Ensaios Fotográficos

Memória em carcaça

Change Size Text
Memória em carcaça

Quando a André Puente encontra com a Ramiro Barcelos, há uma casa. 1911 está gravado na fachada. Acima do portão de zinco que a encobre parcialmente, entre lambe-lambes, três buracos retangulares insinuam janelas. Ao fundo, mistério e escuridão.

Tenho curiosidade por essa casa desde que vim morar na rua André Puente, há seis anos. Passei por ela inúmeras vezes durante as minhas caminhadas pelo bairro, imaginando quem havia morado nela e porque está abandonada e destruída.

Por sua localização ao lado do Colégio Bom Conselho, a casa faz parte da memória afetiva de muitas pessoas que lá estudaram, ao longo das décadas. Ficava no trajeto dos alunos que subiam a Ramiro para passar o tempo na pracinha Júlio de Castilhos e, a partir dos anos 1970, para fazer um lanche no Joe’s. 

“Era habitada por freiras, nos pequenos quartos do primeiro e mal iluminado piso, e pelo padre no piso superior”, contou Paulo, que varria o quintal e trabalha há 25 anos para a empresa de construção proprietária do imóvel. “Deu sorte, venho apenas uma vez por ano para limpar o terreno”, ele completou. De fato, após tantas vezes que passei em frente à casa, naquele dia o portão estava aberto e entrei, com a permissão do Paulo. Portava apenas o celular para fotografar e ele foi me guiando pela casa, informando onde pisar para não correr nenhum risco.

O cenário que encontrei no interior da casa está registrado nesse ensaio fotográfico. Mantive o formato vertical original das capturas com o Redmi Note10 Pro para enfatizar a relação entre piso, parede e forro, e suas estruturas destruídas pelo tempo de abandono e pelos cupins. Nas paredes internas, chama a atenção a técnica do estuque, utilizada na maioria das casas daquela época, na qual uma trama de sarrafos, espaçados um do outro, era fixada com pregos em uma tela de arame, que servia de suporte para a aplicação de uma massa feita de areia fina, cal e cimento. Esta massa era aplicada sobre a tela e, feita a pega inicial, era alisada e depois pintada.

“Existe uma disputa judicial com um morador vizinho, que tenta impedir o plano de erguerem um prédio comercial no terreno dos fundos e restaurarem a casa. O reclamante é ‘gente graúda’, que não quer ter a vista de seu apartamento obstruída por um prédio novo”, finalizou Paulo. 

E não tive vontade de perguntar mais nada.



[Continua...]

O acesso a esse conteúdo é exclusivo aos assinantes premium do Matinal. É nossa retribuição aos que nos ajudam a colocar em prática nossa missão: fazer jornalismo e contar as histórias de Porto Alegre e do RS.

 

 
 
 

 

 

 

 
 
 

 

 
conteúdo exclusivo
Revista
Parêntese


A revista digital Parêntese, produzida pela equipe do Matinal e por colaboradores, traz jornalismo e boas histórias em formato de fotos, ensaios, crônicas, entrevistas.

Quer ter acesso ao conteúdo exclusivo ?

Assine o Premium

Você também pode experimentar nossas newsletters por 15 dias!

Experimente grátis as newsletters do Grupo Matinal!

ASSINE E GANHE UMA EDIÇÃO HISTÓRICA DA REVISTA PARÊNTESE.
ASSINE E GANHE UMA EDIÇÃO HISTÓRICA DA REVISTA PARÊNTESE.