Ensaio

Papel das letras

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Papel das letras Foto: Divulgação/Boitempo

Que rumo diferente poderia ter tido a prática da crítica cultural nas Américas? Um clássico que comemora 40 anos agora, A cidade das letras, de Ángel Rama (com edição corrente em português pela Boitempo Editorial), quase impõe a pergunta, em suas entrelinhas. Publicado em 1984, um ano após a prematura morte de seu autor (nascido em Montevidéu, em 1926), o livro é um caso raro de crítica cultural ampla em cujo miolo – como se lê nos trabalhos da rara Beatriz Sarlo – está a literatura, tudo articulado a partir de um ponto de vista de esquerda. 

Esquerda reformista, não aquela que se pretendia revolucionária. Rama está interessado em entender a história e o funcionamento das letras no ambiente histórico indicado no título, a cidade, na América. O ponto de partida quase não poderia ser mais simples: Rama observa que a cidade, no Novo Mundo americano, nasceu por assim dizer pronta, estruturada, sem contar com o lento processo de amadurecimento e acumulação ocorrido na Europa. Nessa cidade nova e simultaneamente já estratificada, os letrados e as letras terão papel central, que Rama trata de estudar, em sucessivos momentos da história. Um papel de guardiães do poder, mantendo à margem a língua dos “bárbaros”, à custa de um barroquismo conveniente aos escritores e intelectuais mesmo e ao poder que protegiam.

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Olhando a coisa com distância crítica, hoje seria necessário modular essa tese, justamente porque no Brasil a coisa não foi tão linear quanto nas capitais e cidades em geral da América hispânica. Justamente um dos encantos e das matrizes da força cultural brasileira tem a ver com as cidades que cresceram meio que ao deus-dará, como Salvador, as cidades mineiras do ciclo do ouro e o Rio de Janeiro. Nelas, o traçado das ruas responde a um harmonioso diálogo com o acaso dos aclives e declives dos morros, dos cursos de água, das formações rochosas imponentes, quase poderíamos dizer dos caprichos da sorte – quase exatamente a mesma coisa que ocorreu depois com as favelas e as ocupações do espaço à margem do planejamento. Esta corresponderia ao que Rama mesmo chama de “cidade orgânica” medieval, oposta à cidade colonizadora que ele sublinha como sendo uma racionalidade imposta, já hierarquizada, que afasta o povo em relação ao poder.

Sobre o tema há um estudo brasileiro clássico, que Rama não parece conhecer (ao menos não o cita), de Sérgio Buarque de Holanda, Raízes do Brasil, ensaio de 1936 que traz um capítulo inspirado em sermão do padre Vieira, “O semeador e o ladrilhador”. Nele se lê que há dois paradigmas de cidades na América: um é o do ladrilhador, que, como se vê exemplarmente na América hispânica, organiza a cidade como se ajustasse ladrilhos quadrados, resultando a cidade num tabuleiro de xadrez; outro é o do semeador dos tempos antigos, que espalha as sementes com a mão, de maneira que as plantas nascerão meio ao caso, contornando pedras, respeitando aclives etc. Esse não é dos menores motivos da diferença da cultura brasileira em relação às culturas dos países vizinhos.

Alinhando muito à vontade análises e intuições de urbanistas, críticos literários, sociólogos, historiadores e não menos escritores – incluindo gente que hoje em dia nem se cumprimentaria, dadas as animosidades de seus intérpretes, um Richard Morse e um Darcy Ribeiro aqui, um Michel Foucault e um Jacques Derrida ali – , Rama pensa na América, um âmbito que se perdeu, desde sua geração, quase a mesma do citado Darcy, Celso Furtado, Raymundo Faoro, Antonio Candido e Fernando Henrique Cardoso, intelectuais formados na perspectiva desenvolvimentista. 

Desde que o li, na edição da Brasiliense em 1985, retive algumas de suas belíssimas ideias, algumas intuitivas, outras cultivadas e argumentadas documentadamente. Uma delas: as cidades, na América, passaram por três etapas de nomeação das ruas. Na primeira fase, as ruas recebem nomes a partir de seu uso ou situação concreta, vivida: rua da Praia, rua da Olaria, rua do Cotovelo, para dar exemplos porto-alegrenses. Na segunda, elas passam a ser nomeadas homenageando figuras do poder – presidentes, bispos, generais, imperadores no caso brasileiro, datas cívicas: são as infinitas ruas Getúlio Vargas, ou Borges de Medeiros, no nosso caso, e são mesmo renomeações, com o sufocante “rua dos Andradas” para encobrir a “rua da Praia”, ou Lima e Silva para tapar a Olaria. Na terceira, finalmente, os nomes serão técnicos, frios, como os Eixos de Brasília, ou as Perimetrais na capital gaúcha. Um complexo processo, que um intelectual fino como Rama sabe dar a ver de modo muito direto e sempre crítico. 

Quando comenta a força da língua do colonizador, Rama igualmente produz sínteses preciosas. Os letrados são defensores da “cidade letrada”, que é o poder (civil, militar, eclesiástico, jurídico, cultural também), porque mantêm à margem as outras línguas, aquelas faladas pelo povo – no caso brasileiro temos visto isso agora retornar à superfície nas produções literárias de afrodescendentes e ameríndios. Rama fala numa “diglossia”, usando um termo de seu tempo, em que a linguística ainda não tinha se apartado claramente dos estudos literários: “A fala cortesã se opôs sempre ao alvoroço, à informalidade, à torpeza e á invenção incessante da fala popular, cuja liberdade identificou com corrupção, ignorância, barbarismo”, diz/ 

Não se trata de um otimista ingênuo, mas de alguém que, mesmo debruçado sobre temas tidos como menores (a literatura gauchesca, por exemplo), só sabia pensar em escala internacional, em geral continental, sem complexos de inferioridade, mas também sem delírios de grandeza. Não tinha nada dessas divagações anódinas que vieram a ser dominantes no cenário acadêmico das Letras no Brasil sob o generoso e enganoso guarda-chuva da literatura comparada e do multiculturalismo de ocasião. 

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