Ensaio

O destino de Daumier

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O destino de Daumier

Se existe algum artista sempre preferido por quem trabalha com a justiça, este é o francês Honoré Daumier. Em todo o mundo é comum ver, pendurados nas paredes de escritórios de advocacia, as suas inconfundíveis gravuras.  As imagens mostram, em traços enérgicos, esse grupo profissional em ação. São representados casos onde geralmente se encontram justiça e política, ora criticando, ora expondo os comprometimentos morais e legais nessa intersecção: a estupidez dos governantes com os limites impostos pela lei, e os reflexos desse conflito permanente junto ao povo.   

Tradução:
— Devemos escrever uma carta para comovê-lo?
— Comover um oficial de justiça? … Então o senhor não é francês?  

Litografia da série Les gens de justice, de Honoré Daumier. 1845-1846. (Fonte: Galeria virtual da Bibliothèque Nationale de France.) 

Daumier (1808-1879) era mais conhecido como desenhista e gravador, além de ser um ácido caricaturista. Passou fome durante a vida, não conseguindo sobreviver de sua arte até conseguir um emprego no La Caricature, de Paris, onde desenvolveu e publicou a série de gravuras Les gens de justice (que pode ser interpretado como um jogo de palavras irônico entre povo de justiça e gente da justiça). Daumier saiu da miséria para alcançar alguma celebridade como crítico das relações políticas, sociais e econômicas. A França de sua época era a da pós-derrota de Napoleão, quando a burguesia subiu ao poder e restaurou a monarquia, abandonando os ideais republicanos. O artista foi condenado à prisão em 1832, por uma famosa caricatura do rei Louis Phillipe devorando seu povo (Gargântua).  Arruinado, quando voltou às ruas de Paris reencontrou sua inspiração: a miséria, a exploração e o sarcasmo. Pode-se dizer que, embora hoje seja conhecido como pintor, em sua produção o gênero pintura foi mais raro, donde muito mais procurado e valorizado após sua morte, em 1879.

Gargântua, caricatura que levou Daumier a prisão, apresenta Louis Phillipe devorando seu povo.

Por isso, fiquei surpreso quando meu chefe de redação, em 1980, me chamou para fotografar e entrevistar um colecionador, que possuía uma pintura de Daumier. A pauta vinha da redação do Rio, de Frederico Morais, crítico de O Globo.  Tito Tajes, meu chefe na sucursal de Porto Alegre, era quem me dava cobertura para uma escapada às aulas do Instituto de Artes da UFRGS, onde à época estudava. E eu compensava com a dupla função de repórter e fotógrafo.  Vindo do Correio do Povo, onde era secretário de redação, Tito, ex-vizinho de mesa na Caldas Júnior de meu irmão Liberato e de Mario Quintana, recém chegara para chefiar a Sucursal Sul de O Globo. A redação funcionava no Edifício do Relógio, no Largo dos Medeiros, no Centro Histórico de Porto Alegre, onde aparecia vez em quando uma moça chamada Cláudia, para visitar o pai, o chefe.

Subi a Ladeira em direção à Praça da Matriz. O apartamento do colecionador ficava na rua Duque de Caxias, em uma esquina íngreme. O que encontrei no último andar daquele prédio foi algo surpreendente, principalmente para mim, jovem aspirante a artista. Era uma espécie de museu privado. Pinturas e esculturas dividiam a atenção do olhar, colocadas lado a lado, quase sem espaço para um respiro, nas paredes pintadas em verde escuro, que contrastavam com o ouro das molduras.

Tradução: Deste lado, a vista para a torre Saint Jacques

Litografia da série Locataires et propriétaires, de Daumier. 1847. (Fonte: Galeria virtual da Bibliothèque Nationale de France) 

O imóvel ocupava todo aquele andar de um edifício típico dos anos 60, com uma entrada para desembarque de carros e um nome sugestivo na fachada de pedra: Ouro Verde. Pertencia ao colecionador João Alberto Leivas Job (1930-1991), irmão do então Secretário de Segurança do Rio Grande do Sul, coronel do exército João Osvaldo Leivas Job (1928-2019). 

João Alberto era um célebre advogado, especializado em direitos e obrigações de herdeiros, e em transmissão de bens. Era autor da obra Da nulidade de partilha, tratado que se tornou clássico, e que recebera inúmeras reedições. 

O caso Lorenzo Viñas   

O momento político no estado e no país era tão crítico como o atual: O Brasil se via em extrema tensão política. Como imaginaria Daumier, de um lado o poder do governo associado aos militares. De outro, a lei. Como no romance de Machado, Esaú e Jacó, os dois irmãos, me parecia, se viam de lados opostos:  de um o advogado João Alberto, de outro o então secretário de segurança do Estado, coronel João Osvaldo. 

