Entrevista

Esteban Rodrigues: Acordar e adormecer vulcões

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Esteban Rodrigues: Acordar e adormecer vulcões

Assim que terminei de ler o segundo livro de poesias de Esteban eu percebi que eu não estava só na minha casa. Eu havia viajado, e muito. Estive em São Paulo e me cansei como em todos os dias de chuva que me moía o corpo dentro do metrô. Passei por Lausanne e senti a estranheza de um frio que me feria apesar do sol límpido. Visitei minha infância de dúvidas na poeira do sítio da minha vó, da minha bisa. Voltei pra Porto Alegre com lágrimas nos olhos, me encontrei sentada no chão da sala, o tapete, uma almofada, o fim de tarde. A poesia tem dessas coisas. O Esteban é poesia. Então, imagine a experiência que foi entrevistá-lo. Esta conversa aconteceu por e-mail e WhatsApp no mês de fevereiro. Com vocês: Esteban Rodrigues, um encantador de vulcões!

Nathallia Protazio

Parêntese – Quem é Esteban Rodrigues?

Esteban – Eu gosto de dizer que Esteban é um personagem que ganhou vida. E um personagem em duas esferas. A primeira, em casa. Por causa de Kubanacan [uma telenovela produzida em 2004], pasmem. O personagem Esteban era desastrado o suficiente para que meus pais o comparassem a mim e me chamassem por Esteban toda a infância. A segunda, quando escrevi meu primeiro poema. Eu escrevi em nome de Esteban, porque eu queria ser um poeta e não uma poeta, pelo menos nesse espaço seguro que era eu e as palavras. Quando me construí Esteban, muito já tinha sido construído sem que eu tivesse me dado conta. Hoje, com dois livros publicados, eu vejo que cada passo me trouxe até aqui de uma forma muito bonita. Ainda que os tropeços, ainda que as paradas. Esteban saiu de papéis e hoje se expressa através deles. 

P – De onde você é? Como foi a tua infância? E a relação com a tua família?

E – Eu nasci e fui criado no subúrbio de Salvador. Eu tive uma infância bonita, apesar de atravessada por todos os contrapontos sociais e econômicos que pessoas da periferia vivem. Lembro dos brigadeiros que minha mãe vendia para comprarmos pão à noite, bem como lembro do dia que ela se formou na faculdade. Nos dois momentos, nossa felicidade era indescritível. Éramos nós três: minha mãe, minha irmã e eu. Meu pai não era necessariamente ausente, mas não era constantemente presente, difícil de explicar.

As memórias estão aqui. Lembro de ter uma cabana do Pluto onde dentro eu era sempre menino. O pai das minhas bonecas e ursos de pelúcia. Usava as roupas de meu pai, quando ele saía para trabalhar, antes da separação. No entanto, algo que gosto de lembrar, é que também nunca odiei a menina que viam em mim. Tenho carinho por ela e pela infância que tivemos. 

Minha relação com minha família foi fragmentada durante a adolescência. O começo das relações com mulheres e, após isso, a bissexualidade – constantemente vista como indecisão, confusão e baixaria – criou um espaço entre nós. Além de eu sempre ter sido muito calado, o diálogo não era o forte de minha família, então o silêncio aconteceu naturalmente. Minha família é bem protetiva, e ainda que não entendessem algumas coisas nunca me excluíram, nunca fui destratado ou humilhado por ninguém. Estava sempre presente, mas o silêncio provocou um afastamento, atrevo dizer, partido mais de mim. 

Com a transição de gênero, isso mudou. Eles não me deixaram ser só presente, me abraçaram e me puxaram para perto. O distanciamento efetivo era meu maior medo e desde o início foi totalmente o contrário. Eu tenho uma questão muito particular com família, é, de longe, uma das minhas prioridades. E ter essa relação hoje, lembrando do que houve antes (desde a infância bonita até a adolescência caótica), faz eu me sentir realizado e orgulhoso do caminho que construímos, onde mesmo com pensamentos e ideologias diferentes a gente se enxerga e se cuida. 

P – Tu te lembras quando a literatura entrou na tua vida? Existe um marco ou foi um processo?

E – Na quinta série, numa aula de literatura com Vânia Melo. Ela pediu para escrever um poema, eu disse que não sabia e não gostava de poesia. Eu já tinha lido alguns livros antes, sempre gostei de ler, mas não era nada que me movesse para algum lugar específico do mundo. Confesso que alguns ainda são assim, na verdade. 

Quando escrevi esse poema, eu quis criar um personagem. Eu quis escrever como alguém que não era eu, e então… Esteban. Quando Vânia leu o poema, ainda brincou que eu fingi não saber escrever, quando na verdade aquele realmente era meu primeiro poema no mundo. Algo acendeu em mim. Algo que eu fiz tocou alguém. Partindo do ponto que meu sonho sempre foi ser rico e famoso, muito dessa noção está atrelada ao reconhecimento que se tem sobre alguém e, no fundo, era isso que eu queria. 

Apesar de ter havido um processo, esse foi o marco. A partir daí, eu comecei a sentir que poderia fazer algo para tocar o Outro. Estar num lugar de escuta é importante. E consumir a literatura sabendo que também poderia ser tocado também foi algo que se moldou em mim nesse momento da vida. Eu queria explorar mais essa sensação, conhecer outros Outros que me fizessem sentir algo. 

P – Na orelha do teu livro Com mãos atadas e como quem pisa em ovos (ParaLeLo13S, 2021) o Marcelino Freire diz que este teu trabalho é ‘‘como acordar um vulcão’’. Para ti, é este o papel da poesia?

E – Sim, mas não apenas. Marcelino foi muito além quando disse que, para além de acordar um vulcão, era um vulcão adormecido. Essa imagem remete ao receio do outro em ver o que pode acontecer o que por muito tempo não acontece (ou nunca aconteceu). Eu sempre fui muito calado. Em Com mãos atadas e como quem pisa em ovos muito do que não é dito foi dito. Um vulcão adormecido foi acordado. 

O papel da poesia parte muito da explosão do não dito, para mim. No entanto, há poemas que adormecem vulcões. Gosto de pensar sob a ótica do cansaço da explosão, é uma narrativa constante e recorrente. Demanda muito esforço a erupção em si. Há um quê de político em adormecer vulcões, em reconhecer o cansaço, em se dar um tempo. E é nisso também que repousa o meu livro. No cansaço exposto, no reconhecimento do limite, na necessidade de se gritar “eu preciso parar, eu não consigo agora”. Acordar um vulcão é necessário. Deixá-lo adormecer também. 

É aí que a poesia caminha.

P – A tua poesia parece criar um contraste com as imagens veiculadas na tua rede social em relação à sensibilidade. Você se considera um cara sensível?

[Continua...]

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