Entrevista

Clara Pechansky: Deixar marcas

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Clara Pechansky: Deixar marcas

Mais uma vez o Renato Rosa, parceiro da Parêntese desde muito tempo, produziu a entrevista com Clara Pechansky, artista plástica com décadas de trabalho e uma rede impressionante de amizades e parcerias. Aqui, ela conta parte desse longo percurso. A peculiaridade desta entrevista, para além da singularidade individual, vai por conta de dois bilhetes que a Clara escreveu para abrir e fechar as respostas que escreveu – a entrevista foi feita por e-mail, reunindo perguntas de vários interessados, nas últimas semanas do ano passado. 

Vale a pena saber da história e da visão das coisas da Clara. (Luís Augusto Fischer)

Amigos Renato Rosa e Luís Augusto Fischer, muito obrigada por me escolher para responder a esta série de perguntas. O Fischer foi convidado por mim e pela Liana para ser um dos Artistas da Vida, em 1999. Sigo os caminhos dele pelo Facebook, gosto muito do Dicionário de Porto-alegrês, e tive a oportunidade de doar 30 livros para a campanha social que ele criou em 2020, na revista Parêntese. O Renato eu conheço há muitos anos, teríamos várias histórias que vivemos juntos para contar, mas acho que a mais marcante é aquela em que ele reconheceu a assinatura da pessoa que retirou do MARGS um importante desenho meu e o vendeu…. Felizmente a obra foi recuperada, graças à eficiência do Albano Volkmer, então diretor do MARGS, e do Paulo Gomes, na época estagiário do Museu.

Parêntese – Como foi tua formação escolar? Qual era o ambiente familiar em que vivias antes da vida adulta? (Luís Augusto Fischer)

Clara Pechansky – Minha formação escolar começou com uma surpresa: no dia em que minha mãe me matriculou no Grupo Escolar Cassiano do Nascimento, quando eu tinha 6 anos, descobri que meu nome não era Clarita. Custei muito a me acostumar e quando me chamavam de Clara eu achava que não era comigo. Ainda sou Clarita, ou Ita, para a família e para amigos. 

P – Em famílias de imigração recente a memória das durezas costuma ser muito presente. Como foi no teu caso? Conheceste, conviveste com imigrantes?

CP – Eu sou da primeira geração brasileira. Meu pai imigrou aos 15 anos em 1920, vindo de Voronovitza, na Rússia, atual Ucrânia. Chegou acompanhado de um irmão, um ano mais velho. Vieram fazer a América, e moraram inicialmente no Rio, onde meu pai Valodja (Valentim) adquiriu um sotaque carioca que nunca perdeu. Minha mãe Sarah (Sonia) chegou ao Brasil com 10 anos. Seu pai, meu avô Rodolfo, vindo de Novo Konstatinov, Rússia, hoje Ucrânia, já havia imigrado em 1913 e morava em Pelotas, mas por causa da 1ª Guerra só pôde mandar buscar a família em 1921. Sonia se integrou rapidamente à nova vida e ao novo idioma, e estudou no Grupo Escolar Felix da Cunha. É daquela época a fotografia de Sonia na aula de Trabalhos Manuais, que serviu de tema para a exposição A Lição de Pintura, realizada na galeria da Marisa Soibelmann, em 2003, com produção da Liana Timm e textos poéticos da Cíntia Moscovich. 

Cresci na companhia daquela e de outras fotografias, nutrida por imagens, ouvindo relatos de que a imigração se dera em busca de uma vida sem perseguições, sem pogroms, sem o Czar e sem cossacos. Minha avó paterna, que chegou em 1929, morava conosco. Eles falavam ídiche ou russo, pra gente não entender, mas entendíamos tudo. Minha avó materna Ana teve mais 2 filhos aqui no Brasil: Waldemar, engenheiro, e Abram, médico radiologista e excelente desenhista. Foi o tio Abram que me deu de presente um livro sobre a juventude de Schubert e A arte de desenhar cabeças, do Walter Foster, dois livros que alimentaram durante anos minhas duas paixões, o desenho e a música. 

P – Olhando de hoje, como foi que essa matéria da memória familiar e cultural foi-se sedimentando na tua percepção e na tua sensibilidade?

