Ensaio

Porto Alegre nas memórias da sociabilidade em torno de cinemas: segunda sessão

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Porto Alegre nas memórias da sociabilidade em torno de cinemas: segunda sessão

Foi com o ingresso no curso de Geologia da UFRGS que os meus gostos cinematográficos, e a sociabilidade aí envolvida, tomaram rumos mais interessantes. Até este momento, como já narrado em memória anterior, a coisa havia transitado por desenhos animados e filmes de criança. Depois atravessei ginásio e científico a assistir o que hoje se chamariam de blockbusters, filmes policiais, de terror, faroeste, dramas e melodramas baratos, todos em língua estrangeira, mais propriamente em inglês. E, para valorizar o produto nacional, assistia algo de pornochanchada. Tudo isso me fez ingressar no ensino superior com uma única opinião, supostamente consistente, acerca do mundo cinematográfico: cinema brasileiro é tudo putaria.

Com colegas da Geologia, e colegas do curso de Letras, onde logo ingressei, e de outros grupos com os quais passei a conviver, mudaram redes, cinemas e filmes. O Baltimore (com sala tela curva) e sua sala menor, o Bristol (onde passavam filmes que a gente chamava de cinema underground), entraram na rota. Tanto para filmes durante a tarde, quanto à noite. O programa completo incluía filme, caminhar pela calçada entre Ocidente e Lancheria do Parque, comer algo, discutir o filme, voltar a caminhar. Em raras oportunidades, assisti um filme no turno da tarde, fiquei por ali com amigos e acabamos assistindo mais um filme no turno da noite. Depois vir tranquilamente até em casa. Tudo era perto, se fazia a pé. Com o tempo, aprendi a flertar com frequentadores e passantes, e a coisa ficou mais interessante, especialmente no contorno do parque da Redenção. Não se ia mais ao cinema apenas para ver o filme. 

Aos finais de semana, comecei a frequentar a sessão da meia noite do Cinema ABC, na av. Venâncio Aires. O cinema tinha um tapete vermelho fofo no corredor central, sala comprida e estreita. Aprendi que era lugar de filmes alternativos, a expressão “cinema cult” veio depois. Ali vi películas que mudaram a minha cabeça. Penso que foi ali que vi Blade runner, o caçador de androides. Havia algo de mágico ao ingressar no cinema um pouco antes da meia-noite, e a sessão iniciar pontualmente nas doze badaladas. Havia algo mágico também quando alguém convidava com a frase “vamos na sessão da meia-noite?” Mas lembro que ao sair do cinema, por duas horas da madrugada, não havia uma vida noturna tão intensa na Cidade Baixa, para a gente ir debater o filme ou algo assim. A gente caminhava para casa, com relativa sensação de segurança. Também entrou na rota o Cinema Um Sala Vogue, na Independência, que eu achava mais chique, com gente bonita, bem arrumada e perfumada, e com filmes que se dizia serem “filmes de arte”.



A partir de 1988 ingressei como voluntário no GAPA RS – Grupo de Apoio à Prevenção da AIDS no Rio Grande do Sul. A sede ficava no coração da Cidade Baixa. Além de intensa sociabilidade, o GAPA RS foi local de pesquisa para minha dissertação de mestrado, e lá ocupei cargos de diretoria, coordenei grupos de mútua ajuda e participei de muitas ações. O Centro Comercial Nova Olaria, inaugurado no início da década de 1990, logo virou o novo ponto de sociabilidade. E o Cine Guión, que abriu em seguida, virou o mais frequentado por mim por algum tempo. Em uma das salas, as poltronas de espaldar alto eram a atração. Ali vi uma leva de filmes que foram acompanhados de debates e conversas acaloradas depois. Ali aprendi que havia festivais de cinema temático, ou por países. Ali participei de edições do Festival Mix Brasil de Cinema, dedicado a películas com foco em temas de gênero e sexualidade. Já se vivia a época em que era permitido comer nos cinemas. Mas no Guión a gente comprava um pacotinho de Bib’s Neugebauer, e o atendente retirava o conteúdo da embalagem, e o colocava em um saquinho plástico que não fazia barulho ao manusear, de modo que se pudesse comer sem fazer ruído, sem perturbar a atenção dos demais frequentadores. Ao redor do lago e da fonte na saída do cinema muito filme foi discutido, muitos namoros e olhares aconteceram. Decididamente, não se ia mais ao cinema só para ver o filme.

