Ensaio

Sirvam nossos nomes de prédios de modelo a toda terra

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Sirvam nossos nomes de prédios de modelo a toda terra

O mês de setembro convida a pensar acerca dos muitos modos pelos quais as referências ao Rio Grande do Sul, aos gaúchos, à Revolução Farroupilha, a locais, contextos históricos e marcos geográficos de nosso Estado, comparecem na nomeação de prédios em Porto Alegre. É o que busco fazer aqui, a partir dos dados colhidos nas caminhadas pela cidade. Dos tantos jeitos possíveis de organizar o material do repositório de fotos e referências ao tema, escolhi operar com seis categorias. É possível pensar que se homenageia o Estado do Rio Grande do Sul quando se nomeiam prédios de sua capital diretamente com os termos “gaúcho” ou “gaúcha”; quando se batizam edifícios com os nomes de municípios que compõem o Estado; com a utilização de termos que remetem às tradições gaúchas na composição de nomes de prédios; com designativos de episódios históricos clássicos da região; quando se utilizam vocábulos que remetem ao ambiente cultural gaúcho; e quando estão citados nomes de personagens, reais ou literários, que evocam o passado – sempre glorioso, é claro – de nosso Estado.

Começo com o mais óbvio: homenagear os gaúchos é dar esse nome aos prédios. De fato, tal costume já foi moda, valendo tanto para prédios mais populares quanto para aqueles mais refinados. Mas é bastante evidente que tal designação não encontra mais a preferência dos construtores, sendo mais fácil em prédios recentes encontrar um Condomínio El Cid ou um Residencial Dom Quixote do que um Edifício Gaúcho. Encontrei cinco prédios com o nome Edifício Gaúcho e um com o nome Edifício Gaúcha, como se pode ver no link das fotos do repositório indicado ao final do artigo. Essa disparidade de gênero, que revela um evidente traço patriarcal, está de acordo com as tradições, que privilegiam sempre a figura do gaúcho, o homem mesmo. Para mim foi um espanto encontrar, no chamado Centro Histórico, um prédio residencial com o nome de Edifício Gaúcha. Não achei nenhum prédio com o nome Prenda, que muitas vezes designa a companheira do gaúcho. Encontrei um Condomínio Residencial Laçador no Bairro Humaitá, e um Edifício Laçador na Cidade Baixa.

Atribuir nomes de municípios que compõem o Estado a prédios residenciais, em sua capital, pode ser entendido como forma da cidade homenagear o Rio Grande do Sul e suas tradições. Também aí temos uma moda que já passou. Conforme se pode verificar no repositório indicado no link ao final, encontrei abundantes registros de prédios com nomes como Edifício Bagé, Aceguá, Itaqui, Livramento, Guaíba, Pelotas, Uruguaiana, Quaraí, Camaquã, Alegrete, Rio Pardo, Tapes, Cidreira, Guaporé, Cacequi, Gaurama, Taquari, Xangrilá, Tupanciretã, Montenegro e, inclusive, Porto Alegre (cinco exemplares). Bagé chama a atenção, com dois prédios com esse nome, e mais Jardim de Bagé e Solar de Bagé. E temos também Santo Ângelo, São Gabriel, Cruz Alta, Santa Cruz, Bom Jesus, Vera Cruz, São Borja, Santa Maria, e muitas outras referências ao que tanto podem ser homenagens a santos e santas quanto a municípios do Rio Grande do Sul, conforme já discuti em texto específico sobre a influência católica na nomeação de prédios. 

Entretanto, em muitos casos, suspeito que a homenagem é mesmo para municípios, pela proximidade com prédios com nomes de outros municípios que não remetem à santidade. A maior frequência de nomes de municípios que encontrei em prédios remete às regiões da Campanha e da Fronteira Oeste do Estado. Não encontrei prédio com nome de Caxias do Sul, por exemplo. Em outras palavras, os nomes de prédios mais frequentes remetem efetivamente à figura do gaúcho, no seu sentido clássico de homem que vive no campo, a lidar com gado e cavalos. Dentre os municípios dessas duas regiões citadas, há preferência para aqueles mais antigos e tradicionais, casos típicos de Bagé ou Alegrete. Cada vez mais observo e anoto os nomes dos prédios que vejo, e me indago sobre os nomes que não vejo nos prédios. As ausências dizem tanto quanto as presenças nesse tema da nomeação.

