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A cidade que nunca dorme em modo repouso

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A cidade que nunca dorme em modo repouso
Em fevereiro, quando desembarquei em Nova York depois de duas semanas de quarentena obrigatória no México, senti um misto de alívio com aquilo que eu acabei apelidando de “Vanilla Sky feelings”. Alívio por finalmente poder abraçar minha filha depois de mais de um ano de separação compulsória. “Vanilla Sky feelings” porque, naquele momento, Nova York parecia a locação cenográfica de um filme-catástrofe.  Na trama de ficção científica estrelada por Tom Cruise, vocês lembram, um sujeito acorda de manhã, entra na sua Ferrari estalando de nova e aos poucos vai percebendo que não há ninguém circulando pelas ruas de Manhattan. Quinta Avenida, Times Square, Central Park… tudo vazio. A distopia real chamada pandemia não conseguiu esvaziar a cidade completamente, mas trancou boa parte de seus moradores em casa e expulsou das ruas uma de suas tribos mais numerosas e animadas: os turistas. A cidade que nunca dorme ficou em modo repouso. Uma Nova York sem turistas, sem musicais na Broadway, sem shows de jazz e com museus com visitas apenas em horários marcados já seria triste o suficiente, mas havia ainda os restaurantes fechados, para sempre, por falta de clientes, as lojas vazias e o perturbador silêncio de algumas áreas antes quase insuportavelmente muvucadas, como o Times Square, a poucas quadras aqui de casa. No final de março, finalmente chegou minha vez na fila da vacina. E, não por acaso, desde então tudo começou a melhorar em volta. Com a temperatura mais amena e boa parte da população já imunizada, a cidade vem perdendo, aos poucos, o aspecto de cenário de filme-catástrofe. Já há filas para entrar em alguns museus, e pequenos shows de jazz começam a pipocar nos lugares mais alternativos.  Em pouco tempo, os musicais e os turistas estarão de volta, as lojas vão estar cheias e Times Square voltará a ser insuportável como sempre, mas os dias em que Nova York perdeu a pressa, como aqueles em que a poeira do terror cobriu parte da cidade, são terríveis demais para jamais serem esquecidos. Cláudia Laitano é jornalista, com especialização em Economia da Cultura. É mestranda em Literatura pela UFRGS, com pesquisa sobre Carlos Reverbel. É autora de “Agora eu era” e “Meus livros, meus filmes e tudo o mais”, ambos pela L&PM.

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