Ensaios Fotográficos

O povo da onça

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O povo da onça Divisor: 600 metros de altura. Foto: Arquivo pessoal
A floresta e a serrapilheira: o solo criado
Artesanato: fonte de renda e marca de identidade
Identidade: feita com genipapo e fuligem
Liderança reunida
Novas gerações desenham casas e árvores
Recepção na beira do rio Moa
Ribeirinhos
Samaúma: a rainha da floresta
Serra do Divisor: lugar de onças
Urucum: pintura todo dia
Xití: ao líder dos Nukini

Depois de estar com os seringueiros, em dezembro passado, fui passar uns dias com os Nukini, o povo da onça, no extremo norte do Acre, quase fronteira com o Perú. Para chegar lá foram seis horas de voadeira (barco  a motor que usam por lá), subindo o rio Moa. O rio é lindíssimo, com muito volume de água, cercado de florestas o tempo todo. Só de vez em quando aparece uma casinha na beira do rio.

Quando chegamos na reserva dos Nukini é que fiquei sabendo que quem tinha nos levado (eu e meu amigo artista plástico Bira Fernandes) era o líder da tribo Nukini, “o povo da onça”. 

Xití ou Erison (em português), me surpreendeu no caminho. Vendo que achei bonito o seu colar, tirou do pescoço e disse: “Um presente pra ti. Vai te proteger muito!” 

Essa foi uma das tantas demonstrações de generosidade que recebemos deles. O tempo todo. 

Fomos recebidos por boa parte da tribo na beira do rio, todos pintados e vestidos tradicionalmente. E depois fizeram uma festa, onde dançaram/dançamos muito, com uma música bem ritmada e doses de caiçuma, a bebida feita de batata e mandioca que eles tomam bastante. Produzem quase tudo o que consomem. Se alimentam de milho, frutas, mandioca, peixes e alguma caça. O que não têm, buscam de barco em Mâncio Lima, a cidade mais perto (seis horas de barco!). Não existem estradas para chegar lá. Se o rio baixa muito, ficam isolados. 

Um dia fomos subir a Serra do Divisor, considerada uma das regiões mais preservadas e biodiversas do planeta. No início da subida, Xití parou, botou as duas mãos em concha na frente da boca, e deu um grito forte e grave. Perguntei o que era aquilo: “é pra afugentar as onças! Depois da chuva elas gostam de circular”!

“E temos alguma arma, caso elas surjam? perguntei. “Não”, disse tranquilamente ele. A subida é íngreme, mas vale a pena. Mesmo sob chuva torrencial, como pegamos. A vista lá de cima é impressionante!

Os Nukini são um dos 400 povos indígenas que vivem em toda a Amazônia (9 países). Pertencem ao grupo linguístico Pano, falado por indígenas no Brasil, Peru e Bolívia. Vivem na Amazônia brasileira em torno de 440 mil indígenas, que  ocupam áreas protegidas de mais de um milhão de quilômetros quadrados, conquistadas a partir da década de 80, com a luta de Chico Mendes, que organizou os seringueiros para lutar contra a derrubada da floresta. Quem vai para lá constata que o manejo sustentável para a conservação da biodiversidade é feito por quem realmente protege a Amazônia: os povos da floresta.


Alfredo Fedrizzi é pai da Lissa (38), Laura (34) e Maria (6 anos), fazendo Mestrado em Antropologia na Universidade de Lisboa, atuando em Conselhos de Administração no Brasil, ex-professor de Televisão na PUC, ex-publicitário. Tomando muitos vinhos portugueses, lendo muitos livros e viajando bastante.

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