Especulando sobre a presença de nomes de municípios a designar prédios residenciais em Porto Alegre, há uma leva de designações mais recentes, alguns fruto das emancipações, que me arrisco dizer nunca irão batizar prédios em Porto Alegre, como Tio Hugo, Derrubadas, Unistalda, Anta Gorda, Bossoroca, Tapera, Boa Vista do Incra, Travesseiro e por aí afora. Mas do jeito que o Brasil vai caminhando em direção a uma teocracia evangélica, não é de se admirar que venhamos a ter, no futuro, prédios com nomes de municípios como Igrejinha ou Redentora ou Sagrada Família, engordando a listagem com apelo de santidade. E dado o aquecimento global em marcha e as queimadas em progresso, Mormaço seria um nome bem adequado a um prédio em Porto Alegre, e de quebra se homenagearia o município com este nome. E se é para seguir dando nomes de santos e santas em prédios, se poderia inovar tanto na denominação do santo quanto homenageando municípios e a flora local, com nomes como São João da Urtiga ou São Pedro do Butiá. Ou apostando no desenvolvimento econômico do estado com São José do Ouro. Ou introduzindo um elemento de esperança no futuro, como é o caso de Feliz, Gentil ou Alegria, todos municípios do Rio Grande do Sul, e todos valores em falta na sociedade atual, que bem poderiam estar postos na frente de prédios. Embora eu tenha achado um Edifício Harmonia, como se pode conferir no repositório, também nome de município do Rio Grande do Sul. E esses prédios novos com torres de 25 andares de apartamentos bem poderiam se chamar Vista Gaúcha, outro município gaúcho, além de designação que indica o que efetivamente se pode ver pelas janelas dos prédios, ao invés dos anglicismos e francesismos tão em voga. Por mais que o prédio seja alto, em cima de um morro, e por mais que seus moradores se esforcem, não há registro de quem tenha conseguido enxergar o Louvre da sacada da sala de jantar a partir de Porto Alegre.

Misturando duas das categorias que criei, elenco os nomes de prédios que trazem referência genérica ao Rio Grande do Sul: Edifício Riograndense e Edifício Sulino, cada um com dois exemplares, Condomínio Província de São Pedro e Condomínio Continente de São Pedro. Seguindo nos nomes que trazem referência a termos associados à cultura e história gaúchas, temos prédios com nomes como Missões, Missioneiro, Edifício Ximango (não achei Edifício Maragato, por mais que tenha procurado, uma ausência que leva a pensar na memória e no esquecimento), Querência, Solar da Querência, Ponteio, Ponche Verde, Pedras Altas, Rincão, Pioneiro, Piratini, Edifício Migrantes. Podemos perceber que já houve época nessa cidade em que não era vergonhoso que edifícios bastante luxuosos ostentassem nomes como Querência (três exemplares), Pampa (três exemplares), Riograndense (dois exemplares). Nos dias de hoje, penso que seria considerado regionalismo, frente ao avanço das designações massivas em inglês, francês, espanhol e italiano, a revelar certa noção de “estar no mundo” como cidadão global, e certa fuga de designações que remetam ao local onde, ao fim e ao cabo, estão fincados os alicerces dos referidos prédios. 

Considerando que muitas vezes o nome da rua “puxa” designações de vários prédios, há um bairro da cidade onde poderia haver grande número de prédios com nomes de municípios, que é a vila do IAPI. Nela, predominam ruas com nomes de municípios gaúchos, mas ali temos uma característica peculiar de que os prédios têm apenas numeração, por vezes acompanhada de alguma letra, mas não possuem nomes. Embora este loteamento seja contemporâneo de muitos outros em que se batizava cada prédio com um nome próprio. Há um outro conjunto de nomes que evoca acidentes geográficos ou vegetações típicas do Rio Grande do Sul, e aí temos, em primeiro lugar, os rios, como Edifício Jacuí, Edifício Ibicuí e outros, e designações como Edifício Cerro Formoso, Dona Francisca (barragem e nome de município), Alecrim, Cerro Grande, Cerro Catedral, Herval, Erval Grande, Charrua, Vista Alegre, Colinas, Cristal, Ipê, sendo que vários desses são também nomes de municípios, que se batizaram homenageando alguma feição geomorfológica própria do local. 

