Ensaio

Porto Alegre nas memórias da sociabilidade em torno de cinemas: primeira sessão

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Porto Alegre nas memórias da sociabilidade em torno de cinemas: primeira sessão Cine Capitólio (Foto: Ricardo Giusti:PMPA)

A publicação de excertos das minhas memórias de vida nesta Porto Alegre, onde moro desde que nasci, em mídias sociais, gerou grande quantidade de comentários. Tais comentários geraram em mim novas recordações, pois que a memória é socialmente construída, e sensível a colaborações. Um conjunto de postagens de maior impacto e resposta foi aquele dedicado à sociabilidade em torno de cinemas e filmes. Organizo aqui a trajetória histórica dessa sociabilidade, que, no meu caso pelo menos, foi fortemente influenciada pelo marcador geracional, em sintonia com os locais do percurso escolar e acadêmico.

Minha estreia no mundo cinematográfico foi nas matinês infantis e juvenis do Cine Rio Branco, na avenida Protásio Alves, quadra do Hospital de Clínicas. Eu morava ali perto, e meu avô era fiscal de portaria do cinema. A gente entrava de graça. Pai e mãe deixavam a gente ir sozinho, porque o meu avô estava no cinema. Ele ficava na portaria, com um pequeno contador na mão, uma espécie de relógio, que ia marcando o número de pessoas que entravam. As matinês infantis, de desenhos animados, filmes de faroeste e outros, eram uma gritaria de crianças. Tínhamos o hábito de bater os pés no chão quando a sessão ia começar, e em alguns momentos tensos dos filmes. O piso era de madeira, e o bater de pés produzia não apenas muito ruído, mas uma nuvem de poeira. A poeira por vezes praticamente se integrava ao enredo, porque eram correrias de cavalos nos filmes de faroeste, que levantavam poeira na tela, e a gente ali igualmente mergulhado na poeira. A mãe de um garoto nosso vizinho, uma vez, ao nos receber de volta do cinema para tomar café, comentou que a gente parecia que tinha participado na corrida dos cavalos, pois havia pó nos cabelos e nas roupas.  

Já na adolescência, ali assisti Romeu e Julieta, e me debulhei em lágrimas. No Cine Rio Branco a sociabilidade era aquela de vizinhos e vizinhas, e colegas de Grupo Escolar (Rio Branco, e depois Felipe de Oliveira). O prédio que foi do Cine Rio Branco é hoje um edifício residencial, de mesmo nome, e tem a saída de carros pela rua lateral, no que antigamente era a saída do cinema. Ocorre que a coisa funcionava em sessões contínuas nos sábados e domingos, então a gente entrava pela avenida, e saía pela rua lateral. 

Ainda criança, quando em visita a parentes que moravam no bairro Floresta, nossos pais ficavam conversando e íamos com os primos e primas assistir filmes. Ou no Cine Astor, fachada preservada com a construção de um hotel no terreno, ou no Cine Theatro Ypiranga, prédio ainda existente na avenida Cristóvão Colombo. Este último, muito tempo depois, frequentei na juventude por ter se transformado em uma danceteria GLS, como se dizia na época, ou seja, com frequência de gays, lésbicas e simpatizantes.

Ainda com registro familiar, uma noite meu pai levou, a mim e meu irmão, para assistirmos “2001, Uma Odisseia no Espaço” no Cinema Baltimore. Minha mãe ficou em casa com a minha irmã (sintomático isso). Foi a primeira vez que entramos naquele cinema. A tela era curva. Eu não entendi quase nada do filme, mas gostei de tudo. Virou um dos cinemas preferidos da minha adolescência, lugar para filmes e flertes. Os flertes se intensificaram quando ali abriu uma segunda sala, o Cine Bristol. Saía do cinema, e ficava pela calçada da Osvaldo Aranha, junto com essa mistura de gente que já chamávamos de GLS, além de outras tribos. O cinema deu lugar a um prédio, onde hoje entro para consultar a médica geriatra. Ainda em companhia de mãe e pai, fomos algumas poucas vezes no Ritz e no Atlas, este último bem próximo da nossa casa. Anos depois trabalhei em uma imobiliária que ocupava o lobby do cinema Atlas, já falido, enquanto a sala da plateia tinha virado uma garagem. A coisa que mais chamava a atenção quando se entrava na imobiliária era a enorme figura do Atlas, na escada que dava acesso ao primeiro andar, feita em pintura sobre a parede. As pessoas ficavam olhando encantadas. Se fosse hoje, elas iam tirar uma foto com o celular, mas na época não havia celular. Todos esses cinemas foram demolidos, substituídos por prédios comerciais ou residenciais.

