Entrevista

Bruna Kalil Othero – Nós somos quem nós lemos?

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Bruna Kalil Othero – Nós somos quem nós lemos? Bruna Kalil Othero (Foto: Estúdio Ventana, por Mateus Lustosa)

Certa feita, o douto Alfred Whitehead sugeriu que a filosofia europeia consistia numa série de notas de rodapé a Platão. O que certamente é falso, mas carrega lá o seu charme e certa graça. No frigir dos ovos, um dos dilemas do pensamento europeu, dilema tão polêmico quanto recorrente, e do qual somos, para o bem ou para mal, devedores, está cristalizado na pergunta: como definir os limites entre Filosofia e Literatura? 

Nessa arenga milenar, Platão é uma referência. Lembram da famosa treta de expulsar os poetas da República? Pois bem, deixemos o Whitehead falar bobagem sozinho. Deixemos igualmente de lado as razões platônicas para o ranço com poetas, dramaturgos e demais fingidores, campeões da imaginação. Meu convite é pensar este sururu noutra via: a literatura pode servir como incentivo para o aprimoramento moral? Ou, dito de modo menos arrevesado: ler ficção nos transforma em melhores pessoas? 

A rigor, para responder adequadamente a essas perguntas, requer-se uma ampla investigação empírica, que seria melhor executada por psicólogos experimentais que entendem de cognição moral. Infelizmente, até onde me alcançam as luzes e depois de alguns anos lendo publicações especializadas e participando de bancas de mestrado e doutorado sobre o tópico, lamento informar que o cenário é bastante inconclusivo. 

Enquanto esperamos um eventual consenso entre os psicólogos, que tal arriscar as nossas fichas em uma conversa sobre o assunto com uma escritora de mão cheia? A oportunidade surgiu a partir de um tweet da genial Bruna Kalil Othero. Se você desconfia que estou exagerando no adjetivo, corra e leia Oswald pede a Tarsila que lave as suas cuecas (Letramento, 2019) ou Anticorpo (Letramento, 2017).

Agora, com as cartas de apresentação na mesa, voltemos ao tweet da Bruna, que no finalzinho de maio mandou isso daqui pro mundo digital, para comoção geral da tribo dos internautas literários:

Parte da comoção está registrada no volume de comentários, compartilhamentos e curtidas, que fiz questão de reproduzir nos prints das postagens. Não que eu defenda a recém-chegada métrica do like & share & follow como a palavra final. Mas já que estamos lidando com transmissão de informação qualificada em redes sociais, não deixa de ser uma alvissareira palavra inicial. Transmissão que, inclusive, transbordou do Twitter para outras plataformas. Eu mesmo recebi a mensagem em uma repostagem do tweet da Bruna, que até aquele momento, mea culpa, mea maxima culpa, me era totalmente desconhecida, na página do Milton Ribeiro, da valorosa Bamboletras, no Facebook.

E aqui, cabe uma dica: se quer fazer um uso decente de redes sociais, comece escolhendo melhor seus amigos virtuais. Numa dessas você pode ter a sorte que seguidamente tenho, a saber, descobrir cousas maravilhosas pela curadoria atenta de outrem. 

Vamos combinar, maravilhosa é esta thread da Bruna, traçando quarenta e oito paralelos entre leitores e leituras! Repito: 48 estereótipos certeiros! Confesso que ri aos tubos, e depois do fartão histriônico bateu a costumeira brisa filosófica e pensei: tenho que confabular com a Bruna para entender os mecanismos que a levaram a tão perspicaz façanha analítica. Para a minha sorte e gáudio a conversa rolou em 9 de junho e vai aqui a transcrição de algumas partes.

Parêntese – É óbvio que tem uma saborosa ironia no seu tweet, mas não teria viralizado se as pessoas não se enxergassem ali. Você tinha alguém à vista? Como foi a formatação desses estereótipos?

Bruna Kalil Othero – É importante repetir que o meu Twitter é o meu espaço de ironia deslavada, de deboche, de brincadeira. Eu gosto muito deste tipo de linguagem. Eu adoro a linguagem do humor. No mestrado estudei a Hilda Hilst, que eu acho que é uma das nossas maiores humoristas. Os livros dela são engraçadíssimos, principalmente os da década de 90, que foram o meu foco no mestrado. Então, primeiro é importante dizer isso, que é uma brincadeira, obviamente é irônico, não é um julgamento real, apontando o dedo, nem querendo criticar ninguém, apesar de que muitas pessoas se sentiram ofendidas e vieram me ofender de volta, porque a internet é assim né, você posta qualquer coisa e aí vem gente falando: “Por que você não falou desse e desse autor?”, “Ah, eu não sou assim, você está me julgando”. Principalmente o do Bukowski e do Kerouac, que surgiram vários esquerdomachos falando que não eram esquerdomachos. O que só comprovou a teoria, vindo me explicar coisas, que é o que esquerdomachos fazem, né? Adoram explicar coisas para as mulheres. […] Apesar de ter sido muito espontâneo, na verdade todos esses comentários, todos esses estereótipos, são o resultado de anos de pesquisa e observação. O do Álvares de Azevedo eu acho que é o mais apurado porque eu devo conhecer umas dez pessoas que estudam Álvares de Azevedo e todas as namoradas dessas pessoas são mulheres com cara de morta, mulheres pálidas, com olho meio caído. 

P – Como as pessoas acabam mimetizando a experiência da ficção literária na sua vida, no seu comportamento? E como isso acontece sem que as pessoas se deem conta disso? 

[Continua...]

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