Ensaio

Oração ao Tempo

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Oração ao Tempo

No início do primeiro volume de Em Busca do Tempo Perdido, Marcel, o narrador, nos apresenta Combray, cidade que concentra boa parte de suas lembranças de infância. Entramos no quarto da neurastênica tia Léonie, dona da casa onde ele costumava veranear com os pais e os avós, e vemos sobre a mesa de cabeceira seus remédios, uma garrafa de água de Vichy e a imagem de uma santa. Descendo as escadas, espiamos a cozinha de Françoise, a criada que aparece do início ao fim da narrativa – algumas décadas e mais de quatro mil páginas depois. Aprendemos as rotinas da casa e os hábitos da família, observamos o tratamento dispensado aos visitantes e quase somos tentados a passar os dedos sobre os móveis para conferir se a limpeza foi bem feita naquela manhã.

Da casa de tia Léonie, somos conduzidos a um passeio por Combray. Uma das paradas é a igreja Saint-Hilaire, onde o menino Marcel costumava assistir à missa todos os domingos. Não é qualquer igreja: é “a igreja”, destaca o narrador, a matriz original do conceito. Ao descrever minuciosamente o ambiente (o altar, o campanário, as paredes, a luz que entra pelas janelas), o narrador observa que tudo ali comporta quatro dimensões – a quarta delas sendo o Tempo, que cobre cada detalhe da arquitetura com camadas sobrepostas das memórias de outras épocas.

Mesmo quem nunca se aventurou pelas mais de 4 mil páginas da obra-prima de Marcel Proust sabe que o livro se ocupa da “quarta dimensão” da existência. A palavra “Tempo” está no título, assim como na primeira frase do romance, “Durante muito tempo, eu me deitava cedo”, e duas vezes na última: “Se dispuser de tempo suficiente para concluir minha obra, não deixarei de descrever os homens (mesmo que isso os faça parecer monstruosos) como seres que ocupam, além dos limites restritos que lhes está reservado no espaço, um lugar que se prolonga sem bordas – já que eles tocam simultaneamente, como gigantes, épocas distantes entre as quais tantos dias se passaram – no Tempo.”). 

O Tempo está na evocação da memória, origem do relato, e em um projeto que se estende para o futuro – a narrativa, prenunciada nas últimas páginas, que se tornaria o próprio Em Busca do Tempo Perdido, romance que o narrador decide começar a escrever. É motivo de melancolia (a finitude, o envelhecimento, a decadência, as perdas), mas também de redenção (a arte, a narrativa, a memória, o patrimônio – concreto ou simbólico – que permanece). Assim como escorre graciosamente em frases e descrições que se alongam sem pressa, parece escasso quando quem escreve teme não chegar a concluir sua obra. Tempo é o que o escritor deu ao livro – toda sua vida, nos últimos anos. Tempo é o que o livro pede ao leitor.

Neste 10 de julho de 2021, o calendário marca os 150 anos do nascimento de Marcel Proust (1871 – 1922). A essa distância, já é possível dizer que o Tempo devolveu à altura todas as homenagens a ele prestadas pelo escritor. Não apenas sua obra continua sendo lida, editada, traduzida, comentada, como formou-se em torno do autor uma espécie de culto permanente que chega em boa forma, e renovado, ao biênio das comemorações de nascimento e morte. 

Para muitos leitores (entre os quais me incluo), Proust tornou-se “a igreja” – uma igreja laica, não dogmática, às vezes despudorada, onde a beleza é a divindade soberana e a arte dá sentido à vida. Poucos livros, além dos sagrados, se prestam tanto a releituras e a desdobramentos além das páginas quanto Em Busca do Tempo Perdido. Muito além da vasta legião de críticos e leitores famosos que escreveram sobre Proust (Virginia Woolf, Walter Benjamin, Vladimir Nabokov…), “La Recherche” inspirou dicionários, livros de receita, álbuns de pintura e manuais de autoajuda – além de reflexões sobre o amor, o ciúme, o desejo, a memória, a modernidade, o judaísmo, a ambição, o mundanismo, a homossexualidade, os limites entre autobiografia e ficção… Sem falar dos discos, das exposições, dos museus, dos livros de viagem, dos sites e dos perfis nas redes sociais que postam drops proustianos todos os dias. Dizem que metade das pessoas que leem o primeiro volume, No Caminho de Swann, não chegam ao segundo, À Sombra das Raparigas em Flor, mas os que passam do terceiro, O Caminho de Guermantes, prosseguem até o último, O Tempo Redescoberto – e quem lê todos nunca mais abandona Proust.

