Ensaios Fotográficos

Ruminações sobre lixo, cadeiras, cemitérios e o inverno em tempos de duplo exílio

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Ruminações sobre lixo, cadeiras, cemitérios e o inverno em tempos de duplo exílio

A temperatura lá fora é de -1ºC ao meio-dia, com sensação térmica de -7ºC. Preparo-me para sair. Visto o macacão de esqui do Joey, a touca verde com pompom que a mãe me fez há uma vida, o casaco preto com tecnologia avançada, as botas Sorel para andar na lama. Em 2019, no dia 6 de dezembro, eu aterrissava em Porto Alegre, sedenta de verão e família, feliz de escapar do inverno por 45 dias.  No ano da pandemia, me quedo na cidade floresta e de novo me adapto ao gosto, à cor, ao cheiro do frio. Não será a primeira vez que Toronto me ensina a andar.

Meu amigo Andrew Smith diz que fotógrafos não caminham, perambulam, distraindo-se a cada passo com novidades que passam despercebidas aos olhos dos outros, um inseto, uma luva no chão, o ângulo enviesado de um escorregador no parquinho. Eu, no entanto, marcho pelas ruas da cidade com a confidência de saber que ela me pertence. As ravinas, os matagais, as margens do grande rio Don e os riozinhos e córregos são o território onde me perco, ora medrosa, ora satisfeita, confiante de que hei de achar um caminho de volta. 

Não foi fácil amar Toronto. Ela é injusta e caprichosa como o são seus habitantes, polidos e desinteressados da miséria alheia. Há abismos sociais sob o mito do canadense amável, há racismo que mata e pobreza abjeta. E há palácios, tantos, e carros de luxo, porsches e BMWs, coisas formosas com tetos solares e capotas que abrem, no mais das vezes guiados por velhotes brancos vestidos de playboys. Estrangeira, descobri cedo que não há caminho de volta. O ato de imigrar, em si, liquida o lar. Nunca serei daqui, e o ninho que deixei para trás já se desfez. Que remédio senão aprendê-la e amá-la, esta cidade mimada?

Por trás dos edifícios da Kilgour Road, tomo um caminho que me leva por bosques e ravinas até o parque Sunnybrook. Gilberto Gil canta Emoriô nos meus fones de ouvido, há sol na estrada, eu perco a compostura e canto e danço. Conheço uma mulher que, passada dos 80, está nos estágios iniciais da doença de Alzheimer. O marido e os filhos dizem, entre carinhosos e perturbados, que ela está perdendo os filtros sociais, ou seja, comporta-se como quer e diz o que lhe der na telha. Imagino alguém atrás de mim na trilha, com seu cachorro ou criança. Ao me ver dançar, correr e saltitar, câmera na mão e 60 anos na cara, haveria de pensar que também perdi os filtros.

Comecei a andar no final de fevereiro, antes da pandemia, num esforço para repor endorfinas, serotoninas, ou como se chamem essas luzinhas que precisam acender no cérebro da gente. Foi um ato de capitulação à cidade, depois de mais de 20 anos recusando-me a por o nariz para fora de casa no inverno, a não ser para o essencial. Saía no fim da tarde, depois do trabalho, pisando forte e rápido o chão da Yonge Street, a cruzar as passagens do cemitério Mount Pleasant para o norte ou para o leste, e a cada dia a luz permanecia um pouco mais. Virei criatura da rua e da mata ao tempo mesmo em que a quarentena iniciava.

Quando entrou o verão, aliviei a marcha e passei a perambular com minha câmera, e a me aventurar por maiores distâncias, para dentro do mato, dos acessos escondidos, em busca do Rio Don, que atravessa Toronto de norte a sul. Descobri uma cidade secreta, com florestas boreais, brejos, antigos trilhos de trem cobertos por vegetação e recantos isolados que atravessei com mistura de receio e deslumbramento. Os nomes das águas, Yellow River, Mud Creek, Burke Brook evocam a geografia fantástica que se esconde entre as casas ricas, nos barrancos formados por rios milenares. A riqueza urbana é tanta, que preciso estar atenta para que seu brilho não me ofusque os sentidos e a razão. As casas de Rosedale, Lawrence Park, Hogg’s Hollow, vizinhanças bucólicas onde há varandas e pátios nos quais jamais alguém senta para conversar na preguiça da tarde, me enchem de assombro com sua opulência e solidão.

Volto para casa aí pelas duas e meia, colecionando fotos de perdidos e não achados, luvas sem par, coisas e pessoas abandonadas, pequenos e grandes egoísmos. O sol do inverno é baixo, vai pôr-se a oeste da Yonge Street aí pelas quatro e meia. As sombras são longas e os raios de luz entram pelos meus olhos. Mal vejo vultos, e há gelo sob os meus pés. Não sofro. Toronto já me ensinou a andar. O exílio da pandemia não é maior que o da terra estrangeira que levo dentro de mim. 


Ao final de novembro do ano passado, em Toronto, oito pessoas haviam morrido de frio na rua, e o inverno foi mais brando que o presente. A pandemia agravou a situação dos pobres. Antes do COVID-19, havia o “coach surfing”, como se diz por aqui. O sujeito que por qualquer razão perdesse a moradia, “surfava” nos sofás dos parentes e amigos até se estabilizar. A chegada do vírus acabou com isso. Ninguém quer trazer para casa uma pessoa de fora, com o risco da infecção. Os abrigos, por outro lado, estão com a capacidade diminuída devido às regras do distanciamento social, e mesmo assim, continuam sendo focos da doença. A primavera, no final de março, marcou o início da quarentena, e também a proliferação das barracas nos parques e ruas da cidade. Em Toronto, os ricos estão mais ricos, e os pobres estão morrendo, mas a prefeitura, em vez de providenciar moradia a preços populares, ocupa-se em demolir os acampamentos dos sem-teto.


Achados




Barracas no parque

Na neve

No muito frio

Cadeiras

No cemitério

No lixo

Outono

Inverno

Discurso





Perdidos

Mindy

No name cat

Oliver

Tony

Um par

Cemitério, neve

Depois

Malu Baumgarten é escritora e fotógrafa radicada em Toronto, Canadá, desde 1997. Como jornalista e repórter fotográfica publicou no Jornal do Brasil, Zero Hora, Washington Times, London Daily Mail, The Toronto Star e Jornal de Toronto entre outros. Conhecida por fotografar a cena musical de Toronto por mais de 20 anos, desde o começo da pandemia dedica-se a perambular pela cidade registrando o que lhe agrada ou desagrada ao olho. Escreve poesia, crônicas e histórias. Recentemente publicou no Correio do Povo, Revista Escape e Notícias Gerais. Participa do Nós e Outras, site dedicado à expressão artística da mulher, e do coletivo de fotógrafas Pixel Ladies. Malu é ativista da causa pelo direito à moradia e não come animais.

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