Ensaio

O Jogo

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O Jogo

Dia desses encontrei uma caixa cheia de medalhas das competições de que meu pai participou: basquete, futebol, atletismo. Sua carreira de superatleta acabou num salto, quando ele pulou para a cesta e seu pé foi calçado contra o chão. Quando tomou impulso para lançar a bola, romperam-se-lhe os ligamentos, tendões, músculos e a possibilidade de praticar qualquer outro esporte.

Meu pai se dizia gremista, mas foi um dos primeiros sócios do Parque Gigante. Levava meu filho aos dois estádios, comprava-lhe camisetas dos dois times para garantir a liberdade de escolha. E o guri, na sua ingenuidade, acabou escolhendo: tornou-se colorado! Um colorado fanático, dos que grita, vai ao estádio em dias de frio e chuva e fala mal dos gremistas. Aliás, parece que ele torce mais contra o Grêmio que a favor do Inter.

Essa hybris agredia meu pai. Ele dizia que, no fundo, torcia mesmo para o esporte. Cresci, eu também, torcendo para o esporte, para qualquer um, para qualquer equipe. Sou apenas torcedora porque não fui brindada pelos deuses – nem pelos do Olímpico, no pé do morro, nem pelos do Beira-Rio, à beira do lago – com o fundamental do esporte: a necessidade de ganhar. A competição, para mim, tanto faz! Acho bonito um bonito gol, ou uma cesta enfiada, ou um salto no infinito. Mesmo em jogo de cartas, prefiro ver uma bela canastra de ouros, não importa se foi feita pela minha dupla ou não. Por isso gosto de natação: nadando sou minha adversária, porque nada-se contra o limite do próprio corpo e contra o limite do tempo. A mim importam, do jogo, os gestos, a precisão da trajetória, a emoção dos torcedores. À quantificação, em gols ou em pontos, às regras do jogo, eu não consigo aderir. 

Nos jogos oficiais eu gosto do Hino. Sofro de uma memória corporal que, ao ouvir o Hino Nacional, faz imediatamente crescer uma bola de choro na minha garganta, que sobe para o nariz, desce ao estômago e sobe novamente, líquida, explodindo em lágrimas. Sofro disso desde os anos 70, quando ouvi o Hino Nacional nos Jogos da Copa do México, ou durante o hastear da bandeira-nossa-de-todos-os-sábados de manhã no Colégio Polivalente. O Hino mistura, em mim, as memórias da metralhadora cinza-escuro do soldado que ficava na guarita da entrada do quartel onde eu morava, com o Topo Giggio, o Sujismundo, o MOBRAL e os presos políticos – que, na época, eu nem sabia que existiam. Automaticamente, essa velha memória que me faz chorar volta sempre que ouço o Hino Nacional, mesmo, quando, por exemplo, percebi o delay do playback dos cantores na Abertura da Copa no Brasil. Chorei da mesma forma ao ver a indiferença censora da imprensa no chute do paraplégico e do seu exoesqueleto comandado pelo pensamento. A memória do Hino provoca em mim uma profunda emoção, e o mesmo choro que verti quando vi a ex-guerrilheira, que assistiu da prisão a Copa de 70, ser vaiada publicamente na de 2014, então como Presidente do Brasil. Será que a solidão é a mesma na tortura e no poder?

Em estádio com público, só entrei em um durante toda minha vida. Era um estádio de rúgbi, que tem um campo tão estranho quanto as próprias regras do jogo. Estranha era, também, a cobrança da lateral: para pegar a bola, os colegas arremessavam um jogador segurando-o pelo calção. Curiosamente, os jogadores do mesmo time não podem tocar nos seus companheiros, apesar de se chocarem violentamente contra os adversários, fazendo jorrar sangue, criando hematomas e arrancando orelhas. 

Essa regra da lateral quem me explicou foi um lindo ex-soldado da Legião Estrangeira que me havia convidado para ver o jogo. Na Legião, ele recebera a nacionalidade tailandesa, apesar dos seus quase dois metros de altura, dos olhos verdes, do cabelo claro e de um corpo que, apertando, parecia feito de puro aço. Ele era uma verdadeira máquina de guerra. Enquanto voltávamos do jogo caminhando pelas ruas de Paris, ele me contava do treinamento da guerra, que o fazia ainda acordar de 15 em 15 minutos durante as noites. Essa falta de sono contínuo o deixava uma bomba de nervos prestes a explodir por qualquer motivo. Mas, olhando assim, não dava para acreditar: ele era um doce de pessoa, daquelas que oferecem flores, trazem bombons e abrem a porta dos carros.

