Ensaios Fotográficos

Os balões da enchente de 2024

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Os balões da enchente de 2024 Foto: Gilberto Perin

Era o terceiro dia que eu usava o guarda-chuva grande. Só uso o grande quando o menor, comprado na rua, não aguenta e vaza a chuva sobre a minha cabeça. Aí senti que a água não era uma chuvinha, um alagamento ou uma enchente. Era uma tragédia anunciada. O que aconteceu depois, bem, cada um tem a sua história.

 Para mim, um privilegiado onde a água não chegou na porta – mas faltou na torneira –, o efeito foi intenso. Primeiro um abatimento, depois a tristeza entrava pela janela enquanto os amigos perdiam casas, escritórios, lojas, móveis, pets e até outros amigos. 

A câmera fotográfica estava no seu lugar, imóvel, como eu. Não senti a menor vontade de sair para registrar nada. Era uma melancolia dolorosa. Eu vi ótimos registros feitos por muita gente, fotógrafos ou não. A realidade me afogava, misturava culpa e sofrimento. Tornei-me um voluntário caseiro, descobrindo outras formas de auxiliar. Mas nada de fotografar.

No primeiro dia de sol – e frio – registrei com o celular a condensação da umidade no vidro da janela. Joguei a foto no mundo virtual numa espécie de s.o.s que joguei no mar de água e esgoto, rodeado de dor e solidão. 

Foi então que o amigo Fischer lançou um sinal, pedia que eu pensasse numa série para a Parêntese. Disse que não tinha vontade de fotografar a água destruindo tudo. Pedi um tempo.

Paralelo a isso, um casal com sua filha de cinco anos estava no terceiro espaço temporário esperando a água baixar para chegar na casa invadida por quase dois metros de água. Resolvi acompanhar e ajudar na “destruição” da casa tirando móveis, roupas, piso laminado, eletrodomésticos. Fiz aí as minhas primeiras fotos da ‘enchente sem a água’. Imagino o que vai pensar a menina Larissa quando crescer e puder ver como ficou a casa dela na “enchente de 2024”. 

Ah, no domingo teve uma festinha de aniversário. É a última fotografia dessa série, para mim é a mistura trágica do momento com esperança e afeto. A menina pediu que a gente enchesse os balões para pendurar no varal.



Gilberto Perin é fotógrafo, roteirista, diretor de cena e ator brasileiro.

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