Ensaio

Receita de como encenar Nelson Rodrigues

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Receita de como encenar Nelson Rodrigues Foto: Arquivo Público do Estado de São Paulo

Vou começar confessando que nunca refleti muito sobre tudo o que envolve a encenação dos textos de Nelson Rodrigues. Ou pelo menos nunca de forma sistemática. Tenho uma longa trajetória de estudo de sua obra desde minha tese de doutorado, já lá se vão mais de trinta anos. Mas durante esse tempo todo meu foco sempre foi exclusivamente a dramaturgia.

Agora, é claro, tenho cá as minhas ideias de como traduzir Nelson   para o palco. Afinal, paralelamente à pesquisa acadêmica, encenei um total de dez espetáculos, entre montagens de peças e teatralizações de contos, romances, folhetins e crônicas[1]. Com frequência alunos, atores e pessoas interessadas têm me questionado sobre o que solicita da cena o texto rodriguiano. Obviamente não tenho nenhum “guia prático de como montar Nelson Rodrigues” no bolso. Mas vou tentar aqui encontrar algumas respostas. Para começo de conversa, temos a questão dos ingredientes melodramáticos. Nelson  tomou emprestado do melodrama um vasto repertório de procedimentos narrativos: a ação dramática acelerada, revelações inesperadas, pistas falsas, reviravoltas surpreendentes, desfechos catastróficos etc. Suas tramas sempre  lidam com situações extremas, fatos exorbitantes. Os agentes desses excessos, portanto, não podem ser criaturas comuns. São seres extraordinários, movidos por forças obscuras e incontroláveis, incapazes de comedimento  ou  concessão. Podemos empilhar adjetivos como radicais, exacerbados, paroxísticos etc. quando nos referimos a esses heróis e heroínas sempre à beira de um ataque de nervos.

Ora, essa qualidade de “exagero”, que caracteriza a matéria prima do melodrama, nos leva forçosamente ao problema do desempenho interpretativo.  Como ajudar os atores a corporificar tamanha desmedida sem cair no ridículo? O próprio Nelson nos aponta caminhos. Em sua didascália encontramos preciosas sugestões de atitudes, gestos e expressões vocais para os personagens. Sabemos que as rubricas não fazem parte do texto pronunciado no palco.  Mas o (raro) leitor de peças teatrais, que não é da profissão, que lê teatro por prazer, acredito que as perceba um pouco como um discurso narrativo, a voz do autor descrevendo, comentando, contando a história. Não é de admirar, dada a trajetória de Nelson, que começa como repórter policial e torna-se contista, romancista e cronista. Sua prosa de ficção exibe dotes de exímio narrador. No conto “Selvageria” de A Vida como ela é…  a reação da protagonista ao receber a notícia do atropelamento do amante é apresentada da seguinte maneira: “Ela empalidece, trinca os dentes, dá dois passos com uma mão estendida, grita: ‘Não! Não!’ e cai de joelhos”. Mais adiante, “no auge do desespero, ela corre pela sala, esbarra nos móveis, tropeça nas cadeiras”. Logo a seguir, “Atira-se contra as paredes, bate com a cabeça” etc. Temos aqui uma cena pronta para ser marcada pelo diretor e desempenhada pela atriz.

  Como vemos, para os profissionais do palco, as rubricas, além de ilustrativas e inspiradoras, têm uma utilidade eminentemente prática. É como se o dramaturgo se fizesse também diretor e prescrevesse como a obra deve ser encenada. É notório que Nelson tinha uma desconfiança muito grande em relação aos diretores de teatro, um receio que a “liberdade criativa” destes viesse a deturpar as suas peças, traduzindo-as de maneira errada ou inadequada. Por isso as indicações extremamente detalhadas. Voltando à questão do desenho melodramático, vemos a todo momento criaturas desequilibradas brandindo punhos cerrados, apontando-se dedos acusadores, estendendo mãos suplicantes, caindo de joelhos aos pés do outro, abraçando-se às suas pernas e   emitindo gritos, brados, gemidos, soluços, vociferações, imprecações e assim por diante.

A vocalidade e o gestual melodramáticos, com efeito, são componentes essenciais da estética rodriguiana. Não devemos ter medo de carregar nas tintas. Nem de cair no ridículo, pois o ridículo também é um ingrediente da receita. Existe em Nelson um olhar irônico, que trabalha a um só tempo com o patético e a derrisão. No Boca de Ouro, quando Dona Guigui é informada da morte do seu amado bicheiro, põe-se a correr desesperada ao redor da mesa da sala de jantar, aos gritos, seguida diligentemente pelo repórter “Caveirinha”. Segundo a rubrica de Nelson, “Tem essa dor dos subúrbios – dor quase cômica pelo exagero.”

[Continua...]

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