Ensaio

Quem projeta o projeto da reconstrução?

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Quem projeta o projeto da reconstrução? Montagem do Centro Humanitário de Acolhimento (CHA), no Centro Humanístico Vida, em Porto Alegre. Foto: Joel Vargas / GVG

A reconstrução do Rio Grande do Sul já começou. E não poderia ser diferente. Com pessoas sem o básico para viver e infraestruturas cruciais destruídas, reconstruir rápido é preciso. Mas pensar o projeto da reconstrução também é preciso. A velocidade para realizar  o que é urgente não pode impedir a crítica e a reflexão sobre o projeto do que precisa ser resiliente. Se projetarmos a reconstrução com a mesma lógica que usamos para projetar tudo que está alagado, em breve tudo estará alagado de novo.

Projetar passa por escolher caminhos e a escolha dos caminhos depende de algo prévio e mais sutil do que métodos, técnicas e ferramentas: nossa visão de mundo. Ver o mundo como um conjunto de recursos a ser dominado e explorado gera projetos de dominação e exploração. Ver o mundo como um espaço onde vidas humanas e não humanas se relacionam de forma complexa gera projetos de autonomia, respeito e participação. Ou seja, envolvidos na reconstrução, precisamos reconhecer e revisar nossos modelos mentais e nos perguntar: quais deles levam a futuros destrutivos e quais levam a futuros regenerativos? 

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Cidadãos têm se mobilizado voluntariamente ou estão sendo chamados para se engajarem em ações de reconstrução. Como fazer para que se mobilizem ou sejam chamados também para ajudar a pensar, criticar e co-criar os projetos e não apenas sua execução? A participação poderia começar, por exemplo, através de diálogos estratégicos entre os envolvidos mediados pela construção de cenários futuros. Esse processo, chamado no design de metaprojetual, pode ser o espaço onde se reconhecem e se conectam outras visões de mundo e onde se estabelece desde o início uma convivência mais plural e democrática de interesses. Dessa forma, a participação das pessoas afetadas pelo projeto não se restringe a pesquisas, votações ou, pior, apenas ao uso do resultado do projeto. Eles devem ser os protagonistas, os próprios projetistas.

Um espaço de participação metaprojetual poderia ser o Comitê Científico de Adaptação e Resiliência Climática, que traz instituições reconhecidas, pesquisadores de renome, mas pouca participação de mulheres e quase nenhuma de pessoas não brancas; no abrangente Conselho do Plano RS, dentre os 179 indivíduos ou representantes de instituições, há uma baixa presença de movimentos e lideranças sociais de base em relação a instituições oficiais ou grandes empresários. Ou seja: quem tem pouca voz e poder no dia-a-dia segue tendo pouca voz e poder no projeto da reconstrução – embora talvez sejam chamados a colocar a mão na massa depois que as decisões forem tomadas.

Para reconstruir, precisamos assumir questões fundamentais que nos tornam humanos: uma delas é nossa diversidade. Diversidade de raça, gênero, idade, formação, classe social, entre tantas outras características que nos definem e impactam em como podemos construir nosso futuro. Além disso, pensar soluções passa sempre por ouvir. E quem mais tem a dizer hoje são os membros mais vulneráveis das comunidades atingidas. Eles deveriam ser o centro desta reconstrução – não apenas o foco da intenção mas da participação ativa. Existem formas de fazer isso, especialmente quando pensamos na perspectiva da Inovação Social. Exemplos internacionais como o da Colômbia, ou redes de design como a DESIS (Design for Social Innovation and Sustainability), presente também no Brasil, apresentam caminhos que envolvem escuta, rodas de conversa e apoio no processo de projetação.

Muito tem se falado em inovar no processo de reconstrução. Mas se as pessoas convocadas a participar são as mesmas, o repertório será o mesmo e as soluções serão as mesmas de sempre. Vamos de novo deixar as soluções nas mãos de pequenos grupos de consultores, especialistas ou atores econômicos tradicionais fechados em salas em andares altos de prédios distantes das ruas que estavam alagadas? Vamos mais uma vez deixar de fora tradições indígenas e ribeirinhas de convivência com a natureza? Novamente excluir as lideranças comunitárias que vivem o dia a dia das comunidades afetadas? Aí o projeto se torna uma fórmula. Não há por que questionar, imaginar e especular. O projeto se torna espaço sufocante onde morrem as verdadeiras inovações. Muito mais do que prédios mais fortes, tecnologias mais avançadas ou aplicativos mais rápidos, precisamos de formas regenerativas e democráticas de projetar.


Gustavo “Mini” Bittencourt é pesquisador em design estratégico, professor e publicitário.
Gustavo Borba é pesquisador, escritor e professor na Unisinos.

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