Ensaios Fotográficos

Achados no Cassino

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Achados no Cassino

 As imagens aqui apresentadas foram obtidas em percursos de caminhadas pela orla da praia do Cassino (RS), em um período entre julho e dezembro de 2020.  São o resultado mais imediato de uma condição de vida bem específica, que alterou radicalmente nossas possibilidades frente ao espaço público: a pandemia do covid-19. 

Durante este período, o acesso de veículos à praia – coisa que, para o bem ou para o mal, é uma característica marcante do Balneário Cassino – esteve interditado. O acesso de pessoas a pé ou de bicicleta foi também muito reduzido. 

Nascido na cidade de Rio Grande (RS), e tendo passado todos os 55 verões da minha vida no balneário, sempre cultivei o hábito de caminhadas ou passeios de bicicleta na praia.  Mais recentemente construí uma casa-atelier para uso preferencial durante o verão e finais de semana, mas que em face as condições de isolamento da pandemia se tornou o lugar preferido para minha estadia. 

Junto ao hábito das caminhadas, sempre esteve presente um outro hábito que tenho desde criança: a fotografia. Sempre caminhei e sempre fotografei. Em todos os lugares aonde vou, faço sempre uso da fotografia. Fotografia como registro de coisas, pessoas, arquiteturas, paisagens e momentos marcantes de cada diferente lugar. Fotografia como coleta de material para realização de um possível trabalho de arte. Mas também fotografia como imagem de uma situação inusitada, que flerta com uma condição mais poética, digamos assim.

Digo isso no sentido de que a princípio não sou um artista fotógrafo, mas tenho alguns trabalhos de arte que fazem uso da fotografia como linguagem. No caso específico destas imagens, em momento algum pensei estar fazendo arte. Não pensei. Apenas caminhei para aliviar a cabeça do contexto de isolamento, somado ao desastre do contexto político. E caminhando me deparei com esse mundo de coisas diariamente regurgitadas pelo mar.  

Mas é claro que, para além desse conjunto de imagens aqui apresentadas, tenho dezenas de outras imagens feitas no Cassino. A diferença aqui é essa situação completamente inusitada da ausência do trânsito de veículos e pessoas, como se fora uma praia jamais antes frequentada, devolvendo uma certa condição mais selvagem ao lugar, com a presença de animais que normalmente não estariam ali.

Ao mesmo tempo há a condição de um futuro imprevisível, distópico, colocado em risco frente à possibilidade concreta da morte pelo vírus. Ou seja, muito diferente de tudo o que havia vivido anteriormente, estas caminhadas estiveram sempre envolvidas em uma certa aura, fazendo que, com o passar do tempo, ansiasse pelo encontro com estes achados que transformava em imagens. 

Publicadas no instagram rotineiramente (@albernazacosta), muito curtidas e comentadas, estas imagens começaram a criar uma expectativa para quem frequentava meus posts. Uma coisa alimentava a outra. Depois de um certo tempo, com períodos de praia interditada e não interditada, os veículos e as pessoas retornaram em definitivo, e tudo então voltou ao que era antes, e daí fui perdendo o interesse.  Considerei um ciclo que se fechava. 













Daniel Albernaz Acosta – Artista visual e professor na Universidade Federal de Pelotas. Doutor pela Escola de Comunicação e Artes/USP.

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