Entrevista

Eduardo de Assis Duarte: na literatura afro-brasileira ninguém anda só

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Eduardo de Assis Duarte: na literatura afro-brasileira ninguém anda só

Eduardo de Assis Duarte é um daqueles teóricos incontornáveis que a parte lúcida da multidão de agentes do campo crítico deseja se tornar um dia. Dono de uma impressionante capacidade de aglutinar nomes ao redor de si – e de uma invejável disposição para sistematizar conteúdos complexos – Duarte produziu, ao longo das décadas, um conjunto robusto de textos, artigos e livros que versam sobre a literatura afro-brasileira e suas tensões. Se há uma figura a ser considerada no longo caminho de consolidação de uma teoria literária que dê conta dos objetos literários negros, ela encontra sua materialidade nacional em Eduardo de Assis Duarte. Seus achados sobre a literatura negra chegam até nós embrulhados com a generosidade rara dos que luxuosamente renunciaram aos espetáculos de obscuridade e histrionismo, tão comuns hoje em nosso debate público. A entrevista a seguir, concedida por e-mail, contém perguntas formuladas por Luís Augusto Fischer e por mim e é uma boa oportunidade para colher as respostas que durante muito tempo nós, pesquisadores e pesquisadoras das literaturas pretas, “procuramos gemendo”, como diria Pascal.

Texto: Luiz Mauricio Azevedo

Organon & Parêntese – O senhor poderia nos contar como foi a gênese de seu processo de formação intelectual, desde o começo, educação básica, núcleo familiar?

Eduardo – Nasci numa família de comerciantes de classe média de uma cidade pequena, Pedro Leopoldo, que hoje faz parte da Grande BH. Meu pai tinha um armazém de secos e molhados e desde cedo me pôs no trabalho: entregava compras, ajudava no balcão, sobretudo aos sábados, quando as portas só se fechavam depois das 18:00. Fiz o primário e o secundário em minha cidade, e o antigo curso Clássico, Ensino Médio voltado para humanidades, em BH.

O & P- Há alguma lembrança especialmente significativa dessa época, que tenha repercutido de algum modo em sua trajetória posterior?

E – Desde então, por volta dos dez anos, descobri minha paixão pela leitura, passava horas agarrado aos livros, sobretudo de História. No fundo, acho que já queria ser professor. Minhas três irmãs mais velhas eram professoras primárias, sempre havia livros em casa e fui me aproximando da ficção. Desde pequeno escutei muitas histórias. Mas, quando descobri que poderia ter minha própria ficha na Biblioteca Pública da cidade (hoje desmantelada graças a um prefeito analfabeto…), não parei mais: aos 12 anos, numas férias de verão, devorei os 6 volumes de uma História da Segunda Guerra Mundial de quase 2.000 páginas. E algo me marcou para sempre: a descoberta do ódio racial que alimentou a quimera assassina da supremacia alemã; e a barbárie ocorrida em Hiroshima, logo reproduzida em Nagazaki, a queimar vivos milhares de inocentes.

O & P- E a chegada no mundo das palavras, das letras: como foi? Alguma experiência em tradições orais antes de conhecer a literatura de livro?

E – Tive pouco acesso à oralidade, ouvia as estórias contadas às crianças, e via de longe os Congados, sem muito entender, confesso. Mas o que me marcou mesmo foram as leituras de Jorge Amado na primeira adolescência, Jubiabá e Capitães da areia sobretudo. Descobri que já não estava mais na infância e que gostava de ler as estórias de adultos, marcadas pela denúncia de um país socialmente injusto. Aos treze anos, tais leituras me ajudaram a ter certa desconfiança na movimentação que preparava o clima para o golpe de 64.

O & P- Como e quando ocorreu sua tomada de consciência da condição do negro no Brasil? Isso representou alguma ruptura em sua vida?

E –  A cena de abertura de Jubiabá, em que o negro Balduíno nocauteia no boxe o alemão campeão da Europa, me marcou profundamente, sobretudo pela lembrança que tinha das leituras da Segunda Guerra e do já que sabia sobre as consequências da ideia de “raça”, de “raça pura” e “superior”… Balduíno me ensinou que os negros podem ser líderes fortes não apenas no físico, mas também na atuação social e política. Mais tarde, já no ensino médio, tive um professor de português negro – Carlos Alberto Reis de Paula, hoje ministro aposentado do TST –, que me encaminhou em definitivo para o mundo das letras, por ensinar que ele está intimamente vinculado à História que tanto me interessava.

O & P-  Minas Gerais é uma terra muito particular e marcante: em que medida ela está inscrita em sua formação como indivíduo e como intelectual?

E – Nascer cercado de morros e serras marca a vida de qualquer um, em especial pelo desejo constante de ir além e conhecer o outro lado… da montanha – o litoral, o planalto e o além-mar, como fizeram tantos e tantos Drummonds, Rosas e outros.

O & P-  Como foi seu tempo de graduação? Que Belo Horizonte era aquela?

E – 1970: tempo de AI-5 e de repressão explícita, sempre com um policial na sala fingindo ser estudante, só pra gravar o que professores e alunos diziam… E um novo tempo de descobertas, entrei na UFMG com dezenove anos. E logo me aproximei de meu futuro compadre, Silvano Fidelis, ex-seminarista mais maduro e único negro da sala. Ali iniciamos uma amizade viva até hoje. E ali conheci minha companheira de toda a vida. A partir de 1974, já formados, fomos fazer mestrado e trabalhar na rede pública de ensino do Rio de Janeiro, junto com um grande grupo de jovens mineiros, Conceição Evaristo inclusive, que não conhecia em BH e me foi apresentada já no Rio pelo compadre Silvano.

