Ensaio

Parece que tudo é, de fato, relativo

Change Size Text
Parece que tudo é, de fato, relativo

“Por trás de um grande homem há sempre uma grande mulher”. Foi ouvindo esse tipo de baboseira que eu e muitas outras meninas da minha geração crescemos. Algo para justificar o patriarcado, disfarçado de elogio. Quando pequena, desconfiava que havia algo de errado com a frase, ela ficava entalada na garganta. Na época, anos oitenta, eu já tinha ouvido falar muito em grandes homens, sabia os nomes de diversos deles.

Nos últimos anos, principalmente por conta da vontade de mulheres interessadas em fazer justiça histórica, as vidas dessas “grandes mulheres” têm vindo à tona. Deparei-me com a história de uma dessas mulheres navegando pelas notícias no celular, ao ler: “A lista de exigências de Albert Einstein para ‘salvar’ o seu casamento”, da revista Super Interessante. Li a reportagem e acabei fazendo uma pesquisa para obter mais informações sobre Mileva Marić, a primeira esposa do homem que é considerado um gênio da física.

O casal se conheceu em 1896, quando ambos ingressaram na Universidade Politécnica de Zurique, na turma de física e matemática. O pai de Mileva Marić havia obtido uma autorização do Ministério da Educação para que ela fosse aceita, e era a única mulher na turma. Há relatos de que era brilhante, bastante quieta, organizada e metódica. Já Albert era inquiridor e indisciplinado. Os dois eram inseparáveis na universidade. Entre 1899 e 1903, Albert e Mileva trocaram 43 cartas, quando precisavam se separar nas férias, e muitas delas demonstram que ela o ajudava a canalizar a energia, estudando juntos por horas.

Uma pequena pausa no relato para analisar alguns fatos. Mileva entra em uma universidade que, na verdade, não aceita mulheres. Podemos assumir que os professores, certamente todos homens, não veem isso com bons olhos. Ela, obviamente, sente isso. Tenho certeza de que era tudo muito mais difícil para ela. Todos sabemos de histórias de professores que tornam a vida de algum aluno um inferno, se quiserem. Como fica a autoestima de uma pessoa como Mileva que, apesar de ser brilhante, não pode exercer esse brilhantismo, não é convidada a brilhar? Pelo contrário, como está relatado, ela era quieta, ciente de que não era bem-vinda naquele local. Imagine o pai dela chegando com uma carta do Ministério da Educação dizendo que eles são obrigados a aceitá-la. Eu consigo até ver a cara torta dos professores.

Essas hipóteses ficam ainda mais fortes quando se fica sabendo que Mileva, no final do curso, tinha média superior a Albert, mas acaba não obtendo o diploma por não passar em um exame oral. Todos os alunos homens recebem nota 11 de 12 enquanto Mileva recebe um mísero 5. Fico imaginando Mileva em frente ao professor Minkowski, sendo tostada pelo olhar dele, tentando se concentrar nas respostas, nervosa com a situação, e ele, por certo, buscando formas de emboscá-la, deixá-la constrangida, abusando de mansplaining e manterrupting, dando aquele risinho sarcástico após cada fala dela. Se nós mulheres passamos por isso agora, imagina naquela época.

Depois de conseguir o diploma, Albert diz que só casaria com ela depois de conseguir um emprego. Os dois continuam trabalhando juntos e escrevem um artigo. Isso tudo está demonstrado em cartas que os dois continuam trocando. Albert fala em “nosso artigo sobre movimento relativo”, mas a ideia dos dois é que ele submeta o artigo somente com o seu nome. Alguns biógrafos de Mileva acreditam que ela estava tentando ajudar Albert a fazer nome para poder arrumar um emprego e casar-se com ela. Outros acreditam que a decisão foi tomada para que a publicação fosse mais facilmente aceita, já que o nome de uma mulher no artigo poderia diminuir a importância do estudo.

Em 1901, a vida de Mileva muda drasticamente por conta de algo que só acontece com mulheres: a gravidez. Claro, poderia ser algo maravilhoso, mas ela não está casada, e isso, naquela época mais do que hoje, acabou sendo um grande problema. Como se isso não bastasse, mesmo grávida, ela tenta novamente o exame oral para obter o diploma, desta vez com o professor Weber, alguém que Albert acredita estar sabotando sua carreira. O resultado é fácil de adivinhar: ela é reprovada. Em janeiro de 1902, Mileva dá à luz uma menina chamada Liserl e ninguém nunca soube ao certo o que aconteceu com a criança. Muitos acreditam que ela tenha sido levada para a adoção. Há relatos de que ela tentou convencer Albert a casar-se com ela antes do nascimento, sem sucesso.