Com os colegas do curso ginasial (feito no Ginásio Inácio Montanha), e principalmente do curso científico (feito no Julinho), mudaram os cinemas e a sociabilidade. Com os colegas do ginásio, fomos por vezes nos cinemas Castelo e Roma, muito próximos da escola, em tardes em que, por algum motivo, a gente era liberado mais cedo. Por vezes ocorria que as aulas de Educação Física eram nos dois últimos períodos e, feita a chamada na escola, a gente era liberado para ir jogar futebol em um campinho onde hoje há uma estação de ônibus, esquina das avenidas João Pessoa e Princesa Isabel. No caminho, já com a pasta e as roupas na mão, a gente desviava para o cinema. Eram filmes de aventura; não lembro de nada que tivesse deixado registro, lembro mais de algazarras no cinema. Ao fazer trabalhos em grupo na casa de colegas do curso ginasial, muitos dos quais moravam em outros bairros, frequentei cinemas no Partenon, Teresópolis, Nonoai e Glória, dos quais não lembro os nomes. 

Já com os colegas do Julinho o mais imediato eram as sessões no primeiro cinema de centro comercial em Porto Alegre, localizado no interior do que hoje é o Shopping João Pessoa, e que se chamava Cine Center. No ano em que cursei o turno da noite no Julinho, havia uma prática de simplesmente arrebanhar todos os colegas da sala para “matar a aula” coletivamente, e ir assistir filmes ali, sob o argumento de que, se todos matassem a aula, ninguém levaria falta, e o professor teria que repetir a matéria. Assistimos ali uma noite um filme chamado “Serpico”, sobre um policial que lutava contra a corrupção, e que alguns de nós diziam que a pronúncia correta era Sérpico, e outros diziam que era Serpíco – foram feitas apostas, e na hora do filme a dúvida se esclareceu, uns pagaram pipoca para os outros depois do filme, agora não lembro mais a pronúncia correta. Ali também, uma noite, com os companheiros do grupo escoteiro, assistimos ao filme “O Exorcista”, filas enormes para entrar. Quando a sessão terminou a gente estava eletrizado, queria discutir o filme, alguns com medo de irem para casa, todo tipo de história. Ainda com os colegas do Julinho íamos ao Cinema Avenida. Mas o mais atraente era quando a gente caminhava até ao centro da cidade, depois das aulas, para assistir filmes em cinemas como São João, Cacique, Imperial, Vitória, Rex e outros. Após a sessão, cada um pegava o ônibus para sua casa.

Enquanto cursava o ginasial e o científico, além da sociabilidade com os colegas de escolas, eu passei a experimentar a sociabilidade com colegas de trabalho, pois comecei com empregos de meio turno alguns dias da semana, até chegar ao turno integral no final do científico. O trabalho como office-boy, circulando pelo centro, implicava passar na frente dos chamados cines pornôs, com anúncios de filmes de pornochanchada. Foi nas conversas com outros garotos que também eram office-boys, nos encontros em banco, filas de cartório, no prédio dos correios, na papelaria Globo, zanzando pela rua da Praia e pela praça da Alfândega, que eu fui me dando conta que eles frequentavam tais cinemas, embora fossem menores como eu. Eles me convidaram para ir junto um dia. Havia três problemas a resolver. O primeiro era achar um horário no meio da tarde, o que se resolvia correndo com o serviço, e depois passando meia hora no cinema, não mais que isso. A coisa funcionava em regime de sessões contínuas: a gente podia entrar a qualquer momento, e o enredo do filme pouco interessava. O segundo problema era arrumar o dinheiro, o que eles resolviam negociando em papelarias e em outros lugares, ao pegar uma nota fiscal (as notas eram feitas à mão), e com alguma mudança de preço, ou com alteração no valor da nota colocando outro número por cima. O terceiro era entrar sendo menor de idade, o que eles consideravam fácil pois conheciam os porteiros. Assim entrei pela primeira vez no Cine Premier, prédio que hoje é a Cinemateca Capitólio. Mais adiante na vida entrei nos cinemas Lido e Carlos Gomes, também no centro, e em plena decadência, e talvez em algum outro pelo centro, do qual esqueço o nome. 

A coisa só foi melhorar em termos de qualidade dos filmes e das salas de cinema, bem como das conversas posteriores sobre os enredos, quando ingressei no curso de Geologia da UFRGS, em 1976, e fiz nova rede de amizades. 

(Esta cronologia segue no próximo artigo destas sessões de memória cinematográfica em Porto Alegre.)


Fernando Seffner – Professor da Faculdade de Educação UFRGS

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