Entrevista

Colmar Duarte – Sou do tamanho do que enxergo

Change Size Text
Colmar Duarte – Sou do tamanho do que enxergo Colmar Duarte escrevendo (Foto: arquivo pessoal)

Se quiser pensar em longa duração, pensa na tradição da literatura gauchesca: tem uns 150 anos, senão mais, e nunca parou de emitir sinais de vida. E desde sempre ela nos interroga: ao ler por exemplo o Martín Fierro, que voz é esta? Quem fala ali, na voz do personagem-narrador? É uma voz da cidade ou do campo?

O tema é vasto e fascinante, para a história da literatura e da cultural. Porque o Martín Fierro é um poema narrativo escrito por José Hernández, jornalista, um letrado portanto, mas nele se representa a voz de um gaúcho simples, iletrado. Quer dizer: nas páginas da literatura gauchesca vem cifrado um enigma histórico. Vasto e fascinante, repito.

Pois nosso entrevistado de hoje é autor de algumas páginas significativas nessa tradição – e as realiza com destreza, seja em poesia (como Água de sanga), seja em prosa ficcional (em Frutas amargas), seja no ensaio (em Califórnia da canção nativa – marco de mudanças na cultura gaúcha, em parceria com José Édil de Lima Alves), seja mesmo na tradução (ele realizou uma nova tradução do clássico Martín Fierro, todos esses livros publicados pela editora Movimento). Ele é Colmar Duarte. 

Sua história pessoal, os trânsitos entre Brasil e Argentina, entre o português e o castelhano, entre o campo e a cidade, entre o trabalho rude numa estância e o refinamento sublime na literatura, tudo está aí para mostrar uma escala de grandeza notável no trabalho de Colmar. E vem contado aqui, nessa conversa, feita por email em junho. 

Luís Augusto Fischer


Parêntese – De onde vem o teu nome? Tem algum antecedente familiar? 

Colmar Duarte – Não há antecedente na família. Meu pai contava que conheceu esse nome em uma notícia de jornal sobre um acidente aéreo. Lá estava citado um tal Colmar e ele decidiu que daria esse nome a seu primeiro filho homem. 

P – Como foi tua infância e adolescência? Como foi tua formação cultural? Quem eram teus interlocutores nesse processo de formação?

CD – Nasci no campo, em um lugar conhecido como Estância da Pedreira. Ali viviam meus avós maternos e minha mãe ia em busca de sua proteção nessas ocasiões. Em 1932 as parturientes eram assistidas pelas parteiras da campanha. Em minha infância vivi no Retiro, onde moravam meus pais. O Retiro era um posto da estância do Touro Passo, de propriedade do mau avô paterno. As lembranças são as mais gratas, pois a vida de guri de campo consiste em brincar de homem grande, domando cavalos de taquara, tropeando gado de osso, descobrindo o espanto de galopar contra o vento, cavalgar na chuva, pescar lambaris, tomar banho na sanga, ouvir histórias contadas pelos gaúchos à beira do fogo, atividades ligadas à natureza e à liberdade. Não existe melhor escola para moldar nossa alma.                                                                                                   

[Continua...]

O acesso a esse conteúdo é exclusivo aos assinantes premium do Matinal. É nossa retribuição aos que nos ajudam a colocar em prática nossa missão: fazer jornalismo e contar as histórias de Porto Alegre e do RS.

 

 
 
 

 

 

 

 
 
 

 

 
conteúdo exclusivo
Revista
Parêntese


A revista digital Parêntese, produzida pela equipe do Matinal e por colaboradores, traz jornalismo e boas histórias em formato de fotos, ensaios, crônicas, entrevistas.

Quer ter acesso ao conteúdo exclusivo?

Assine o Premium

Você também pode experimentar nossas newsletters por 15 dias!

Experimente grátis as newsletters do Grupo Matinal!

RELACIONADAS
marca-parentese

Abra um parêntese no seu fim de semana com jornalismo e boas histórias. Deixe seu email e receba toda semana as newsletters da revista Parêntese.

Escolhe um dos combos

Pagamento exclusivo via cartão de crédito