Ensaio

Pelo nome do prédio se conhece o dono?

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Pelo nome do prédio se conhece o dono? Foto: Fernando Seffner/Divulgação

Agora que o financiamento saiu, vamos nos mudar para o Beverly Hills Residence. Imagina, eu moro no Edifício Boneca. O Tio Paulo foi morar no The Excellence. Tenho apartamento no Samuana. Muito barulho, a mãe não aguentava mais morar no 2 Garotos. Compramos um apartamento no Maximus. Os Silveira se mudaram para o Prelúdio. Da herança ficamos com o apartamento no Araxane. A tia morou toda vida no Condomínio Sulmar. Eles têm dois apartamentos alugados no Aurora. São aquelas torres Matisse Cézanne ali na lomba. O condomínio aqui no Palácio Versalhes é muito caro. No Nogarô são dois apartamentos por andar. Derrubaram o Dom Felippe para alargar a avenida. Fico me perguntando quem colocou o nome de Valoroso naquele edifício. Ela mora no Edifício Marcelo, é o mesmo nome do filho mais velho. Quando batizaram de Edifício Dimona, certamente não imaginavam o que seria a palavra mona nos dias de hoje, ainda mais naquele bairro. Só fiquei em paz com o nome do prédio onde moro quando descobri o que era Kyalami. Hoje passei na frente de um edifício que tem o nome da minha bisavó, Maria Otília. Nunca que alguém adivinha de onde veio o nome do meu prédio, Bente Momo, nem buscando na web se acham pistas concretas, e no prédio ninguém sabe explicar e nem se interessa em saber. O nome daquele prédio se enxerga da Lua, é de não acreditar, gastaram uma parede inteira e dez andares para escrever King Eduard, cada letra tem dois metros e meio de altura. E se eu disser que puseram o nome do meu prédio por dentro da porta e ninguém vê? Aliás, de onde vem esse costume de dar nome em prédio residencial? Pois se casa não tem nome, porque conjunto de apartamentos tem que ter?

Com a pandemia, tive que interromper a frequência à academia. Para compensar, me pus a caminhar pelas ruas da cidade, de máscara, em horas mortas, ou muito cedo, ou muito tarde. Comecei a reparar em nomes de prédios. Fui cada vez mais longe. De onde moro, nas cercanias do Hospital de Clínicas, até Teresópolis, triângulo da Assis Brasil, Aeroporto, Vila Jardim, Partenon, Hipódromo e muito mais. Passei a fotografar. De prática aeróbica virou devoção científica. Um dos resultados mais palpáveis dessa itinerância toda foi ter diminuído de 75kg para 71kg. Precisei usar cinto para segurar as calças. Já fica a receita para quem necessitar. 

Com espírito de cientista social e historiador, dei de indagar sobre a origem dos nomes dos edifícios, em sua grande maioria muito anteriores à necessidade de registrar a figura jurídica do condomínio. Batizava-se o prédio pela vontade mesma de nomear. Quem tinha feito a escolha? De onde a inspiração? Organizei por listas de motivos: conexões entre nomes e contexto histórico da construção; influências dos nomes de ruas, igrejas, escolas e praças das cercanias na escolha do nome dos prédios; possíveis tributos a familiares; homenagens a artistas; preferências políticas; mero acaso; falta de criatividade na hora da escolha; preguiça mental; desejo de parecer o que não se é; mania de riqueza; esnobismo; nacionalismo; falta de caráter;  lembrança do município natal; regionalismo; delírio; erro de grafia; ironia mal disfarçada; puxa-saquismo com o prefeito ou com o dono da construtora; fé religiosa ou crendice; etc. 

Foto: Fernando Seffner/Divulgação

Com a ampliação da coleta de nomes organizei novas tabelas: nomes de homens; nomes de mulheres; topônimos; bairros do Rio de Janeiro; cidades brasileiras; cidades estrangeiras; anglicismos; galicismos; tribos indígenas; vultos históricos; nomes judaicos; nomes de santos e santas; estações do ano; adjetivos; municípios do Rio Grande do Sul; nomes de aves; nomes de plantas; nomes de bichos; nomes inclassificáveis; nomes indecifráveis pelo apagamento ou roubo de algumas das letras; o mesmo nome escrito com ou sem variações; referências a monarquias; etc.

