Ensaio

Uns telefonemas sobre Nelson Coelho de Castro

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Uns telefonemas sobre Nelson Coelho de Castro Nelson Coelho de Castro em 2020.(Foto: acervo pessoal)

Compositor gaúcho

Por Guto Leite

Para ser um Chico Buarque não basta nascer com seu talento, ter sua formação e fazer as escolhas que ele fez e que o encaminharam para o ofício de compositor popular. É preciso nascer no centro ou ter sua obra propagada desde o centro. Muitas vezes naturalizamos isso, mas quando dizemos “compositor brasileiro” e não “compositor carioca” – e de mesmo modo, quando dizemos “compositor gaúcho”, e não “compositor brasileiro” –, estamos ensaiando a abrangência de artistas por meio de fatores que pouco tem a ver com a natureza de suas obras e muito tem a ver com o lugar de onde parte a obra desses artistas.

Assim, para quem teve a sorte e o azar de enxergar o mundo desde o Rio Grande do Sul – “cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é”, vocês sabem –, cabe imaginar: como seria se o Brasil tivesse seu começo por aqui? Ou se aqui embarcasse a Corte Portuguesa em 1808, em busca de clima mais temperado? Ou se o único curso de Direito da metade sul do país fosse aqui instalado em 1827? Também poderíamos pensar: e se tivéssemos nos separado do Brasil formando uma nação à parte na América platina? Cada uma a seu modo, e com algumas diferenças que não teríamos tempo de recuperar aqui, todas levam a uma pergunta: quais seriam os nossos compositores nacionais?

Não há dúvida de que um dos compositores nacionais desses outros brasis seria Nelson Coelho de Castro. Primeiro, pela originalidade de sua dicção, em que até se ouvem outras influências mas parece erigida de uma intensa e extensa experiência pessoal organizada esteticamente. Segundo, a variedade de gêneros musicais pela qual passa sua obra e sempre com uma assinatura que nos permite dizer “este é um samba do Nelson”, “esta é uma valsa do Nelson” etc. Terceiro: uma parte importante da experiência social porto-alegrense (que seria a capital desses brasis, em eterna disputa com Pelotas), especialmente dos anos 1960 em diante, está materializada em sua obra com profundidade, complexidade, detalhamento e articulação. Quarto: em que pesem os intervalos (1985-1996 e 2001-2010), sua obra atravessa também um arco específico da história do estado do Rio Grande do Sul, da vanguarda da participação popular e da valoração da cultura em tempos de redemocratização, ao conturbado e tensivo empobrecimento do estado a partir da Lei Kandir (1996). E quinto: uma das singularidades da obra de Nelson é que o acento lírico não se descola do social, estabelecendo um belo diálogo, por correspondências e divergências, com as obras do poeta mineiro Carlos Drummond de Andrade e do cancionista carioca Chico Buarque.


Caymmi de água doce

Por Luciano Mello

Se aportarmos na orla do comparativismo, no entanto, teremos um problema raro. Nelson, para o bem e para o mal, parece ser incomparável. Os comparatistas, a grosso modo, procuram estabelecer filiações, associações, iluminações para as obras entre obras, caminhos, linhas, segmentos, linhagens. De onde vem Nelson Coelho de Castro? Que obras esse artista ilumina com a sua? Quem são seus pais, quem são seus filhos na trajetória da canção? 

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Não encontro Chico Buarque, como citou Guto Leite, em Nelson Coelho de Castro, mas encontro Dorival Caymmi, um Caymmi renovado, um Caymmi de água doce, mas não é só isso, tem outros mistérios, filiações não identificadas, caminhos secretos, silêncios incomuns. Descrever Nelson pode ser poético por si só, pois Nelson, até quando fala, quando apenas conversa, é poético. 

Caetano canta que “A verdadeira Bahia é o Rio Grande do Sul”. E talvez haja em Nelson esse caminho discreto, estampado em alguns pontos fundamentais de sua obra.

Mas vamos ao que interessa!

