Ensaios Fotográficos

Quem tem que falar

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Quem tem que falar

O que posso, eu, dizer dos protestos dos dias 20 e 23 de novembro? Respostas ao assassinato de João Alberto Silveira Freitas? O quão importante é o meu relato pessoal escrito, para além dos meus registros?

A fotografia é uma linguagem sem idioma ou alfabeto – acessa quem pode ver. Cada fotografia publicada é uma concessão do olhar ao mais livre entendimento do outro. A imagem carrega, sim, a bagagem de quem a enquadrou e organizou os planos, escolheu focar aquilo e não algo perto, nem pouco antes ou pouco depois. Mas as leituras que serão feitas são independentes. O compartilhamento é um desapego. 

A fotografia é a linguagem que escolhi. Decido ocupar um espaço para emprestar meu ponto de vista em eventos cuja memória importa. Que as pessoas entendam das fotografias o que sua visão – de mundo – quiser.

Minha necessidade de estar nessas manifestações, enquanto mulher branca de origem simples, profissional de comunicação graças a políticas públicas de acesso à educação, é de colocar o que sei a serviço de todos nós contra a raiz do inimigo em comum. 

É necessário estar lá, é necessário mostrar, é necessário não deixar esquecer, não deixar que se conte de outra maneira ou que não mais se veja. Quem mais importa, quem muito tem a falar, seja nas avenidas Plínio Brasil Milano e Bento Gonçalves nos dias 20 e 23 de novembro, seja em todo o país todos os dias, são aqueles que lá estiveram como agentes da mudança que se busca. É quem aparece empunhando cartazes, elevando a voz, honrando seus grupos e culturas, marcando de onde vem enquanto aponta onde quer e tem direito de ir.

Quem tem a falar é quem mora onde o Estado só aparece para reprimir e tirar. Quem importa é quem conheceu, amou e pede justiça por outros Betos mortos longe de câmeras. 

Vidas negras importam.














Camila Cunha tem 31 anos, é jornalista, fotógrafa na Assessoria de Comunicação e Marketing da PUCRS. Acredita que a educação, a arte e a democratização das narrativas mudam pessoas (que mudam o mundo).

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