Ensaios Fotográficos

bruna castra: Vai passar

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bruna castra: Vai passar
Mauro Castro: Seu Floriano passou Três braços não sustentam um caixão. Fui escalado para ajudar. Eu, o porteiro, mais dois coveiros de plantão. Mais ninguém no cemitério. Seu Floriano ali, repousando, os pés juntos, os dedos entrelaçados, eu supunha. Perguntaram se eu queria vê-lo, única pessoa a aparecer no velório. O caixão já fechado. O velho taxista solitário, sem filhos, sem mulher, morto no próprio táxi, os colegas buzinando, não vai puxar, velho?! Seu Floriano apagado, o corpo imóvel sobre o volante. O caixão já fechado, deixa quieto, não quero vê-lo. Vi-o por muitos anos, já era idoso quando entrei pro ponto, o velho boa praça vai deixar saudade. Ninguém para velá-lo, tempos de COVID-19, pandemia, contágio, mas o velório não teria mesmo aglomerações, o último da família, ninguém para chorar pelo seu Floriano, apenas eu, o representante do ponto de táxi. Nem eu sabia por que estava ali. Vamos lá. Eu ajudo a levá-lo até o túmulo.  O tempo fechado, o céu empedrado, denso, pressão atmosférica no máximo, apressa o passo, pessoal, vem chuva. Manobrando pelas vielas estreitas, dobra aqui, desce ali, o caixão chacoalhando cemitério abaixo, toca que vem chuva e não demora! Anjos alados, matronas segurando seus filhos desfalecidos, autoridades empertigadas, esculturas fúnebres, um cemitério soturno, abafado pelos ciprestes, pela ameaça da chuva, do vírus, da peste. Quatro braços apressados sustentam o caixão. Por fim, a visão do túmulo aberto, esperando seu Floriano, eu louco para dar o fora. Foi quando a chuva caiu como uma avalanche! De uma vez só! Grossa, pesada, barulhenta! Larga, larga, corre, corre, o caixão deixado ao lado do buraco, às pressas, corre, o coveiro conduzindo-nos para uma pequena capela que ele sabia aberta, um mausoléu, sei lá, uma igrejinha entre os túmulos, a salvação da chuvarada, entra, entra, fecha a porta, não, deixa entreaberta, trovões, relâmpagos, a chuva fustigando os ciprestes, rajadas de vento, granizo, fecha a porta!  Quatro homens dentro de uma pequena capela escura, no meio de um cemitério, assolado por uma tempestade. Esse era o quadro.  Duas pequenas janelas, os vitrais minúsculos iluminados pelos relâmpagos, flashes coloridos dentro da tumba – misto de capela e túmulo. As paredes nuas, um crucifixo apenas, algumas imagens sacras ao fundo, cadeiras nos cantos e um monólito no centro. Um mausoléu de alguma família rica, por certo. Um dos coveiros sentou-se na lápide negra, puxou um cigarro, pôs-se a falar da filha, que finalmente conseguiu emprego. Nem o primeiro salário recebido e o escritório fechou, o maldito Corona vírus. Entre uma tragada e outra, uma praga rogada ao COVID-19. A fumaça azulada do cigarro, os raios coloridos dos vitrais, o ambiente surreal. O outro coveiro solidário, a mulher, balconista numa padaria do Moinhos de Vento, tudo fechado, as latas esvaziando, ferrou geral essa merda de pandemia, mas dizem que vai passar, tudo passa. Não passa? O vigia, ali, de gaiato, nem é o serviço dele, mexendo no celular, memes no Whatsapp, achando graça de alguma palhaçada. Cinco, dez, vinte minutos, a chuva nada de parar. Eu perto da entrada, tentando […]

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