CP – Meus pais se conheceram em Pelotas e casaram em 1927. Éramos 3 irmãs: Geny, Celia e eu. Tive uma infância muito feliz, comecei a desenhar antes de saber ler. Meu avô e meu pai, cada um tinha uma loja de tecidos, armarinhos e confecções. Eu desenhava a lápis, no verso do papel de embrulho das lojas. Fui precoce em muitas coisas: aprendi a ler sozinha, assim como a ler música e a ler o alfabeto hebraico. Meus pais assinavam o Yidischer Zeitung, que chegava mensalmente, e eu decidi que iria aprender a ler ídiche. Minha família não era religiosa, mas meu avô celebrava o Pessach, e rezava numa velha Hagadá que tinha o alfabeto nas últimas páginas. Hoje eu não seria capaz de reconhecer nenhuma daquelas letras hebraicas, esqueci a maioria, mas havia tanto espaço na minha cabeça e tanta curiosidade que eu absorvia tudo. Minha mãe era amante de livros, minhas irmãs também. Geny era 7 anos mais velha e Celia 5 anos. A caçula, “a pirralha”, cresceu em um mundo próprio, criando seus brinquedos, fazendo bolinho de barro no quintal, desenhando as roupas de suas bonecas de papel, inventando um alfabeto que só ela entendia, lendo histórias nos gibis e ouvindo a Dandão contar as lendas do nosso Rio Grande. Dandão era descendente de escravos, dizia que o 13 de maio não deveria ser feriado porque era uma vergonha e não havia o que comemorar.

Devo à Dandão minhas primeiras noções de ética, de consciência social e de civilidade. Foi Christina Dias, no livro Clara Clarita Ita, que mostrou a importância da Dandão na minha vida. Fui crescendo sem proibições, além daquelas que a sociedade pelotense impunha. Moça não faz isso, não faz aquilo. Sou produto do Estado Novo, Getúlio era o único ídolo que venerávamos no colégio. Cantávamos todos os hinos, estudávamos em livros de ciência que não mostravam o aparelho genital, aprendíamos História de um jeito que me fascinava, porque eu podia desenhar os Déspotas Esclarecidos e ganhar prêmios nos concursos de desenho do Ginásio Municipal Pelotense, onde entrei no 4º ano primário, e onde estudei até o Clássico. Gostava de fazer retratos, e na falta de outros modelos desenhava a família. Os avós que já tinham morrido eu desenhei de memória, mas toda a família próxima de mim foi retratada de várias maneiras em várias épocas, e isso inclui marido, filhos, sobrinhos e mais tarde netos. 

Eu fazia parte do grêmio estudantil, gostava de liderar e de aprender. Fiquei sócia da Biblioteca Pública, onde passava as tardes. Pelotas era uma cidade pequena e pacata, eu andava a pé. Minhas leituras foram orientadas pela Dona Gilda, bibliotecária-chefe. Quando, aos 14 anos, eu esgotei a Biblioteca Infantil, ela me passou para a dos adultos. Dona Gilda era uma visionária, inventou um programa de rádio chamado A Hora do Conto, que era produzido e apresentado por nós, adolescentes que frequentávamos a Biblioteca, e transmitido uma vez por semana pela Rádio Pelotense. Eu era muito ativa na Biblioteca: era redatora, ilustradora e repórter do Mundo Infantil, jornal também produzido na Biblioteca, que eu mesma rodava no mimeógrafo a álcool. Nosso grupo produzia peças de teatro que encenávamos na própria Biblioteca e hoje, relendo aqueles textos que eu escrevia, me dou conta que já havia uma crítica social bem definida, mesmo naquela Pelotas repressiva dos anos 1940/1950. 

Quando eu descobri a Enciclopédia, na Biblioteca dos adultos, um universo de imagens se abriu para mim. Não havia outra fonte de conhecimento, na época, além dos livros e do rádio. Eu devorava os livros e ouvia rádio. As emissoras de Pelotas tinham pouco alcance, então recebíamos o sinal da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, da Belgrano e da El Mundo, de Buenos Aires, e da Rádio do Teatro Solis de Montevidéu. Isso foi plasmando a cultura musical de nós três que, além de frequentar as audições da Sociedade de Cultura Artística de Pelotas, cantávamos tangos e boleros, que tocávamos de ouvido no piano. Era uma família musical: todos cantavam, em qualquer língua, desde o folclore judaico até sambas de dor de cotovelo. Eu produzia shows com meus amigos adolescentes, e os cenários eram criados na garagem da minha casa.

Nasci nos fundos da loja do meu pai (Casa Valentim), em 1936, na esquina da Andrade Neves com a 7 de Setembro, mas cedo mudamos para uma casa comprida na rua Dom Pedro II, onde hoje funciona um brechó. Quando voltei à casa, já adulta, descobri que aquela enorme escadaria que eu guardava na memória eram só 3 degraus. Em 1951 nos mudamos novamente, desta vez para a Benjamim Constant, na zona do porto. No mesmo dia chegou o carro Morris, que meu pai havia importado da Inglaterra. Não existia indústria nacional, nossa primeira geladeira elétrica foi uma Crosley americana. Nosso rádio que eu tanto amava era um Westinghouse, tinha um olho mágico, verde, e na minha fantasia infantil eu o enchia de anõezinhos que tocavam e cantavam.

P – Que Porto Alegre tu encontras, quando vens para cá? Em que ano ocorreu essa vinda?

