Ensaio

Revisão de português

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Revisão de português

O Diretor de Redação me deu o jornal de um dia de setembro, todo anotado por ele, chamando minha especial atenção para uma legenda a respeito da moça que tinha pousado nua e imitando a cara de paisagem do redator questionado sobre como a moça tinha conseguido decolar pelada. São mais de cem erros de Português! Perguntei, então, se ele achava mesmo que mais uma revisão de português de quarenta horas ia resolver o que vinte anos de escolaridade e mais outros tantos de prática e de convívio numa redação de jornal não tinham dado conta.

Não vai? Não, não vai porque a revisão de português é orientada pela convicção de que nós não escrevemos direito porque não falamos direito. A revisão de português, por acaso, ensina a falar? Não, a revisão de português ensina as regras da língua escrita, as mesmíssimas que a escola ensinou, só que com a promessa de uma pedagogia milagrosa. Aí, eles escutam de novo tudo aquilo, fazem exercícios muito parecidos com os das revisões de português que já tinham feito, acertam os exercícios e se convencem de quê? Que, já que acertaram os exercícios, eles já sabem falar direito, portanto, podem continuar escrevendo como falam.

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Este ensaio faz parte de uma série. O primeiro texto você acessa aqui.

O Diretor de Redação me deu o jornal de um dia de setembro, todo anotado por ele, chamando minha especial atenção para uma legenda a respeito da moça que tinha pousado nua e imitando a cara de paisagem do redator questionado sobre como a moça tinha conseguido decolar pelada. São mais de cem erros de Português! Perguntei, então, se ele achava mesmo que mais uma revisão de português de quarenta horas ia resolver o que vinte anos de escolaridade e mais outros tantos de prática e de convívio numa redação de jornal não tinham dado conta.

Não vai? Não, não vai porque a revisão de português é orientada pela convicção de que nós não escrevemos direito porque não falamos direito. A revisão de português, por acaso, ensina a falar? Não, a revisão de português ensina as regras da língua escrita, as mesmíssimas que a escola ensinou, só que com a promessa de uma pedagogia milagrosa. Aí, eles escutam de novo tudo aquilo, fazem exercícios muito parecidos com os das revisões de português que já tinham feito, acertam os exercícios e se convencem de quê? Que, já que acertaram os exercícios, eles já sabem falar direito, portanto, podem continuar escrevendo como falam.

E como é que eles falam? Como é que eu falo, como é que nós, letrados de classe média, falamos? Falamos assim, ó: as aulas começaram, com o verbo no plural seguindo o sujeito e concordando com ele no plural e, concluindo a frase, nós dizemos: e terminou as férias, com o verbo no singular antecedendo o sujeito no plural. Nós não falamos a língua em que temos sido obrigados a escrever. E eu não disse pra ele que, portanto, a revisão de português é mentirosa, enganadora, nociva. Eu disse outra coisa:

— Eu proponho, Diretor de Redação, um curso ao contrário: um curso pra convencer eles de que eles – tal como todo mundo que lida com uma língua escrita – lidam com uma língua que ninguém mais fala. Um curso para alertá-los e para alertar eles de que eles não falam a língua que eles acham que falam e para mostrar quais são as discrepâncias entre essa língua a língua em que se vem escrevendo. 

O que eu não também disse foi que, apropriados desse conhecimento, eles poderiam fazer suas escolhas entre essas duas línguas; talvez por isso, o Diretor de redação tenha topado.

Na primeira aula da primeira turma, logo depois que a Gerente de Recursos Humanos me apresentou, antes mesmo que eu abrisse a boca, um deles levantou a mão:     — Então, me diz por que eu não posso escrever a sessão iniciou às duas horas”? 

Disso, eu não fazia a menor ideia:

Quem disse isso? 

O Diretor de redação

Tá, mas de que outro jeito vocês devem escrever isso

Devemos escrever “a sessão iniciou-se às duas horas”

Me botei a rir: é assim que se chega a mais de cem erros.

Já nos conhecíamos, eu e muitos deles; durante um bom tempo dei aula no curso de Jornalismo, e outro ex-aluno abriu o Manual de Redação e estilo do Estado de São Paulo e leu a prescrição sobre o verbo iniciar: Nunca use as formas torneio inicia hoje, copa inicia hoje, censo inicia hoje. Alguma coisa inicia-se (ou começa ou principia): Convenção do PMDB inicia-se hoje. Iniciar exige sempre um agente: Governo inicia cobrança do Imposto de Renda.

