Ensaios Fotográficos

Flávio Wild: Coração de estudante

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Flávio Wild: Coração de estudante
Porto Alegre, primavera de 1981.  Na sala escura do laboratório de fotografia da Faculdade de Engenharia, tento encaixar o filme na espiral metálica. A ponta do negativo se solta da presilha e tenho que recomeçar o processo. O monitor pergunta se estão todos prontos e liga a luz. Confessa que colocara reveladores rápidos nos tanques, para dar tempo de ir até a Livraria Coletânea, no Mercado Público, antes que fechasse. Ninguém gostou, porque aquilo fazia o filme ficar puxado, aumentando o contraste e o grão da imagem. Esperamos o tempo do interruptor estabilizar a oxidação da prata, depois a fixação e a lavagem. Saímos dali e, sobre a mesa do professor Pablo, o jornal do dia com a manchete: “Supremo Tribunal Militar, por maioria de votos, decide arquivar o processo sobre o atentado no Riocentro”.  Alguns colegas recolhem as suas coisas e vão embora. Eu e o Ângelo combinamos de ficar até o final do próximo período. Na sala dos ampliadores, sob a luz vermelha, pego o meu negativo e começo a cortá-lo, separando-o em pequenas tiras de seis fotogramas. Vou deslizando a primeira tira no porta-negativos do ampliador, entre os vidros. Ligo a luz de 150W, ajusto a altura da cabeça, depois o anel do foco, de acordo como vejo na projeção da imagem sobre a mesa. No primeiro fotograma, surge aquela criança que posou pra mim na favela ao lado do Planetário. Fecho um pouco o diafragma e espero os segundos necessários para a fixação da imagem no papel. Ao meu lado, o Ângelo vibra, ampliando a sua imagem, com uma jovem mãe e a filha em um banco da Redenção. Colocamos juntos as duas folhas de papel na bacia do revelador. Com a espátula, agitamos os papéis, enquanto assistimos, aos poucos, nossas imagens se formarem.  Porto Alegre, inverno de 2016.  Abro uma gaveta em casa, procurando alguma coisa que não lembro. Dentro de uma pasta, bem abaixo de tudo aquilo que havia remexido antes, toco em um pequeno envelope de papel manteiga. Sinto a textura rugosa. Puxo o envelope e vem um cheiro de mofo. Dentro dele, descubro os negativos de 1981. Estavam todos ali: os engraxates na Praça da Alfândega, os moradores de rua em frente à Igreja do Rosário, os camelôs na Rua da Ladeira, as crianças na Redenção, o footing na Rua da Praia, os transeuntes no Viaduto da Borges.  Aquela cidade que agora reencontro, digitalizada na tela do computador, era diferente, mas continua a mesma. Ao centro convergia o comércio, pois ainda não havia os shopping centers. Ao longo da Rua da Praia, comprávamos nossas roupas, livros e discos. E sempre dava tempo de comer uma torrada americana e um sundae. Andávamos mais tranquilos, ouvindo Almôndegas e Musical Saracura. Mas a desigualdade social já estava lá. Nos taludes do Arroio Dilúvio, abaixo do trânsito de Corcéis, Brasílias e Chevettes, equilibravam-se barracas, construídas com pedaços de lona e madeira. Bem perto, a favela ao lado do Planetário era uma ilha de casebres entre edifícios […]

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