Ensaios Fotográficos

Vitor Ramil sobre Marcelo Soares: Visão dupla e múltipla

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Vitor Ramil sobre Marcelo Soares: Visão dupla e múltipla
Quando chegou a hora de pensar na capa do meu álbum Campos Neutrais, lembrei de umas fotos de Pelotas que eventualmente a Ana Maia, que trabalha comigo, compartilhava na Internet e que sempre me impressionavam. Eram imagens que tinham tudo a ver com meu olhar para a cidade. Pedi a ela referências do fotógrafo. O ano era 2017. Foi quando conheci Marcelo Soares. Mais exatamente, quando o conheci pela segunda vez: era o médico que trabalhara com meu irmão Kléber e com quem eu mesmo já tinha consultado. Minha memória é um desastre e meu contato com o doutor não era recente. Por isso não exagero se disser que, naquela ocasião, aquele médico e fotógrafo-monstro foi uma completa revelação para mim.  Posso fazer a citação literária porque, quando comecei a olhar o acervo que ele mantinha no Instagram sob o pseudônimo de Camafunga, entendi que estava diante de um fotógrafo-monstro. Diz-se “monstro” de quem é fera no que faz. Era o caso dele. Eu tinha começado a imaginar a visualidade dos meus campos neutrais a partir de fotos que eu e a Ana Ruth, minha mulher, fizéramos na Islândia, e que um programa do Mac desfocava lindamente: muito branco, poucos elementos, uma cor aqui outra ali; impressionismo, sugestão. Mas com o andar das gravações, as percussões e os instrumentos de sopro começaram a reivindicar cores fortes, definições, composições variadas e até humor. Nesse momento a Pelotas de Marcelo Soares e a minha Satolep cruzaram suas ruas. Escolhi para a capa do álbum uma foto que comento aqui nesta seleção. “Nunca imaginei que esta foto um dia seria usada para alguma coisa”, comentou o Marcelo diante da minha escolha. Talvez ninguém, antes de mim, tivesse lhe observado nada sobre aquela foto de uma modesta loja de esquina que vende vasos e esculturas de cimento, situada numa movimentada avenida central da cidade. O local é como uma porção de campo com uma tapera esquecidas no ambiente urbano. E a rica composição que o fotógrafo extraiu daquele pobre ambiente no dia em que passou por lá é tão cheia de significados que parece também um pedaço de sonho num ambiente de realidade. Como acontece com quase todas as fotos do Marcelo, sejam de edifícios, pessoas ou mesmo da natureza, tem-se a impressão de que tudo foi criteriosamente arranjado e exposto à espera dele. Como se ele apenas tivesse de dar o ar da graça de seu click e pronto, a vida poderia seguir seu fluxo tedioso tendo deixado para a posteridade um momento de pura poesia. O poeta passou por aqui. No caso dessa foto, o poeta passou e levou uma mordida do cusco que aparece na imagem em seus afazeres de cusco. Mais sonho e realidade, impossível. Escolhida a foto da capa, juntei-me com o Marcelo para explorar o iceberg que ele tinha em casa, do qual o acervo do Instagram era apenas a ponta. Reunimos o que precisávamos, mas ficamos esgotados antes de esgotar o material arquivado. A impressão era de […]

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