Foto: Fernando Seffner/Divulgação

Buscar o significado dos nomes ampliou as dúvidas, ao invés de aplacar o espírito. Kyalami significa minha casa em zulu, e também designa um autódromo na África do Sul. Nogaro é um minúsculo povoado francês, mas sem o acento que tem o nome do prédio, que lembra então uma palavra japonesa ou chinesa, Nogarô. Quem foi Dom Felippe? De onde veio Boneca? Sulmar parece um nome qualquer. Mas quando você começa a coletar nomes de prédios, verifica que há razoável quantidade deles que termina com o sufixo mar: Elmar, Lemar, Delmar, Sulmar, Omar, Terramar, Myanmar. Dimona é uma cidade israelense. Mas hoje em dia a coisa está mais para a casa das monas. Bente Momo ou Momo Bente? Terá sido um erro? 

Coloque Momo Bente no Instagram ou no Facebook para saber mais. Difícil acreditar que um prédio tão antigo homenageia um grupo tão atual. Quem sugeriu batizar de Valoroso um prédio, com letras daquele tamanho? Samuana seria algo relativo às habitantes das ilhas Samoa? Araxane designa tribo indígena da região da Laguna dos Patos, aqui se explica bem. Mas é um desalento perceber que os pobres indígenas estejam hoje cercados de prédios e estabelecimentos com nomes como Viareggio, Piccolino, The Chefs, Zapp, Terrunyo, Perro Libre, Barbarella, Farrow. Por fim, a dúvida maior: quem serão os Dois Garotos? Que idade terão hoje? Casaram? Tiveram filhos? Aonde vivem? No próprio prédio? Edifícios deveriam ter por lei uma placa explicando claramente a origem do nome, quem decidiu, porque assim decidiu, que outros nomes foram considerados e deles se desistiu. Se a placa fosse obrigatória, eu não perderia o sono tentando adivinhar como é que um prédio em bairro nobre da cidade tem o nome de Edifício Lúpus. Claro que eu sei que o termo significa lobo. Mas a maioria das vezes que essa palavra aparece é para referir ao Lúpus Eritematoso Sistêmico, confira na web. Os moradores se dão conta disso? E o que dizer da curiosidade que me avassala quando encontro um prédio onde, acima da porta, roubaram todas as letras, ficando apenas um I maiúsculo? E um outro, onde apenas se lê Ed. e o restante das letras caiu ou sumiu, e uma pintura eliminou vestígios? Cadê o nome? 

Foto: Fernando Seffner/Divulgação

Alguém dirá que não há mistérios nisso de nomes de prédios, dali não se tira nada, e a pergunta que dá título a esse texto não tem sentido, o nome do prédio não diz nada sobre ninguém. Alto lá. Quando comento essa busca por nomes de edifícios, dentre muitos relatos interessantes que colho, uma amiga conta que nos últimos vinte anos morou em três prédios: Mont Blanc, Nevada e Monte Branco. Rimos, e eu perco a noite tentando adivinhar, de olho na minha lista, qual será o nome do próximo prédio em que ela irá morar. Faço isso inspirado em Um Jogador – Apontamentos de um Homem Moço, obra de Fiódor Dostoiévski. O personagem título, Alexei Ivánovitch, em dado momento desenvolve uma teoria de que os números tendem a se aproximar e a se encarreirar, o que permite então um método seguro de adivinhar o que a roleta trará na próxima rodada.

Há disso e muito mais no tema dos nomes de prédios. As listas que construí, quando cruzadas umas com as outras (por bairros ricos ou pobres, antigos ou modernos, por ruas, considerando épocas históricas) permitem conclusões pitorescas. Qual o nome do prédio onde você mora? Em que data ele foi inaugurado? Prédio pode ter mapa astral? Há muito o que explorar no assunto.


Fernando Seffner é historiador e professor na Faculdade de Educação UFRGS

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