Maior glória da história do Rio Grande do Sul, nosso decênio histórico de 1835 a 1845, a Revolução Farroupilha está homenageada tanto em seu nome, como em nomes a ela ligados. Temos Edifício Farroupilha (oito exemplares, com alguma concentração no entorno do Parque Farroupilha, e inclusive com esse nome, Condomínio Parque Farroupilha), Piratini (dois exemplares), Bento Gonçalves (pelo menos seis prédios, oscilando entre edifício, condomínio e parque Bento Gonçalves, com alguma concentração ao longo da avenida do mesmo nome), Edifício Anita Garibaldi (dois exemplares), Edifício Garibaldi (três exemplares), Corte Real (dois exemplares). Não achei Edifício Seival ou Edifício Ponte da Azenha. Não encontrei, em nomes de prédios, referências a outros momentos da história do Rio Grande do Sul, embora em Porto Alegre tenhamos muitos prédios que lembram valores açorianos. Mas essa questão será abordada em artigo específico sobre a cidade, e de como ela homenageia elementos de si própria nos edifícios residenciais.

Claro está que muitos prédios carregam nomes de vultos riograndenses, como se costuma tradicionalmente dizer, a designar em geral homens que se destacaram na vida política gaúcha. Entretanto, o que concluí nas minhas andanças é que, excetuando alguns dos grandes vultos da Revolução Farroupilha, como já citei acima, isso se deve na quase absoluta maioria dos casos ao efeito “nome da rua ou da avenida”. Ou seja, na rua Miguel Tostes, vamos encontrar um Edifício Miguel Tostes. Tal ocorrência é comum, quase uma regra, e a questão seria então discutir como o nome daquele vulto foi parar na nomeação daquela rua, tema já analisado em vários trabalhos de história de Porto Alegre, tratando da formação dos bairros, da nomeação de ruas e avenidas, das mudanças de nomes a depender da conjuntura histórico política. 

Me volto então para os nomes da literatura. Solar Ana Terra, Edifício Ana Terra, Condomínio Ana Terra, Edifício Clarissa (achei cinco exemplares), Edifício Antares (nada menos do que cinco exemplares, sem contar os prédios comerciais, onde achei pelo menos mais três), Residencial Capitão Rodrigo (dois exemplares). A conclusão é clara, a obra literária de Érico Veríssimo marcou a cidade com nomes de prédios, uma descoberta que muito me alegrou. Em outro artigo vou analisar a presença de nomes de escritores, pintores, músicos, artistas em geral, homens ou mulheres (mas em geral homens), a nomear prédios. Mas Érico Veríssimo entra aqui, como homenagem que a cidade presta a personagens de sua obra e que se confundem com a história gaúcha via designação de prédios residenciais.

Encontrei um Edifício Pala, que pode ser homenagem à vestimenta gaúcha. Conforme já tratei em artigo anterior, há certo toque gaúcho em prédios como Ed. Barão do Cahy ou Ed. Barão do Triunfo, que em parte remetem a nomes de municípios. Há um edifício Salamandra na Avenida Ipiranga. É um animal, mas também é um tipo de aquecedor que por aqui se usa muito. Embora tenha demonstrado aqui neste artigo a presença de nomes ligados à história do Rio Grande do Sul, frente ao volume total de nomes de prédios que tenho coletado, fico com a impressão de que, para um estado que se reivindica como tão cultuador de suas tradições, a presença nos nomes de prédios é pobre. Ela se concentra em alguns elementos, deixando de fora migrações, movimentos sociais, lideranças populares, acidentes geográficos que constituem um patrimônio natural do estado, e muito mais do que existe no interior de nossas fronteiras. A presença indígena está marcada nos prédios, e será objeto de outro artigo, pelo volume encontrado. Além do mais, é visível que nomear prédios com nomes locais é moda que já passou há bastante tempo. Penso que isso se deve a um duplo efeito. Por um lado, as tradições não se atualizaram, e com isso não forneceram novos nomes para o léxico de prédios. E por outro o atual modismo de prédios com nomes em língua estrangeira um pouco afogou as possibilidades de opção regional. Mas sobraram vestígios em prédios antigos. Por fim, venho coletando também datas como fonte para nomeação de prédios. Dos poucos exemplares até agora registrados, não achei edifício 20 de setembro.

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Fernando Seffner é historiador e professor na Faculdade de Educação UFRGS

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