Depois desse trauma duplo, duas estocadas no coração, eu a imagino desvanecendo. Um holofote cuidadosamente tendo sua luz diminuída. Ainda assim, ela continuou. Há diversos relatos orais e em cartas de que eles, depois de terem se casado em 1903, trabalhavam juntos à noite, fazendo cálculos, lendo e debatendo depois do expediente. Na época, ele trabalhava no escritório de patentes e ela assumiu os trabalhos domésticos. Em maio de 1904, tiveram um menino.

O ano de 1905 ficou conhecido como o “ano do milagre” de Albert Einstein, pois ele publicou cinco artigos e ainda fez comentários em outros estudos científicos. Muitos relatam, em conversas com amigos, que Albert e Mileva sempre comentavam sobre o trabalho colaborativo que faziam.

Em 1909, Albert conseguiu o reconhecimento pelo qual ambos trabalhavam, tornando-se um professor acadêmico em Zurique. Ela continuava ajudando-o: a letra dela aparece nas notas da primeira aula que ele daria. Em 1910, outro menino, Eduard, nasce, e Mileva continua presa em casa enquanto seu marido está dominando o mundo científico, com a ajuda dela, é claro.

Bom, não só o mundo científico. Em 1912, ele começa um romance com uma prima chamada Elsa que ele encontra enquanto visitava a família em Berlim. Esse fato faz com que Albert aceite posições em faculdades para estar mais perto da amante Elsa e mais longe da esposa.

A partir disso, a luz de Mileva vai diminuindo cada vez mais. E é nessa época, segundo a revista Super Interessante, que Einstein escreve a lista de condições para “salvar” o casamento:

CONDIÇÕES

A. Você vai se certificar:

1. de que minhas roupas estejam sempre limpas e em ordem;

2. de que eu vou receber três refeições regularmente no meu quarto;

3. de que meu quarto e escritório sejam mantidos limpos e especialmente de que a minha escrivaninha seja deixada somente para meu uso.

B. Você vai abdicar de qualquer relação pessoal comigo, podendo somente por motivos sociais completamente necessários. Especificamente, você vai renunciar a:

1. sentar-se comigo em casa;

2. sair ou viajar comigo.

C. Você vai obedecer aos seguintes pontos nas suas relações comigo:

1. não vai esperar nenhuma intimidade comigo, nem vai me repreender de nenhuma forma;

2. você vai parar de falar comigo se eu pedir;

3. você vai sair do meu quarto ou escritório imediatamente sem protestar se eu pedir.

D. Você vai se comprometer em não me diminuir na frente das crianças, seja através de palavras ou de comportamento.

Em alguns websites que noticiam esta lista, a reportagem dá uma bela aliviada para o lado de Albert Einstein, dizendo que ele estava tentando manter o casamento por causa dos filhos, mesmo que o casal já não estivesse bem, ou justificando que ele era conhecido por não saber lidar muito bem com pessoas, que os gênios são assim mesmo. Será? Ou será que é pressuposto do homem branco, hetero e daquela época ter tudo o que precisa, como um direito garantido? Em uma das cartas que Einstein escreveu para Elsa, ele descreve Mileva como “uma criatura hostil e sem humor” e como sendo “uma funcionária que não posso demitir”. Será que ela receberia direitos trabalhistas caso fosse demitida? Aposto que não.

Fico imaginando como ele se sentiria se todas as oportunidades também lhe fossem tiradas. Será que ele andaria pela vida bem humorado? Será que se sentiria feliz, sem hostilidade? Era óbvio que Mileva estava hostil e sem humor. Ela tinha perdido uma criança, não tinha diploma, não tinha emprego e o marido tinha acabado de arrumar uma amante. Era mais uma mulher brilhante enclausurada na rotina doméstica, sem poder exercer todas as suas capacidades intelectuais. Deve ter sido sufocante, aterrador, principalmente depois de saber que o marido a traía. Como viver ao lado que alguém cuja vida você gostaria de ter vivido? E mais, que você ajudou a construir e de quem não obteve o mínimo de consideração? 

