Ensaio

Nossa vida no Ciberespaço e a Crise da Democracia Representativa

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Nossa vida no Ciberespaço e a Crise da Democracia Representativa Imagem do ensaio fotográfico de Tânia Meinerz
A democracia não é algo estático e muito menos definido, mas um processo que deve estar em constante construção

Na atual conjuntura da pandemia, com o aprofundamento do uso da Internet — como estrutura de suporte para os relacionamentos humanos — milhões de pessoas passaram a integrar cotidianamente a sociedade em rede. Nunca experimentamos de forma tão intensa os encontros e dilemas mediados no ciberespaço. Aqueles que já estavam integrados, reafirmaram e aprofundaram essas novas formas para o trabalho, a educação, as compras, os negócios, a participação em shows e atividades culturais, a organização de protestos, reuniões, festas e encontros pessoais. Esse não é um mundo virtual, é nosso mundo real. 

Essa acelerada ‘inclusão digital’ das multidões é um caminho sem volta, nunca mais seremos ou faremos as coisas da mesma forma. O futuro se apresenta como um cenário híbrido permanente, presencial e remoto digital — ‘tudo ao mesmo tempo agora’. A nossa vida cotidiana no ‘ciberespaço público’ não poderá mais ser desprezada, especialmente quando falamos em democracia real. Nessa perspectiva, estamos frente a uma grande oportunidade para aprofundarmos e qualificarmos a tão combalida democracia representativa; experimentarmos as novas formas de inclusão e participação direta da população no debate público e na tomada de decisões no plano institucional.

Situação institucional de crise

Vivemos em todo planeta, não só no Brasil, uma crise institucional da democracia representativa. 

Nesse contexto de falta de credibilidade no ‘sistema’ representativo como ele é, a extrema-direita saiu na frente apresentando saídas salvadoras ‘antissistema’, trabalhando com as emoções dessa indignação generalizada e apontando, como perspectiva, reformas e uma saída conservadora, autoritária e antidemocrática. Atua tecnopoliticamente com máquinas de manipulação de massas, criando pós-verdades através de distribuição de fake news, contaminando as redes de ‘autocomunicação de multidões’. Utiliza o expertise tecnológico de diversas disciplinas da ciência da computação, da comunicação, da neurociência para manipular as multidões e fraudar a democracia.

É também preocupante esse cenário em que as plataformas de redes de relacionamentos estão a serviço da vigilância em massa e do mercado do big data. Grandes corporações como Google e Facebook, por exemplo, controlam e manipulam a realidade intermediada por algoritmos e coleta de dados privados. Se valem ainda da análise das emoções, inteligência artificial e máquinas tecnológicas, segmentando públicos e anúncios para o mercado publicitário. 

Ambos movimentos, o das corporações comerciais e dessas iniciativas políticas conservadoras, corroem a democracia e legitimam o populismo tosco e negacionista da extrema-direita. São duas faces da mesma moeda que precisam ser enfrentadas com ações de multidões e políticas públicas. 

Por uma democracia real

Os Estados e instituições não podem ficar imutáveis diante desse cenário, apresentando como alternativa apenas ritos e rotinas meramente formais e muitas vezes caricaturais de uma democracia representativa. Basta assistir pela TV ou Internet uma sessão do parlamento para entendermos do que estou falando.

A saída para essa crise que não tem mais fim me parece clara. Precisamos avançar para uma democracia real, com uma maior participação direta dos cidadãos comuns, empoderados através de plataformas digitais e presenciais, incorporando esse cenário híbrido no cotidiano de nossa democracia combalida. 

Os hackers e acadêmicos, os primeiros habitantes do ciberespaço e criadores da Internet, vislumbraram um futuro libertário, de democracia real, dos comuns sem intermediários, de compartilhamento do conhecimento, das artes, de liberdade de expressão plena e de novas possibilidades criativas ilimitadas. Creio que é fundamental recuperarmos esses pilares quando falamos em democracia.

Nessa perspectiva, nos últimos anos algumas cidades como Barcelona e Madri experimentaram submeter a consultas públicas, debates e deliberações, os principais projetos e investimentos municipais. Construíram um ‘upgrade’ do Orçamento Participativo. Nesse ambiente híbrido de assembleias presenciais e plataforma digital, os cidadãos de Barcelona estão deliberando sobre os projetos de urbanização, investimentos e melhoria de praças e bairros. No Orçamento Participativo da capital da Catalunha, que é dinamizado através da plataforma em software livre Decidim.Barcelona, os residentes na cidade podem “apresentar, definir, priorizar, votar e, em última instância, escolher os projetos e investimentos que a Prefeitura executará em cada distrito”. O processo de 2020, destinou 30 milhões de euros do orçamento municipal para que os moradores decidissem em quais projetos os investimentos seriam destinados.

Porto Alegre já foi a maior referência internacional da democracia participativa direta e das novas formas de gestão das políticas públicas. A implantação do Orçamento Participativo e os encontros alterglobais no Fórum Social Mundial, há mais de quinze anos, colocaram nossa cidade na história e na memória de muitos em todo mundo. Mas não podemos viver apenas das memórias afetivas do passado. 

De lá para cá muitas conquistas se consolidaram, novas lutas e movimentos surgiram. Também nesses anos todos, milhões de cidadãos passaram a conviver cotidianamente nesse ciberespaço público da Internet. 

Vivemos em nossa cidade, e no país, um período de retrocessos e estagnação nas políticas públicas e um questionamento da democracia representativa, resultado da falta de participação direta da população na tomada das decisões. Precisamos inovar, recuperar nossa referência e recolocar Porto Alegre no mapa global de cidades que constroem uma nova democracia participativa e novas formas de fazer política, de baixo para cima, incorporando as formas de participação via Internet.

Links de referências:


Marcelo Branco é profissional de Tecnologia da Informação e Comunicação desde sempre. Foi cocriador do Fórum Internacional de Software Livre e do Conexões Globais. Foi o diretor geral das três primeiras edições da Campus Party Brasil. Ativista de software livre, cultura hacker, pelos direitos e novas formas de participação via Internet. Trabalhou  na Fundação Observatório da Sociedade da Informação em Barcelona e em empresas de tecnologia em Roma e na Espanha.

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