Isso não vai dar certo, disse eu. Por quê? Porque nós, aqui, usamos o se. Em São Paulo, eles dizem Tô procurando um armário vazio no guarda-bagagem, mas não encontra. Esse não encontra equivale ao nosso não se encontra. Faz sentido tentar ensinar a usar o se pra quem não usa; vocês, que usam, não vão querer usar um se que vocês não usam. E o que esse se está fazendo aí? O se representa o tal agente que iniciar exigiria em frases em que o sujeito não é agente como O torneio (a coisa iniciada) inicia-se hoje. O se representaria a pessoa ou instituição não nomeada – por sua obviedade ou irrelevância –, que dá início ao torneio, algo como isto: Alguém que não vem ao caso mencionar iniciou hoje o torneio. O que vai acontecer aqui é que ou o guardião do se vai se cansar disso, ou vocês vão parar de usar o verbo iniciar.

Mesmo tendo sido assim tão assertivo, em casa eu abri Dicionário Gramatical de Verbos, de Francisco Borba, que resulta de uma pesquisa num acervo coletado da prosa do português escrito no Brasil nos últimos trinta anos. Está lá, na segunda acepção de iniciar: indica processo, na forma pronominal ou não, com sujeito paciente. Significa ter início, começar, principiar: Uma nova diáspora se iniciava; Iniciaram-se, então, as conferências entre os amigos; Às vinte horas iniciam-se os aperitivos; O orgulho termina onde inicia a humildade.”

Para o Manual do Estado de São Paulo, alguém iniciava a diáspora, alguém iniciou as conferências e alguém iniciou os aperitivos. Isso se chama voz passiva sintética, o que seria equivalente a (1) a diáspora foi iniciada por alguém que não vale a pena referir, (2) as conferências foram iniciadas pelo mesmo tipo de criatura; e (3) os aperitivos foram iniciados por alguém idem. Vamos ter, no entanto, muita dificuldade pra imaginar que alguém inicia a humildade, isto é, iniciar não exige sempre um agente na prosa do português escrito no Brasil nos últimos trinta anos

Por que, então, o Manual do Estado de São Paulo diz que exige? Porque esse Manual não resulta de uma pesquisa sobre como se escreveu no Brasil nos últimos trinta anos. Suas prescrições foram copiadas de uma gramática que copiou de outra gramática que copiou de outra gramática que copiou de outra gramática que copiou de alguma gramática portuguesa do séc. XIX. Ainda há quem ache que essa gramática multicopiada deve orientar a nossa escrita e até mesmo a nossa fala, mesmo que todo mundo já saiba que nós não falamos nem escrevemos como escreviam os portugueses no séc. XIX. 

— Mas, e as regras? 

Pois vou mostrar uma delas pra vocês. Como é que vocês cantam Roberto Carlos?

Botei no quadro: Meu olhar se perde na poeira dessa estrada triste onde a tristeza e a saudade de você ainda …, e, depois que eles cantaram escrevi existe. E estes outros versos? Vem a chuva, molha o meu rosto e então eu choro tanto; minhas lágrimas e os pingos dessa chuva se … com meu pranto. Botei confundem no quadro depois que eles cantaram. Que diria esse Manual a respeito do existe que todos vocês e quase todo o resto do Brasil cantam?

É, a gente não faz concordância, mesmo

    Como não? Que diria esse Manual a respeito do confundem que todos vocês e todo o resto do Brasil cantam? Diria que, assim como houve unanimidade no erro, houve, neste caso, unanimidade no acerto. Diriam isso porque aprenderam na revisão de português? Não, aprenderam falando com quem fala a língua que vocês falam, que não é língua que os portugueses falavam no séc. XIX nem a que eles falam hoje. A regra que nós obedecemos, no caso, é fazer a concordância do verbo com sujeito composto que tem marcas de plural: minhas lágrimas e os pingos… se confundem. Já em a tristeza e a saudade de você não tem marcas de plural; daí existe. Regras só são regras quando são regras pra todos.

E por que, então, a gente não pode escrever como a gente fala?

A literatura brasileira vem fazendo essa pergunta desde o séc. XIX, quando se deu a – como é que se chama? – independência.

Ainda tivemos algumas outras discussões interessantes como esta. No fim do curso, a chefe do RH me mostrou o resultado da avaliação que ela tinha pedido pros alunos e me comunicou, quase chorando, que, infelizmente, a outra metade da redação não teria aula comigo porque tinha sido decidido que o curso ia ser descontinuado.     Tinha sido decidido: a voz passiva também serve pra esconder quem foi que fez.


Paulo Coimbra Guedes é professor do Instituto de Letras da UFRGS, onde leciona redação há muito tempo, atuando nas licenciaturas de Português no curso de Jornalismo. É autor, entre outros, de Da Redação Escolar Ao Texto – Um Manual De Redação (Editora: UFRGS). Foi homenageado no livro O que eu quero dizer é o seguinte (Editora da UFRGS).

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