Com ele vi só mais um e último jogo. Era o dia da final da Copa de 94 quando bateu à minha porta, com uma caixa de doces, convidando-me para vermos Brasil X Itália. Eu já estava de saída para o apartamento de um casal de brasileiros. É verdade que eu estava indo mais para vê-los e para comer os maravilhosos salgadinhos goianos do que realmente para assistir ao jogo.

Chegamos naquela verdadeira embaixada de Goiás em plena Paris, exatamente na hora que o Hino Nacional começou a tocar. Mesmo detrás da porta fechada, a bola de choro começou a subir da garganta para o nariz e, como sempre, tornou-se líquida e verteu em lágrimas. Abriram a porta com um olhar contrariado pela presença de um desconhecido. É claro que eu havia ligado para perguntar se poderia levá-lo, não cometeria uma indelicadeza dessas. O casal tinha um jeito meio desconfiado de quem não gosta de estrangeiros. Mesmo em Paris, para eles, se não fosse brasileiro, era estrangeiro. 

Meu convidado, um estranho estrangeiro tailandês, logo confessou que, da Tailândia, só tinha a nacionalidade, porque os franceses, quando entram na Legião, que é de estrangeiros, precisam abrir mão da sua. E completou, dizendo que seus pais moraram na França, mas eram italianos e que ele se sentia, mesmo, muito italiano. Essa revelação caiu como uma bomba. A ideia “ele é italiano!” solidificou-se no ar, como um bloco, como uma primeira bomba de uma noite de bombardeios. Confesso que, no primeiro momento, não percebi a gravidade da situação. Para mim, era um italiano querendo ver o jogo da Itália. E até pensei: que bacana vermos todos juntos!

Meu amigo goiano perguntou-me em goianês: 

– Uai, um italiano aqui? Hoje? Justo hoje? Tenho que te dizer que como não estávamos preparados para mais uma pessoa, não tem salgadinhos para ele…!.

Eu pensei: se não tem para ele, não tem para mim também, é claro. E virou uma questão de honra gaúcha não tocar naquelas delícias.

Então o jogo começou. 

Durante uma hora e meia, desejei um desastre que evitasse a manifestação de qualquer uma das torcidas amontoadas naquele sofazinho, daquela minúscula sala em Montparnasse. Era uma época de explosões terroristas no metrô: só no mês anterior, haviam sido duas. Por que não explodia uma bomba hoje, logo, naquele momento? Ocorreu-me que poderia simplesmente faltar luz. Mas energia nuclear dificilmente falha, além do que a EDF [Électricité de France, a companhia de energia] era o orgulho da França. 

O pior mesmo era não poder comer salgadinho algum, por uma questão de honra. É nessas horas que odeio a ética do Pampa, que transforma tudo em questão de honra.

Vieram os pênaltis. 

Na mesa de centro, uma barreira de salgadinhos e negrinhos – ou brigadeiros, como os dois goianos invariavelmente me corrigiam – chamava meu olhar. Pensava que trocaria a taça de ouro da Copa do Mundo por um prato de plástico daqueles salgadinhos. Eu olhava para o ítalo-franco-tailandês. Olhava para os goianos e olhava para os salgadinhos. Olhava para a mesa, para os salgadinhos, para os goianos. Sentia-me como um goleiro tentando imaginar de onde viria a bomba que, com muita sorte, explodiria nas minhas luvas, evitando o gol! Lembrava as histórias do meu ex-futuro-quase-namorado sobre a Guerra do Iraque e sobre as caixas de brinquedos que os americanos jogavam de paraquedas. Quando as crianças iraquianas as levantavam do chão, os brinquedos-minas explodiam em suas mãos. 

Olhei para a TV. Um jogador de camiseta azul com o cabelo curto e um rabinho de cavalo estranhíssimo estava arrumando a bola. Na sala fez-se um silêncio mortal que pareceu eterno. Lembrei dos sábios conselhos do meu pai: – “De uma festa sempre se sai antes que acabe!” O jogador correu e eu pensei: acaba logo com isso porque, se eu não posso comer os salgadinhos, quero ir chez-moi


Lizete Dias de Oliveira é arqueóloga e historiadora. Tem doutorado em Arqueologia pela Université de Paris I (Panthéon-Sorbonne), pós-doutorado em Ciência da Informação pela Universidade do Porto e é especialista em Arqueologia Subaquática pela Escola Superior de Tecnologia/Instituto Tomar. Foi professora da UFRGS no Departamento de Ciências da Informação, onde participou da criação do Curso de Museologia. Pesquisa sobre Semiótica, Sistemas de Informação, Teoria da Arqueologia e Arte Rupestre. Defendeu sua tese de doutorado sobre as missões jesuíticas entre os Guarani. Atualmente estuda as culturas dos povos originários e suas relações com a paisagem, principalmente a partir de sítios arqueológicos em águas interiores.

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