como o desmatamento na Amazônia e a emissão de gases em escala planetária. 

Canoas, cidade-industrial, Folha da Tarde, 1944. Acervo Arquivo Público de Canoas.

Vigora a versão de que Canoas possui uma vocação para ser uma cidade-industrial, que se dá a ver pela engrenagem que estampa o brasão da cidade. Não vejo vocação alguma quando um ponto de veraneio que, ainda nos anos de 1930, era descrito por Érico Veríssimo pelo som dos passarinhos, apenas 25 anos depois, ter se tornado o maior reduto operário do Rio Grande do Sul, com registros de um crescimento populacional superior a 300%. Vejo aí um projeto estatal de industrialização que fez associações escusas com o setor privado e permitiu que loteamentos fossem iniciados em antigos arrozais, como foi o caso do primeiro da cidade, Nictheroy, que significa em tupi, adivinhem: águas escondidas.

Algumas das fotografias-chave da tragédia, como as imagens de milhares de pessoas, logo chamadas de refugiados climáticos, cruzando o viaduto da estação Mathias Velho rumo às poucas áreas secas em uma cidade extremamente desigual, não são aleatórias. Tampouco o agora mundialmente conhecido Caramelo, o cavalinho que resistiu três dias em cima de um telhado em um endereço canoense, é um símbolo solitário da tragédia. Os ditos fatores naturais para as enchentes, também não podem ser dissociados das ações humanas do nosso tempo. Por nosso tempo, entendo um conjunto de especificidades que tornaram Canoas o que ela é hoje, desde a década de 1950, em associação com os contextos global e nacional. 

Aí puxo um fio para lembrar que estamos falando de uma cidade que abriga em seu território uma refinaria de petróleo (REFAP) e uma usina termelétrica (Sepé Tiaraju), o que muito narra sobre a história da energia e dos combustíveis fósseis na América Latina. Sob o solo, encontra-se um gasoduto (Gasbol), cuja origem é na Bolívia e passa por quatro mil propriedades até chegar na cidade dos aviões. Falando nisso, ao mirar o céu, o canoense tem a oportunidade de observar diariamente exemplares supersônicos da Força Aérea Brasileira(FAB), uma recordação de que a cidade abriga uma Base Aérea (agora convertida em aeroporto, diante do fechamento temporário do Salgado Filho, em Porto Alegre) e que, no passado, baseou a escolha do Município como área de segurança nacional. 

Um olhar mais específico sobre os bairros de Canoas não deixa por menos. O Guajuviras nada mais é do que a maior ocupação da história do Rio Grande do Sul. Já o Mathias Velho — agora símbolo da tragédia —, muito nos conta sobre as migrações do campo para a cidade que marcaram a formação das primeiras regiões metropolitanas do país. Canoas tem um dos primeiros quilombos urbanos do país, o Chácara das Rosas, prensado em meio à especulação imobiliária que cobre, cada vez mais, seus bairros de condomínios fechados. Não por acaso, a relação entre áreas atingidas e renda per capita divulgada pelo Observatório das Metrópoles, evidencia a segregação espacial e o racismo ambiental, deixando claro, como bem foi sintetizado, que as cheias têm endereço certo.  

Cheia de 1963. Foto: Acervo Arquivo Público de Canoas

Dito isso, deixo registrado que o que aconteceu no Rio Grande do Sul não é uma história local, tampouco natural e que está a repetir episódios do passado. Canoas, escolhida aqui como um microcosmo para abrir esse argumento, não exclui nem minimiza os desastres que afetaram duramente também Eldorado do Sul, Porto Alegre e Lajeado, e Nairobi, no Quênia, ou Tegal City, na Indonésia, no mesmo período. 

Em sua condição paradigmática, Canoas cederá espaço, ao longo das próximas semanas, para acontecimentos que dão a ver as conexões glocais que vinculam o desastre socioambiental que abateu o Rio Grande do Sul às origens da Região Metropolitana de Porto Alegre, com um olhar esticado para além da fronteira: convido, assim, os leitores e as leitoras a acompanharem a história do urbanista alemão que nunca mais retornou para a Capital, a desvendar a relação do Plano de Desenvolvimento Metropolitano com a Guerra Fria e, finalmente, a conhecer o modelo de contenção das cheias utilizado no Rio Neckar, que inspirou aquele adotado no Vale do Rio dos Sinos — e parece estar sendo repaginado 60 anos depois.


Danielle Heberle Viegas é historiadora, professora e pesquisadora em história urbana e ambiental. Autora do livro Entre o(s) passado(s) e o(s) futuro(s) da cidade. Um ensaio de história urbana no brasil meridional (Canoas/RS, 1929-1959) (Paco et Litera, 2021) e co-editora da obra Região Metropolitana de Porto Alegre (1973-2023) – RMPA 50 Anos: História, Território e Gestão (Oikos, 2023). Pós-Doutora pelo Centro de História Global da Universidade de Munique (2022), Doutora (2016) e Mestra (2011) em História pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul. Ex-professora da Universidade Lasalle. Atualmente, pesquisadora do Max-Planck Institute of Geoanthropology (Jena, Alemanha) e coordenadora do projeto Resilient forest cities: utopia and development in the Brazilian Amazon. 

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