Ensaio

Palmares e o 20 de novembro

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Palmares e o 20 de novembro

Exatamente 25 anos atrás, Oliveira Silveira publicou um texto que dava conta dos 25 anos de invenção do Vinte de Novembro como data mais significativa para os negros brasileiros do que o Treze de Maio. Oliveira compunha, em 1971, o grupo Palmares, na primeiríssima hora. E em novembro de 1996 podia contar aquela trajetória.

Agora, aos 50 anos daquela feliz postulação, já sem a presença do poeta e militante entre nós, nos cabe evocar essa história. E pensamos que uma forma adequada era trazer aquele depoimento de volta. 

Ele saiu na revista Porto & Vírgula, ano IV de sua vida, número 29. A publicação era comandada pela Secretaria Municipal de Cultura de Porto Alegre, e sua editora foi, por muitos e felizes anos, Susana Gastal. Esse número foi também o derradeiro publicado por aquela gestão, na qual eu ocupei, para minha grande honra, o cargo de Coordenador do Livro e da Literatura, estando a revista ligada a essa Coordenação. Este aliás foi o motivo de eu assinar o editorial daquele número. 

Oliveira Silveira colaborou em outras iniciativas naqueles anos. Mas é certo que esse texto, assinalando um quarto de século, teve e tem grande significação. Agora, com  a devida autorização de sua filha, responsável pela guarda de seu legado, Oliveira volta a circular entre nós com essa bela reflexão, em que ele, modestamente, menciona sua própria participação em terceira pessoa – “o componente Oliveira”, ele escreve, para talvez sublinhar o caráter grupal da iniciativa, que ele não está testemunhando nas cinco décadas cumpridas neste 2021.

* Texto de Luís Augusto Fischer


Abaixo, o “olho” que saiu na revista em 1996:

A ATUAÇÃO DO MOVIMENTO NEGRO TEM CRESCIDO NAS ÚLTIMAS DÉCADAS. ENTRE AS SUAS ARTICULAÇÕES, UMA DELAS MUITO SIGNIFICATIVA, FOI TRANSFERIR PARA 20 DE NOVEMBRO AS COMEMORAÇÕES QUE ATÉ ENTÃO ESTAVAM NO 13 DE MAIO. 

O POETA OLIVEIRA SILVEIRA, AUTOR DA IDEIA, NOS EXPLICA POR QUÊ.

O dia vinte de novembro vem sendo evocado no Brasil há vinte e cinco anos, celebrando o Estado negro de Palmares (Angola Janga: Angola pequena; ou, quem sabe, Ngola Yange, minha Angola, no idioma umbandu, com a pronúncia iangue). A iniciativa foi do Grupo Palmares, de Porto Alegre, em 1971. O papel da imprensa foi decisivo na difusão da proposta para o resto do país e sucessivas adesões foram ocorrendo a partir do eixo Rio-São Paulo. O trabalho contínuo do Grupo Palmares, assinalando a data todos os anos, tornou o Vinte de Novembro nova e forte motivação, além de importante elemento aglutinador para o movimento negro.

Em 1978, sete anos mais tarde, formou-se em São Paulo e Rio de Janeiro o Movimento Negro Unificado Contra a Discriminação Racial (MNUCDR, depois MNU), que num congresso em Salvador (novembro de 1978) denominou o vinte de novembro Dia nacional da consciência negra.

Para chegar ao vinte de novembro, a pesquisa do Grupo Palmares, a cargo do autor desta matéria, baseou-se principalmente em três fontes: o fascículo Zumbi, da Editora Abril, que circulava em 1971, e as obras O Quilombo dos Palmares, de Édison Carneiro, 1947, e As Guerras nos Palmares, de Ernesto Ennes, editada em 1938 (ambas da Cia. Edit. Nacional, São Paulo). Palmares – século XVII no nordeste brasileiro – foi considerado pelo grupo o momento mais alto na história do negro no Brasil e por isso foi adotado esse nome Grupo Palmares a partir da criação em 20 de julho de 1971 na reunião de quatro negros: Antônio Carlos Cortes, Ilmo da Silva, Oliveira Silveira e Vilmar Nunes. Nas reuniões seguintes, entraram Anita Abad e Nara Helena Medeiros Soares. Foram logo programadas e promovidas homenagem a Luís Gama em agosto (ocorrida em início de setembro na Sociedade Floresta Aurora), a José do Patrocínio, em outubro (parece que no mesmo local) e a Palmares em 20 de novembro, realizada no Clube Náutico Marcílio Dias, na avenida Praia de Belas, quase esquina da José de Alencar. O Marcílio é um espaço físico já perdido.

O primeiro vinte

Noticiando em 17 de novembro o ato a ser realizado dia 20, a Folha da Tarde usou o título:  Zumbi, a homenagem dos negros do teatro, e falava em espetáculo. Isto porque o grupo tinha planos de no futuro desenvolver um trabalho teatral, que nunca ocorreu. A nota fez com que o grupo fosse chamado à polícia federal para obter liberação da censura. Era a época da ditadura militar e o teatro sofria marcação severa, em cima.

[Continua...]

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