Ensaio

Um governo sobre nossas cabeças

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Um governo sobre nossas cabeças Imagem do ensaio fotográfico de Tânia Meinerz

Quando cheguei em Porto Alegre, há pouco mais de 12 anos, eu queria ser livre. Eu já tinha lido sobre a Legalidade, o Fórum Social Mundial, o orçamento participativo, as políticas culturais exemplares e as lendárias ONGs pela liberdade sexual surgidas aqui. Para viver bem longe do jugo dos familiares e dos vizinhos da pequena cidade onde nasci, em Santa Catarina, resolvi apostar todas as minhas fichas nessa Porto Alegre democrática, viva, colorida e promissora da primeira década dos anos 2000. A meta era conseguir o primeiro emprego como recém-formada e ser feliz com a namorada que eu tanto amava e com quem eu tinha o desejo de casar e formar família.

Era 2009, dois anos antes do Superior Tribunal Federal (STF) reconhecer que casais de pessoas do mesmo “sexo” (sic) deveriam gozar dos mesmos direitos familiares que os casais heterossexuais. Mas em Porto Alegre já era possível firmar em cartório um documento de união que me conferia o status de dependente dela no plano de saúde e na previdência privada e nos permitiu compor renda para o financiamento imobiliário que iniciamos em seguida. 

Importante dizer que, naquela época, não eram todas as cidades do Brasil que ofereciam a possibilidade de realizar esse trâmite de forma descomplicada, sem judicialização. Tampouco as empresas eram unânimes em equiparar aquele documento firmado em cartório ao status de casamento. Porto Alegre se mostrava avançada nestas questões. Havia jurisprudência e, sobretudo, boa vontade. O caso julgado no STF em 2011, inclusive, fora peticionado por um casal de mulheres daqui.

No âmbito profissional, acho que deu tudo certo também: das dezenas de currículos que enviei, algumas empresas me chamaram para entrevista. Numa delas, chefiada à época por duas mulheres, eu fui contratada. Já nos primeiros dias do novo trabalho, o assunto veio à tona na hora do cafezinho e contei aos novos colegas sobre a minha namorada e os nossos planos. Havia certo receio, claro, de falar desse assunto em meio a pessoas desconhecidas, apesar de não ter nada de errado com um casal fazendo planos para um futuro em comum. Só que maior do que o medo, eu sentia uma acolhida inédita. Porto Alegre parecia realmente ser aquilo que eu tinha imaginado, era mesmo um lugar bom para uma mulher lésbica viver.

Até aqui, o leitor ou a leitora mais atento(a) às questões políticas do presente deve ter sentido o sabor do mais puro suco de privilégio. Talvez tudo tivesse sido bem diferente se eu tivesse outra cor de pele ou se não tivesse acessado o ensino superior, por exemplo. E esse é o ponto crucial: por mais que a minha experiência seja real e representativa de um certo ideal democrátco, ela é insuficiente como testemunho sobre a qualidade da nossa democracia hoje, porque é sabido que a discriminação por gênero no mercado de trabalho é uma realidade apoiada e incentivada pelo patriarcado, que quer as mulheres em casa; da mesma forma, as diversas orientações sexuais dissidentes seguem sendo empecilho para o gozo pleno de direitos de família por casais homoafetivos. Isso sem falar no secular direito de ir e vir sem sofrer violência simplesmente por ser quem se é.

Mudando um pouco a perspectiva, quando comecei a pensar nesse texto, logo me veio à mente uma cena do romance A fúria do corpo de João Gilberto Noll, escritor gaúcho, autor de mais de uma dezena de romances e volumes de contos, que morreu em 2017. A fúria do corpo é de 1981. O narrador anônimo e a personagem Afrodite são andarilhos (“vivo nas ruas de um tempo onde dar o nome é fornecer suspeita”) e só existe o tempo presente, não há passado, nem família, nem contexto político. Eles protagonizam desde conversas profundamente filosóficas até cenas de sexo explícito em becos e cantos escuros da cidade, entre si e com outras pessoas, enquanto a vida acontece normalmente em volta. Numa dessas cenas, em pleno coito, Afrodite diz:

Sabe que nós dois não comemos há dois dias e meio e que assim mesmo há um Governo sobre nossas cabeças?