Interessa que a obra de Nelson Coelho de Castro esteve dispersa, como está disperso o conhecimento mais profundo da sua filiação musical. Cansei de receber telefonemas com “Pode me gravar aquele disco do Nelson?”. Os álbuns saíam nos seus anos de lançamento e desapareciam, os CDs seguiram o mesmo caminho. Em 1995, uma edição em CD do seu primeiro álbum, Juntos (1981), pipocou nas prateleiras das lojas que explodiam em vendas no auge do CD e desapareceu. Depois uma coletânea com seu segundo e terceiro álbuns, sendo um incompleto, mais o primeiro compacto, apareceram em uma bonita embalagem, um único CD. E assim, Nelson vinha e ia, como as ondas do mar de Caymmi.

A última sexta-feira, 16 de abril de 2021 encerra o tormento, melhor dizendo, o ciclo das tormentas: subitamente, todos os álbuns de Nelson Coelho de Castro aparecem de uma só vez nas plataformas digitais, juntos e no mesmo dia. Nelson não é de pouco, nem deve ser para poucos. Quis tudo junto e no mesmo dia, quis também saciar uma curiosidade antiga daqueles que acompanhavam seus shows lotados nos anos 80. 

E o álbum novo? É, aquele que viria depois de Força D´água (1985), cadê? Nelson respondia sempre: “Estamos no corredor da gravadora”. O álbum, que se prometia como um tsunâmi devastador, apontava no horizonte, músicas novas eram cantadas em shows, especiais da TVE, e já era comum que alguém gritasse “Umbigos modernos” no meio de um show do final dos anos 80, esperando a paulada, a letra cantofalada e que dizia “Poa não acredita ser algo mais do que uma chácara e assim se chapa, se chapa e sua mesquinha província rola / adoram fobias, trincheiras de metralhadoras tolas vomitam farpas tolas entre si”. Tsunâmi. Bomba. Nelson Coelho de Castro. 

A onda não veio e, se tivesse vindo, teria preparado melhor muitas cabeças, mas como material radioativo jogado no fundo do mar da água do Nelson, as prateleiras virtuais finalmente vão recebê-lo, junto com os demais álbuns do artista: o álbum que nunca foi gravado, aquele que ficou no corredor da gravadora, melhor dizendo, aquele que, antes de ser gravado, teve sua demo aprisionada em uma única fita cassete dormida por mais de 3 décadas em uma gaveta, 8 canções bombásticas e inéditas adormecidas, aquecidas pela masterização restauradora de Marcos Abreu e lançada pela Bing Machine, despretensioso selo deste que agora vos fala.

Quais são as obras de Nelson disponíveis? Todos os álbuns lançados, mais seu primeiro compacto e o citado inédito de 1988, Umbigos Modernos.


Os grandes são sempre atuais

Por Guto Leite

“Caymmi de água doce” e “material radioativo jogado no fundo do mar da água do Nelson” são, com efeito, dois achados do texto do Luciano Mello. Queria comentar um pouco mais essas duas imagens.

No que percebo, o ponto que ata Nelson a Caymmi é certo modo de ser da língua cotidiana na canção popular. Caymmi é reconhecido por compor canções que parecem diretamente retiradas do cancioneiro popular, anônimas, de autoria coletiva, centenárias, mas não. Foi ele mesmo, ali, apurando a canção até que ela se deitasse perfeitamente na prosódia da língua. Em Nelson temos mesmo algo semelhante, como se o porto-alegrês fosse equilibrado intacto no interior das canções, e creio que essa seja também uma parte de seu lirismo, já que temos o mundo, uma perspectiva específica e uma linguagem que nunca se despoja de todo de seus encantos.

Sobre o “material radiativo”, creio que Luciano se esquive inteligentemente do clichê do “tesouro no fundo do mar”. Não só se esquiva do tesouro, como dá a perfeita dimensão do quanto a dicção de Nelson Coelho de Castro faz mover por suas tensões. A ouvidos estrangeiros como os meus, é sempre saliente que se trata da voz de um inconformado, de alguém que não aceita a maneira como a sociedade se estabelece desigualmente, de alguém que não aceita imposições autoritárias, de alguém que não se enamora com os poderes estabelecidos. Essa radioatividade (que sabemos, fora da poesia, é de estragos nada poéticos) é força que desacomoda, que revela aquilo que enganosamente experienciamos sem atrito. 