Já bem foi relatado, por Janaína Cesar na edição 10 desta Parêntese, um caso rumoroso acontecia naquele ano na fronteira do Estado, mas não aparecia nem em pequenas linhas nas páginas internas dos jornais sob censura: o desaparecimento recente, em Uruguaiana, do ítalo-argentino Lorenzo Viñas Gigli, jovem militante montonero de 25 anos. A Argentina vivia sob forte ditadura militar, com Rafael Videla na presidência. Viñas teria sido preso por agentes de segurança assim que ingressou, de ônibus, em território gaúcho. Detido por uns dias, ele foi entregue às autoridades argentinas no âmbito da Operação Condor, que marcou a época do terror das ditaduras do Cone Sul a partir da segunda metade da década de 70. Da prisão em Uruguaiana, Viñas foi levado a um cárcere clandestino conhecido como Polaca, em Passo de Los Libres, para posteriormente ser transferido ao Campo de Mayo, em Buenos Aires.  

A triste história de Lorenzo Viñas foi relembrada recentemente por conta da abertura do processo na I Corte de Assise, de Roma, que julga a operação Condor, sobre desaparecimentos no Brasil durante a ditadura. A denúncia inicial foi apresentada em 2015, com militares brasileiros acusados: João Alberto Leivas Job, secretário de Segurança, morto em 2019, Carlos Alberto Ponzi, chefe do SNI em Porto Alegre e que também morreu no ano passado, e Marco Aurélio da Silva Reis, então diretor do DOPS no Rio Grande do Sul, morto em 2016. 

Tradução:

Desenho feito no teatro por Daumier (título)
— Dizem que os parisienses são difíceis de agradar, mas aqui não vejo nenhum descontente. É verdade que todos esses franceses são romanos…

Litografia da série Les gens de justice, de Honoré Daumier. 1845-1846. (Fonte: Galeria virtual da Bibliothèque Nationale de France) 

O colecionador e o complexo fraterno

Em longa conversa, João Alberto me contou mais detalhes sobre seu encontro com o quadro de Daumier:

– Eu era como um aspirador seletivo, vasculhando cada canto da Europa empobrecida nos anos de pós-guerra. Depois de muita procura, e de me oferecerem gravuras e pinturas de procedência duvidosa, encontrei essa pintura com o certificado de autenticidade colado no verso, em um antiquário de Paris. Como o preço era muito alto, voltei para o hotel sem o quadro. Mas meu desejo só se completou alguns dias depois. Consegui juntar o dinheiro suficiente e voltei para o Brasil protegendo minha relíquia.

Pelo que ouvi do irmão mais novo, parecia haver um complexo fraterno, um conjunto de desejos hostis e amorosos ambivalentes entre os dois Leivas Job. Um irmão seria diferente e complementar do outro, onde se estabelecia, pela conversa em que tivemos, uma aparente rivalidade. Pareciam discordar na política, como dois opostos que representavam um país dividido. Assim como na época da oposição entre a monarquia e a república do romance machadiano com os personagens Pedro e Paulo, um fez Direito, carreira tida como liberal e algumas vezes oposicionista, o outro seguiu a carreira militar, da situação. Um quadro que, como vemos, se repete constantemente na história do Brasil, e que reforça a eternidade da obra de Daumier. Ao lembrar disso, acabei sonhando com Raymundo Faoro, grande amigo de minha irmã Dety. 

Contaminações: Picasso e Apollinaire

Acordei faz poucos dias com os jornais da TV mostrando imagens da recente apreensão de uma coleção, no mesmo endereço do edifício Ouro Verde, pela Polícia Federal. Lembrei de uma história que conto para meus alunos, quando falamos sobre o reforço da aura de uma obra pelo seu ocultamento.

Picasso e Apollinaire eram dois grandes amigos. O poeta teria intermediado com a indicação de um ladrão a venda pequenas esculturas primitivas roubadas do Louvre, pelas quais Picasso se apaixonara e que serviram como modelo para as Demoseille D’Avignon.  No dia 21 de agosto de 1911, a “Mona Lisa” desapareceu do Museu, em fato que provocou comoção mundial. Na caça ao ladrão, Picasso acabou sendo levado à delegacia, como maior suspeito. Seu atelier, com toda a coleção de obras suas e as que o artista recebera em trocas com seus camaradas de Montmartre, foi colocada sob suspeita e guarda. Picasso teria escapado da prisão entregando as obras roubadas, além do nome do fornecedor.

Apollinaire terminou preso, e Picasso foi chamado novamente à delegacia para o reconhecimento. Confrontado ao amigo Apollinaire, disse em frente aos policiais que nunca vira aquela pessoa antes. Picasso remoeu esse remorso para o resto da vida.

Termino aqui essa história sem conclusões, mas como uma fábula: a das contaminações, ocultações e reforços de aura, matérias caras ao campo da Arte.    

Tradução: Quando o crime não compensa
Litografia da série Les gens de justice, de Honoré Daumier. 1845-1846. (Fonte: Galeria virtual da Bibliothèque Nationale de France)


Eduardo Vieira da Cunha é artista visual e professor do Instituto de Artes da UFRGS.

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