Minha primeira experiência de leitura de Em Busca do Tempo Perdido foi aos 20 e poucos anos. Proust era como uma roupa de mulher adulta (um tailleur?) que eu achava que deveria experimentar para ver se me caía bem. Caiu, acho, mas não ao ponto de eu adotar o figurino definitivamente. A tradução clássica da Editora Globo é amigável, e a história do amor de Swann por Odette de Crécy não é difícil de interessar a qualquer um que já se apaixonou, mas não fui adiante. 

Passaram-se décadas até eu decidir retomar a leitura, em 2013. Desenvolvi um método particular para não desistir da empreitada no meio do caminho (de Guermantes): lia cerca de 50 páginas por semana, nem mais nem menos, sem pressa de chegar ao cume do Everest, o que finalmente aconteceria cerca de três anos mais tarde. Percebi que o que me faltara, 30 anos antes, era exatamente a “quarta dimensão” da leitura. Não tenho dúvida de que o romance de Proust pode ser lido em qualquer época da vida, mas quem lê muito jovem talvez ainda não tenha sido atingido pelo sentido de brevidade da existência que nos atropela por volta da meia-idade – quando nossos pais, nossos amigos de infância, a cidade em que nascemos e mesmo a nossa juventude começam a nos abandonar muito antes do que deveriam. Para melhor entender o que Proust buscava recuperar, talvez seja preciso já ter começado a perder.    

Terminei o último volume em Paris, em 2016, quando completei 50 anos, e comecei ali a alimentar uma certa obsessão por Proust. Comprei livros, percorri museus e visitei endereços que se relacionavam, de uma forma ou de outra, com o autor e a obra. (“Prequel”: existe uma foto minha, de 1996, tirada diante de um desses endereços que eu visitei em 2016: Rue Hamelin, 44. Ali, no mesmo prédio onde Proust morreu, em 1922, o jornalista Carlos Reverbel, meu amigo, mestre e hoje objeto de pesquisa, passou uma temporada, em 1947. Um amor não tem nada a ver com o outro, em princípio. Tirei a foto para mandar para o Reverbel, que não era leitor de Proust, a título de cartão-postal. Pero que las hay, las hay.)

Depois de passar os últimos cinco anos lendo (e falando) sobre Proust, tenho tanta vontade de deixá-lo de lado como um torcedor cogita abandonar o time favorito ao final da última partida de um campeonato vitorioso. Por sorte, nunca falta o que ler – ou reler. Morando em Nova York há quatro meses, decidi encarar a tradução em inglês só pra ver qual era. E tem sido uma viagem dentro da viagem. Atualmente, a viajante caminha mais devagar (20 páginas por semana) e observa a paisagem com muito mais atenção aos detalhes. Spoiler: Proust anda escrevendo cada vez melhor – agora também em inglês.  

Já me habituei com o olhar de “não nesta vida” que costumo receber de alguns dos meus interlocutores mais inteligentes quando compartilho meu entusiasmo. Proust talvez não seja mesmo um autor para todos os leitores. Menos porque a leitura seja especialmente difícil – não é – mas porque ler sete volumes de um mesmo romance (sem dragões que voam ou estilo que rasteja), composto por frases longas e descrições detalhadas sobre quase tudo, exige uma certa devoção – e Tempo. 