Como o tempo histórico não é linear (o tempo também não, mas não estamos prontos pra essa conversa, certo?), os Umbigos Modernos de 1988 cabem perfeitamente para 2021, este tempo em que diversos parâmetros socioeconômicos recuou para os níveis daqueles famigerados anos finais da década de oitenta. Parece até que o Collor, apoiador do calhorda que nos preside, tá vendo se não concorre em 2022… Veja bem, o Collor! 

Com esse país labiríntico, os grandes são sempre atuais. E é de uma felicidade imensa saber que a obra inteira (até aqui) de Nelson estará disponível como parâmetro para esta e as próximas gerações.


Radioatividade

Por Luciano Mello

O problema de um tempo histórico não linear é justamente a facilidade de cair em uma imagem tola: um tempo circular que acaba se tornando um loop que repete e repete e repete. Caímos na volta em que Umbigos Modernos, infelizmente-felizmente passa a valer de novo e com um peso pesado. Umbigos Modernos não é tesouro no fundo do mar e não é essa a figura que eu queria. É radioatividade pura, são aqueles tonéis que os americanos tentavam jogar em alto mar e o Greenpeace tentava impedir bravamente com um barquinho de borracha. 

A imagem seria ótima, se os vilões estivessem no lugar certo para uma analogia precisa, mas, citando Luís Augusto Fischer, “é preciso um torcicolo pra entender”, essa imagem forçada de Greenpeace com tonéis radioativos dos americanos. Portanto, deixemos a imagem de lado e vamos direto para o fundo do mar da água doce do Nelson, para os tais tonéis que são os álbuns-tesouros: eles romperam, são radioatividade pura. Vão chegar na sua casa, mais cedo ou mais tarde, queira você ou não. Não correm mais o risco de serem levados para museu, ou virarem disputa a 600 reau no Mercado Livre (alguém sempre ganha às nossas custas e com nossos discos antigos), os Nelsons caíram na rede, saíram do fundo, vão contaminar. Nelson Coelho de Castro contamina, é bom saber, é bom sentir, estão sendo transmitidos, isso é radioatividade. Se são tesouros, isso é outra história, mas digo que são.

Quer ouvir? Opções não faltam, Spotify, Deezer, Youtube, ITunes Music, Amazon, Tidal e muitas outras plataformas. Nelson agora flutua pelas ondas do mar digital e como ele mesmo disse numa das frases mais antológicas que já ouvi por telefone: Bicho, saí da caverna, não tô mais pendurado no pretérito.

Odoyá, a força d´água apaixonada quis.


Juntos, todos os álbuns disponibilizados nas plataformas digitais:

  • Faz a Cabeça – Compacto simples, 1979
  • Juntos – LP, 1981
  • Nelson Coelho de Castro, LP, 1983
  • Força D´água – LP, 1985
  • Verniz da Madrugada – CD, 1996
  • Da Pessoa – CD, 2001
  • Lua Caiada – CD, 2010.Umbigos Modernos (inédito gravado em 1988), 2021

Guto Leite é poeta, cancionista e professor de Literatura Brasileira na UFRGS.

Luciano Mello é compositor de canções, tendo duas composições (em parceria com Pedro Loureiro) gravadas por Elza Soares: “Dentro de Cada Um – Deus é Mulher” (2018) e “Lírio Rosa – Planeta Fome” (2019). Seu mais recente álbum, Homem de Mal, conta com participações da Banda Cê, Marina Lima e Arthur de Faria. É formado em Psicologia, Especialista em Literatura Comparada (UFPEL) e Mestre em Literatura Brasileira (UFRGS), com estudo sobre canção. Atualmente vive em Braga, Portugal.

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