CP – Saí de Pelotas recém formada e recém casada, com 20 anos, em 1957. Em Pelotas eu tinha uma vida dedicada aos estudos, estudava o que queria e, na medida do que era permitido a uma mocinha, eu podia ir onde quisesse, como frequentar as exposições do Grande Hotel para ver os quadros e sonhar que um dia eu também teria aquelas plaquinhas douradas com meu nome na moldura. Também era fantástico ir às matinês do Capitólio com a Joaninha e a Ruthe, e depois fazer o footing na Praça. Tenho na lembrança os desfiles de Carnaval na rua Quinze, que assistíamos encantadas, das manhãs de domingo vendo os blocos de Sujos, e os carros das Princesinhas do Clube Caixeiral, do Clube Comercial e outros lugares que eu não frequentava, mas que mobilizavam a minha imaginação. Desenhei isso tudo de memória.

De uma vida em que eu era livre para fazer o que quisesse, passei a viver numa cidade grande e desconhecida, a ser responsável por gerir uma casa, a ser uma mulher casada, e isso foi inicialmente um choque de realidade para mim. Era uma vida completamente diferente da anterior. Porto Alegre foi um deslumbramento, uma cidade grande, onde eu fui muito bem acolhida pelos amigos do meu marido, que me abriram portas. Um deles foi Roberto Eduardo Xavier, riograndino como o Isaac, jornalista, cronista da Folha da Tarde. Roberto costumava reunir um grupo aos sábados à tarde na rua Pelotas, na casa do Xico Stockinger, convidado por ele para ser chargista na Folha. Xico havia chegado do Rio, onde tinha sido meteorologista e aluno de escultura de Bruno Giorgi. Morava com Yeda e os filhos na casa da rua Pelotas, onde instalara um forno de cerâmica e se dedicava a fazer xilogravura. Já começava a ter problemas de audição, por isso não curtia direito as tardes de sábado, que reuniam o Isaac, o Roberto, o Josué Guimarães e o Heraldo Ferreira em torno de contos que eles se propunham escrever sobre um único tema, e debatiam a cada semana. Enquanto os amigos tratavam de literatura, o Xico e eu fazíamos gravura. Assim foi que meu primeiro mestre nessa técnica foi meu amigo Xico, que me ensinou a tirar cópia de xilo com colher, e me orientou a não me machucar com as goivas.

Outro amigo importante foi o Paulo F. Gastal, que era pelotense e que me convidou a ilustrar poemas da Lara de Lemos e de outros poetas para o Correio do Povo. Enquanto isso, a Caldas Jr. criou a Folha da Manhã, e eu passei a ilustrar contos para o Suplemento Literário. Roberto Xavier me contratou para ser redatora e ilustradora de uma página no Suplemento Infantil da Folha da Tarde. Fiz a página Laurinha brinca conosco durante 4 anos. 

Porto Alegre era uma cidade com muitos jornais, e para meu campo de trabalho como ilustradora não faltaram oportunidades. Foi Roberto ainda que me apresentou a outro Xavier, o livreiro português Edgardo, que era dono da Livraria Leonardo Da Vinci, especializada em livros franceses. Foi lá que eu fiz minha primeira mostra de desenhos, em 1959, sobre meninos de rua e filas dos “encostados do INPS”.  Alice Soares visitou a mostra, e logo me convidou a entrar para o Grupo de Trabalho em Modelo Vivo, que por um tempo funcionou no Instituto de Artes, e onde conheci a Alice Brüeggemann. Nossa amizade e admiração mútua durou até que elas se foram. 

Nara Sirotsky, artista plástica – Clarita querida, quais as cores que iluminam a fonte da tua energia?

CP – Nara querida, tu foste minha aluna por muitos anos e sabes o quanto a cor mobiliza e conduz a nossa criação. Teu trabalho comigo começou pelo desenho, com a proibição de usar borracha. É para que fique visível o caminho do traço, e para que se possa acompanhar o pensamento da artista, com suas idas e vindas. Tu te mostraste uma colorista desde o início, mas o que fizemos, tu e eu, foi sistematizar o uso da cor. Quanto a mim, a fonte de energia permanece tendo origem nas 3 cores básicas, vermelho, azul e amarelo. É a partir delas e suas misturas, ou às vezes as utilizando puras, que consigo me expressar. Minha exposição Lírica, realizada em 2004, na Gravura, com apresentação da Martha Medeiros, utilizava apenas as 3 cores básicas, e resultou muito colorida: “…Clara Pechansky segue senhora das cores, e consegue a magia de, usando basicamente vermelho, azul e amarelo em algumas telas, criar um impacto visual 

(… ). As cores são primárias, mas o efeito é incomum. Ela acende a luz”.

Armindo Trevisan, escritor, poeta, professor e crítico de arte – Sempre tive admiração e apreço pela produção artística da Clara. Minha pergunta é: Em tua produção visual, o tema religioso é relativamente raro. O que te levou a criar os desenhos magníficos que foram aproveitados em meu livro sobre os mais belos trechos da Bíblia?

[Continua...]

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