Ensaios Fotográficos

A arte que o Guaíba deixou na casa de meu pai

Change Size Text
A arte que o Guaíba deixou na casa de meu pai Foto: Moreno Osório

No dia 31 de maio, quando eu e meu pai entramos na casa em que ele mora com a Bita, sua esposa, no bairro Guarujá, em Porto Alegre, eu já esperava encontrar móveis revirados, roupas espalhadas e grande parte da biblioteca destruída. Imaginava que sentiria um cheiro fétido – uma mistura do mofo das paredes com tecido encharcado e alimentos em decomposição –  logo que colocasse os pés no chão ainda molhado da cozinha. Também não me surpreendeu perceber que a geladeira havia feito uma curva, enquanto boiava, acabando por ficar embretada em um corredor estreito. Afinal, não são poucos os relatos de objetos, grandes e pequenos, que navegaram pelos cômodos das residências das pessoas que abandonaram suas casas às pressas em função das enchentes. 

Apesar da tristeza de presenciar a devastação do lugar que meu pai e a Bita levaram anos para construir, o que chamou a minha atenção ao retornar 28 dias depois de ter ajudado a tirar alguns pertences antes da água começar a brotar do chão foram as marcas que o Guaíba deixou pela casa. 

Fiquei surpreso com os desenhos que surgiram quando a água lamacenta lambeu as diferentes superfícies que encontrou no imóvel. Era como se o rio, este visitante indesejado, tivesse decidido decorar o lugar no qual se hospedaria durante longas quatro semanas. Cada cômodo tinha sua própria obra. Quase todas uma versão diferente de texturas em tons terrosos – às vezes puxando para o esverdeado. 

O Guaíba, este senhor em geral discreto e silencioso, usou também a arte abstrata para expressar seu descontentamento e sua fúria. Destruiu, mas também desenhou e pintou. Achei muito bonito, confesso, e fiquei pensando o que tudo aquilo poderia significar. Talvez nada. Mas talvez esse nosso vizinho tão maltratado estivesse tentando nos ensinar a identificar a beleza em meio à tragédia por meio da arte. Afinal, a arte nos faz humanos em uma vida atravessada por sofrimentos. Será que vamos aprender?



Moreno Osório é jornalista e doutor em Comunicação pela Unisinos. Professor de jornalismo na Famecos/PUCRS e fundador do Farol Jornalismo.

RELACIONADAS
ASSINE O PLANO ANUAL E GANHEUM EXEMPLAR DA PARÊNTESE TRI 1
ASSINE O PLANO ANUAL E GANHEUM EXEMPLAR DA PARÊNTESE TRI 1

Esqueceu sua senha?

ASSINE E GANHE UMA EDIÇÃO HISTÓRICA DA REVISTA PARÊNTESE.
ASSINE E GANHE UMA EDIÇÃO HISTÓRICA DA REVISTA PARÊNTESE.