A lucidez é um soco. 

Nós separamos o lixo em casa, fazemos campanha do agasalho, doamos refeições e nos esforçamos para tratar bem as pessoas à nossa volta, independente de cor, credo, classe ou orientação sexual. Mas não tem saída: há um governo sobre nossas cabeças e milhões de pessoas seguem passando fome, a Amazônia continua queimando e o Brasil ainda lidera o ranking dos países que mais matam pessoas LGBTs no mundo, ficando em 5º no ranking de feminicídios. 

Lembrei de outra cena, dessa vez da vida real. O apresentador Pedro Bial entrevistou recentemente o ex-deputado e ex-BBB Jean Wyllys, que mora fora do país devido às ameaças que sofreu durante e após o pleito de 2018. Bial recorda que, em 2005, quando Jean se assumiu gay ao vivo no programa de maior audiência da TV brasileira, o povo o acolheu e ele virou “o namoradinho do Brasil”. Em seguida, a pergunta: o que mudou de lá pra cá e que fez com que as pessoas que o amaram e o acolheram em 2005 passassem a odiá-lo em 2018? Jean foi cirúrgico: em 2005, o Brasil estava em paz, as pessoas tinham o que comer, a inflação estava controlada, dava para viajar com a família todo ano, os filhos da classe trabalhadora estavam acessando a universidade. Nesse contexto, a questão das diferenças encontrava terreno fértil para debate e aceitação. E eu concordo com ele. Os problemas da nossa sociedade são sistêmicos e, sendo assim, pedem alternativas e estratégias sistêmicas. 

O início dos anos 2000 foi uma época de avanços na construção de políticas públicas de combate às desigualdades, mas não fomos exigentes o suficiente para garantir a segurança jurídica destas conquistas. Nos anos seguintes, perdemos diversas oportunidades de implantar programas de educação para a diversidade e fomos covardes quando os fundamentalistas religiosos atacaram as políticas públicas de enfrentamento ao preconceito sexual e de gênero nas escolas – surgia aí o famigerado “kit gay”, alcunha pejorativa que inundou a opinião pública com fake news e informações distorcidas.

Pessoas e organizações da sociedade civil seguem lutando democraticamente e não vão parar tão cedo. Os movimentos LGBTQIA+, negro e feminista não começaram ontem e têm histórico de resistência. Professores e professoras empreendem uma verdadeira cruzada diária por uma educação mais livre e inclusiva, a despeito da falta de suporte, de materiais adequados e do perigo de perseguição e até de demissão, como aconteceu na cidade catarinense de Criciúma no mês passado. Na época dos ataques ao “kit gay” no congresso, tínhamos um governo de esquerda sobre nossas cabeças, que “arregou” e permitiu que a nossa democracia perdesse qualidade.

Começo a me encaminhar para o final deste texto sem uma conclusão em mente. Fato é que aquela cena do romance de João Gilberto Noll me assombra desde a primeira leitura e talvez haja ali uma chave para pensar a situação da nossa democracia hoje, especialmente se quisermos pensar em democracias locais. Já sabemos que não basta eleger um governador gay para que o Rio Grande do Sul passe a ser um estado livre de homofobia. Tampouco basta elegermos uma presidenta mulher para que o Brasil deixe de ser um país de costumes patriarcais. 

Quando decidi mudar para Porto Alegre, há 12 anos, eu não sentia que precisava mudar de país. Tampouco me interessava o que acontecia nas cidades vizinhas. Porto Alegre parecia um oásis e, como tal, podia ser só uma miragem. Afinal, há um estado, um país e um governo sobre nossas cabeças.


Nanni Rios é livreira da Livraria Baleia, produtora cultural e jornalista.

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