De modo esporádico, frequentei o Cine Coral, escadaria imponente, com uma decoração interior muito bonita, na frente do atual Parcão dos Moinhos de Vento. E foi ali que assisti, de surpresa, antes de começar um filme que não lembro mais qual foi, o curta metragem Ilha das Flores, que provocou, esse sim, grandes debates quando saímos da sala. Também de modo esporádico frequentei o Cinema São João, na avenida Salgado Filho. Era uma sala moderna, de linha retas. Ali vivi dois momentos cinematográficos para não esquecer. Sozinho, numa tarde, assisti Saló ou os 120 dias de Sodoma, de Pasolini. Plateia basicamente masculina, muitos homens saíram do cinema antes do final, um tanto horrorizados. Fiquei impactado com o filme, não tenho ideia de por que fui assistir, se alguém recomendou ou se fui atraído pelos cartazes e título. 

Em outro momento, acompanhado de colegas da Engenharia (eu cursava algumas disciplinas do curso de Engenharia de Minas, esperando me formar simultaneamente em Geologia e Engenharia de Minas), fomos em um sábado a um churrasco, com muita cerveja, ali pela Casa do Estudante ou no CEUE. Após, pelo meio da tarde, entramos no Cinema São João, para ver um filme de Mel Brooks que estava em reprise, Banzé no Oeste. Com a barriga cheia de carne, muito álcool na cabeça, e em grupo assistindo uma comédia, o nível de piadas, besteiras, comentários jocosos, somados às ironias que rolavam na tela, me levaram a um ataque de riso que não terminava mais. Uma risada se somou à outra, eu estava rindo de uma piada e outras quatro ou cinco já haviam sido ditas. Comecei a ter falta de ar, uma dor aguda no estômago, suor abundante, fui me curvando na poltrona, e caí no chão. Os colegas me levaram para o banheiro, onde vomitei muito. Quando consegui explicar que tinha sido um ataque de riso sem fim, a coisa provocou mais gargalhadas, e nova onda de bobagens. Toda essa movimentação atrapalhou e incomodou a plateia, que protestou em altos brados. Fomos embora, e eu nunca assisti o final do filme.

Por muitos anos frequentei de modo regular o centro de Porto Alegre. Ia-se ao centro para pagar contas, fazer compras, burocracias em cartórios, coisas na prefeitura, tratar de vários assuntos, ou simplesmente porque se ia ao centro da cidade. Minha mãe dizia “As lojas do centro são melhores”, uma definição que valia inclusive para lojas que tinham filiais nos bairros, com mercadorias idênticas àquelas da matriz no centro. E se ia ao centro para ir ao cinema e comer. Neste roteiro, cinco cinemas ficaram na minha lembrança. Aquele que penso foi o último cinema de rua na área central, o Cine Vitória, eu lembro de ter frequentado várias vezes. Inclusive porque sempre tive muita simpatia pela travessa Acelino de Carvalho, que fica atrás do cinema, com suas lojinhas, e que durante um tempo virou a nossa rua 24 horas. 

Nos anos em que trabalhei na Secretaria de Cultura do Município de Porto Alegre realizamos ali no Cine Vitória algumas sessões de cinema popular. E fui muito frequentador dos cinemas lado a lado, Imperial e Guarany, e Cacique e Scala. Por vezes, a gente ia ao centro, e decidia ir ao cinema, e caminhava até aquelas duas quadras da Rua da Praia, sabendo que, entre quatro cinemas, a gente ia gostar de algum filme que estaria passando bem naquele horário. Já quando professor de História na rede pública estadual, levei turmas de alunos ao Imperial, para ver A sociedade dos poetas mortos. No caso do Cacique e Scala, a depender dos filmes que estivessem passando, em uma sala se escutavam rumores do que rolava na outra.

Esta cronologia segue no próximo artigo destas sessões de memória cinematográfica em Porto Alegre.

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