O & P-  Naquele momento, virada anos dos anos 1960 para os 1970, qual era o estatuto dos estudos sobre a produção literária negra? O que o levou a estudar o tema?

E – Silêncio absoluto: Machado e Cruz e Sousa lidos o primeiro como “fundador do Realismo no Brasil”; e o segundo como “fundador do Simbolismo”, nada mais. Em minha graduação só se falava em gêneros literários e estilos de época. E ambos autores nos foram apresentados como pontes para a entrada no Brasil das modas literárias europeias. Só fui me ligar na potência da tradição da literatura negra ocidental depois de defender meu doutorado sobre o Jorge Amado dos tempos da utopia. E isto, a partir da presença de Conceição Evaristo nos Cadernos Negros, que até então conhecia apenas de ouvir falar.

O & P-  Que percalços o senhor enfrentou? Como o senhor os equacionou na época e como os vê agora?

E – Me dediquei com afinco a essa linha de pesquisa no ano 2.000 e nela estou até hoje. Apesar do livro de Roger Bastide A poesia afro-brasileira ser de 1943, em nenhum momento, tanto do mestrado na PUC-Rio, quanto do doutorado na USP, presenciei qualquer menção à produção de autoria negra em nosso país, muito menos oferta de disciplinas sobre o tema. Mais tarde, quando ofereci meu primeiro curso na UFMG, e organizei a primeira edição de Úrsula feita no século XXI, notei um silencioso desdém por parte de colegas que, ainda hoje consideram tal produção como subliteratura voltada apenas para o protesto e a denúncia. E quando publiquei a primeira edição do Machado de Assis afrodescendente (2007), só faltou a casa cair em minha cabeça. Inclusive com reprimendas vindas de amigas e amigos que tanto prezo, àquela altura ainda descrentes das interseções entre classe social, gênero e etnicidade.

O & P-  A quais nomes da literatura negra contemporânea devemos prestar atenção com mais afinco?

E – Não são poucos. Até porque não podemos deixar de ler importantes figuras do passado só agora estudadas com mais afinco enquanto autoria negra, a exemplo de Luiz Gama, Firmina, Machado, Carolina, Lima Barreto; além de outras figuras ainda submersas no memoricídio acadêmico: Nascimento Moraes, Lino Guedes, Solano Trindade, Adão Ventura e Oliveira Silveira que, em grande medida, ainda permanece restrito ao Rio Grande do Sul, a exemplo de Adão em Minas… Quanto aos propriamente contemporâneos, a lista é imensa, dada a elasticidade do termo, a começar pelos decanos Carlos de Assumpção e Oswaldo de Camargo. A estes temos que acrescentar Conceição Evaristo, Cuti, Miriam Alves, Edimilson de Almeida Pereira, Ana Maria Gonçalves, Nei Lopes, Cristiane Sobral, Paulo Lins, Eliana Alves Cruz e dezenas de outras e outros “recém-chegados”, como Jeferson Tenório e Itamar Vieira Júnior, e tanta gente mais. Me alegra sobretudo a verdadeira multidão de jovens colocando seu existir de negras e negros em textos de uma intensidade tocante, sobretudo na poesia.

O & P-  E quais nomes da história da literatura negra nós não deveríamos esquecer jamais?

E – Para mim, todos os nomes citados acima. E também todas e todos que ao longo do século XX, produziram literatura nos espaços da diáspora negra no Ocidente e com isto forjaram uma tradição – a do Modernismo Negro.

O & P-  Qual o papel de quem pesquisa a produção literária afrodescendente, agora que a questão racial virou o epicentro das discussões culturais no Brasil?

E – Protagonismo. É preciso fazer nossos cursos de Letras enxergarem o Brasil não como país “mestiço”… mas como país multiétnico de maioria negra! E com um considerável contingente de artistas negras e negros também na literatura, não só na música e no futebol, como ainda hoje acontece.

O & P-  Quais foram as referências intelectuais e políticas (em sentido amplo) no começo da sua definição de pesquisa, sobre a literatura negra? Que pessoas – professores, ativistas, escritores – foram referência? O senhor teve contato pessoal com eles? Poderia contar algo a respeito de sua socialização intelectual?

E – Muita gente. Corro o risco de deixar várias pessoas de fora. Resumo então: a descoberta de Firmina e a releitura de Machado foram fundamentais. As leituras de Conceição Evaristo (e sua precursora dissertação de Mestrado dos anos 80), Roger Bastide, Zilá Bernd, Domício Proença, Nazareth Fonseca, Octavio Ianni, Moema Augel, Oswaldo de Camargo, Heloisa Toller, Cuti, Consuelo Cunha, além dos demais estudiosos estrangeiros, Rabassa, Brookshaw, Sayers, e tantos mais. Destaco ainda Kabengele Munanga, de quem fui colega na UFRN, e Abdias Nascimento, que deixou uma herança intelectual preciosa e nos prestou um denso depoimento, incluído no volume 4 da coleção Literatura e afrodescendência no Brasil.

Belo Horizonte, 3 de abril de 2022

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