Depois de ler as absurdas condições, ela pega os dois filhos e se muda para Zurique. Em 1919, aceita o divórcio, mas exige que seja incluída uma cláusula dizendo que se algum dia o ex-marido recebesse o prêmio Nobel, o dinheiro deveria ir para ela. 

Isso acabou acontecendo em 1921, e com o dinheiro ela conseguiu comprar dois pequenos apartamentos. No entanto, esses bens não ficaram com ela por muito tempo. O filho Eduard era muito doente e precisava ficar internado em hospitais psiquiátricos com frequência. Mais tarde, descobriu-se que ele tinha esquizofrenia. Parece que Albert Einstein também não era um bom pagador de pensão, e Mileva teve muita dificuldade em manter-se financeiramente, tendo que se desfazer dos imóveis mais tarde.

Mileva é somente uma entre tantas outras mulheres que sofriam na mão do patriarcado. Primeiro, você nega à mulher o direito de estudar, o que poderia resultar em uma forma de autossustento. Depois, você nega à mulher o direito de receber dinheiro por cuidar de tudo aquilo que você usufruiu durante uma vida inteira sem preocupações além daquelas que te tornaram famoso e capaz de se sustentar. Não havia escapatória para as mulheres nessa época, nem para uma mulher brilhante como Mileva. Dizer que as mulheres se anulavam de bom grado é balela, para dizer o mínimo. Talvez elas não conhecessem outra forma de viver, mas uma mente sagaz como a dela sabia que tudo o que estava acontecendo era injusto.

Como se não bastasse, havia ainda a pressão psicológica. Em 1925, Einstein escreveu em seu testamento que o dinheiro do prêmio Nobel era de seus filhos. Mileva contestou veementemente, dizendo que era dela e considerou falar sobre as contribuições que ela havia feito na formulação das teorias do ex-marido. A reação dele foi essa:

“Você me fez rir quando começou a me ameaçar com suas lembranças. Você considerou, mesmo que por um segundo, que ninguém prestaria atenção às suas palavras se o homem de quem você falou não tivesse realizado algo importante? Quando alguém é completamente insignificante, não há mais nada a dizer a essa pessoa a não ser permanecer discreto e silencioso. Isso é o que eu aconselho você a fazer”.

Muitas dessas informações só ficaram conhecidas em 1987, já que os documentos estavam guardados em um cofre de banco em Berkeley, nos EUA. Uma década depois, elas foram leiloadas e puderem, afinal, trazer um panorama mais fiel da vida do casal. Foi a partir da descoberta dessas cartas que mais e mais estudiosos da biografia de Einstein acreditam que Mileva Marić tenha contribuído para o trabalho do então marido de forma muito maior do que se podia imaginar. Muitos cogitam que ele jamais teria chegado onde chegou sem que ela estivesse ao lado dele. 

É possível falar mal de Albert Einstein, aquele velhinho que ficou imortalizado na imagem de cabelos desgrenhados, colocando a língua pra fora de modo tão simpático? É, mas não é fácil. Confesso que fiquei muito irritada ao saber de todos esses detalhes da vida dos dois, mas eu não acredito que a ignorância seja uma bênção. Este é, aliás, outro daqueles ditados que parecem legais, mas que não são. Eu entendo que ele faz algumas pessoas acreditarem que a ignorância é algo bom, quando na verdade é uma forma de manipulação. Quem detém conhecimento também detém poder. 

E antes que alguém diga que tudo o que eu contei aqui corrobora o ditado que eu coloquei lá no início deste texto, eu quero dizer que não. Mileva Marić jamais deveria ter ficado por trás de Albert Einstein. Era ela quem deveria ter sido a cientista famosa, a professora acadêmica, a agraciada do prêmio Nobel e a celebrada física.


Fontes:


Caroline Rodrigues é tradutora Juramentada (Inglês-Português), revisora e escritora. E-mail: carolinerodrigues.com.br.

;
ASSINE O PLANO ANUAL E GANHE UM EXEMPLAR DA PARÊNTESE TRI 1
ASSINE O PLANO ANUAL E GANHE UM EXEMPLAR DA PARÊNTESE TRI 1
ASSINE E GANHE UMA EDIÇÃO HISTÓRICA DA REVISTA PARÊNTESE.
ASSINE E GANHE UMA EDIÇÃO HISTÓRICA DA REVISTA PARÊNTESE.