Quem se arrisca corre o risco de ficar obcecado, como Swann por Odette, mas não por uma única paixão, mas por um universo que parece se expandir a cada nova leitura – para fora e para dentro do próprio leitor. Ninguém entendeu melhor do que Proust por que, às vezes, um livro profano é capaz de tornar-se sagrado – como uma catedral: “Captar a nossa vida; e também a dos outros; pois o estilo para o escritor como para o pintor é um problema não de técnica, mas de visão. É a revelação, impossível por meios diretos e conscientes, da diferença qualitativa decorrente da maneira pela qual encaramos o mundo, diferença que, sem a arte, seria o eterno segredo de cada um de nós. Só pela arte podemos sair de nós mesmos, saber o que vê outrem de seu universo que não é o nosso, cujas paisagens nos seriam tão estranhas como as porventura existentes na Lua. Graças à arte, em vez de contemplar um só mundo, o nosso, vemo-lo multiplicar-se, e dispomos de tantos mundos quanto artistas originais existem, mais diversos entre si do que os que rolam no infinito, e que, muitos séculos após a extinção do núcleo de onde emanam, chame-se este Rembrandt ou Vermeer, ainda nos enviam seus raios”. (O Tempo Redescoberto)

Dez coisas que você precisa saber sobre Proust (e que eu não disse antes porque não deu tempo): 

1) Marcel Proust nasceu em 10 de julho de 1871, em Auteuil-Neuilly-Passy, hoje um bairro ao sul de Paris, na casa de um tio-avô. 

2) Sua mãe estava grávida quando eclodiu a Comuna de Paris, e a saúde eternamente frágil do primogênito da família costuma ser atribuída às tensões e privações daqueles dias.

3) O pai de Proust, Adrien, foi um epidemiologista renomado. A mãe, Jeanne, era filha de uma rica e culta família judia. O irmão mais novo, Robert, como o pai, foi um médico bem-sucedido e assumiu a responsabilidade de cuidar de Marcel, que nunca trabalhou.

4) O embrião daquilo que seria Em Busca do Tempo Perdido já está em Jean Santeuil, romance não acabado escrito entre 1896 e 1900. Proust ainda não havia encontrado a pegada certa para o que queria escrever. 

5) Em Busca do Tempo Perdido foi publicado entre 1913 e 1927. A obra é composta de sete volumes: No Caminho de Swann (1913), À Sombra das Raparigas em Flor (1919), O Caminho de Guermantes (publicado em dois volumes, em 1920 e 1921), Sodoma e Gomorra (publicado em dois volumes, em 1921 e 1922), A Prisioneira (publicado postumamente, em 1923), A Fugitiva – Albertine Desaparecida (publicado postumamente, em 1927) e O Tempo Redescoberto (publicado postumamente, em 1927).

6) A eclosão da I Guerra, em 1914, interrompeu a publicação da obra e mudou radicalmente o projeto original, que era de apenas três livros. 

7) O primeiro volume foi editado à custa do autor na pequena editora Grasset. Proust tinha fama de afetado e superficial e não entusiasmava os editores.

8) Ao receber o manuscrito, o escritor André Gide recusou secamente a publicação. Proust se queixava de que o colega sequer abriu o pacote com o texto antes de mandar a rejeição.

9) Depois de publicado, o sucesso foi quase imediato. Pelo segundo volume, À Sombra das Raparigas em Flor, Proust recebeu o Prêmio Goncourt de 1919. 

10) Proust passou os últimos três anos de vida confinado ao seu quarto, dormindo durante o dia e trabalhando à noite, angustiado com a ideia de não concluir sua obra. Morreu no dia 18 de novembro de 1922, aos 51 anos, pouco depois de revelar a Céleste Albaret, a fiel governanta e secretária, que havia chegado ao fim do livro. O tempo, afinal, estava ao seu lado.


Cláudia Laitano é jornalista, com especialização em Economia da Cultura. É mestranda em Literatura pela UFRGS, com pesquisa sobre Carlos Reverbel. É autora de “Agora eu era” e “Meus livros, meus filmes e tudo o mais”, ambos pela L&PM.

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