Entrevista

Elio Carraveta: um cientista do futebol

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Elio Carraveta: um cientista do futebol Elio Carravetta (Foto: Luara Rodrigues)

Nesta entrevista Elio Carravetta conta como chegou a Coordenador de Performance no Sport Club Internacional. Um percurso que sai da sua infância, passa pela formação na Educação Física até virar referência nas pesquisas do esporte nacional.

Nascido em julho de 1953, Elio Salvador Praia Carravetta tem um trabalho cobiçado por boa parte dos torcedores de futebol. Afinal, desde 1996, atua no clube do seu coração, mais especificamente no Departamento de Performance do Sport Club Internacional – e Carravetta é colorado de carteirinha desde pequeno, por influência do pai, o servidor público estadual Agostino Aleardi Carravetta. E foi por aí que começou a conversa sobre a vida e obra desse eterno professor, como gosta de se apresentar: 

Como todo menino, tive meu time do coração. Aprendi a gostar do Inter pelo meu pai, que era torcedor assíduo, daqueles que ama o clube. Quando alguém pedia a carteira de identidade dele, tinha orgulho de mostrar primeiramente a carteira de sócio. Ele dizia: “A minha identidade é o Internacional”. Por isso sempre fui colorado.

Há 24 anos passando os dias no estádio Beira-Rio, Carravetta é reconhecido pela torcida mais pelo tempo de serviços prestados do que pela sua atividade propriamente. Desde que chegou, atua no planejamento das atividades e na rotina de treinos de jogadores que voltam de lesão. Poucos sabem, porém, da sua história pessoal, que inclui profícua carreira acadêmica, com quase uma dezena de livros lançados, e passa pela trajetória pelo atletismo, com títulos nacionais e participação em eventos internacionais na prova dos 800m. 

Elio Carravetta é Coordenador de Performance no Sport Club Internacional. Especialista em Ciência do Esporte. Mestre em Métodos e Técnicas do Ensino. Doutor em Filosofia e Ciências da Educação.
Livros Publicados:

  • O Esporte Olímpico. Um novo paradigma de suas relações sociais e pedagógicas. Editora da Universidade – UFRGS – 1997.
  • O Jogador de Futebol. Técnicas, Treinamentos e Rendimentos. Mercado Aberto – 2001.
  • Modernização da Gestão no Futebol Brasileiro. Perspectiva para a qualificação do rendimento competitivo. Porto Alegre: Editora AGE, 2006.
  • O Enigma da Preparação Física no Futebol Brasileiro. Porto Alegre: AGE, 2010.
  • Futebol: Formação de Times Competitivos. porto Alegre: Editora Sulina, 2012.
  • Jogando com os Pés e Treinando com a cabeça. Gestão no Futebol. Porto Alegre: Editora Sulina, 2017.


Parêntese – Para começar, o senhor trabalha desde 1996 no Inter. Qual sua função no Beira-Rio?

Elio Carravetta – Faço a coordenação de performance, que é o planejamento das atividades físicas do time principal. Além disso, trabalho muito com a retomada de treinos, direto com os jogadores. Quando os atletas saem do Departamento Médico, faço intercâmbio entre o Departamento Médico (DM), a fisioterapia e a preparação física. 

P – Então o senhor está só no planejamento? 

EC – Agora, nesse momento (tarde de 8 de junho, terceira semana de retomada dos treinos no Inter, após a parada por conta da pandemia de coronavírus), nem o planejamento. Porque agora estão trabalhando, já. Não tem mais o que planejar. Agora, recebo os relatórios e acompanho, participo de algumas reuniões online, mas nada mais que isso. 

P – O senhor pode explicar o que é a retomada de treinos, ou retreinamento, no jargão técnico? 

EC – É um processo inovador com o qual venho trabalhando no Inter há 15 anos, mais ou menos. Antigamente, o jogador saía do Departamento Médico e ia para o grupo, direto. Já entrava na preparação física e no treino com bola. Aí, criamos, lá no Beira-Rio, todo um processo de readaptação da performance. Tudo depende do tipo de lesão e do tempo de tratamento que deixou o atleta afastado das atividades físicas. 

P – Que tal voltar no tempo, para que os leitores possam conhecer um pouco da sua história. O senhor nasceu em Porto Alegre, né?

EC – Tu queres saber da história da minha vida? Fui criado no bairro Higienópolis, que na época era um bairro mais mesclado, classes alta, média e pobre. Me criei praticamente na rua. Onde morava predominavam as classes menos favorecidas. Participava de tudo por ali. Fui faz-tudo, tive até caixa de graxa. E, guri, tentei começar no esporte, fui treinar no Inter. Foi ali que começou minha vida no esporte. 

P – Isso em que ano, mais ou menos?  

EC – Isso quando eu devia ter uns 14 anos. Foi em 1967. 

P – Na época dos Eucaliptos? 

EC –  Sim! Mas as categorias de base ficavam no campo do Nacional (na avenida José de Alencar, onde hoje fica o supermercado Nacional). Fui treinar com seu Jofre Funchal. Ali fiquei um ano, um ano e pouco. Não consegui progredir. Não tinha qualidade para o futebol.

P – Em que posição o senhor jogava? 

EC – Jogava de lateral. Todo jogador ruim ia para a lateral, ficando mais para o lado do campo, que era para correr e tocar menos na bola, só marcar. Nesse período, eles me convidaram algumas vezes, lá no Inter mesmo, para treinar na equipe de atletismo, para correr. Dizia que não: “Vim aqui para jogar futebol, não quero correr”, argumentava. Mesmo assim, fiz um teste e fui bem, só que acabei trocando o Inter pela Sogipa. Já tinha 15 anos. Um técnico da Sogipa me viu correndo e mandou uma carta para a minha casa, me convidando para ir até lá. Achei aquilo o máximo! Me senti extremamente importante. E pensei, “ah, vou correr na Sogipa”. E em um ano, um ano e meio já era campeão juvenil brasileiro. 

P – Isso em que ano? 

 EC – Em 1969. Tinha sido campeão gaúcho. Em 1970, fui campeão brasileiro e vice-campeão sul-americano. Em 1971, já era atleta laureado na Sogipa. Já tinha conquistado estadual, brasileiro e sul-americano.

P – Qual era sua especialidade? 

EC – Minha especialidade foram os 800m rasos. Fui recordista brasileiro. E no ano seguinte, aos 17, entrei na faculdade de Educação Física, no Instituto Porto Alegre (IPA, hoje Centro Universitário Metodista – IPA).

P – Entrou cedo.

EC – Sim. Entrei cedo na faculdade. E, quase ao mesmo tempo, já fui trabalhar para o Estado, emancipado a título precário. Fui trabalhar em uma escola em São Sebastião do Caí. Como adolescente não podia trabalhar, à época, meus pais me emanciparam e fui. Ia três vezes por semana, com contrato de 12 horas semanais. Aí, cursava a faculdade e trabalhava. Como não era de uma classe social mais favorecida, a Sogipa também me deu emprego, como era atleta. Então, com 17 para 18 anos, estudava Educação Física, trabalhava na Sogipa e dava aula no Estado. 

P – Na Sogipa o senhor fazia o quê? 

EC – Era treinador de atletismo de mirins e infantis. Nesse período todo, fui chamado na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFGRS) para fazer Educação Física lá. Tinha feito vestibular para Medicina e fiquei em segunda opção. Abandono o IPA e vou para a UFRGS. Nesse período, com 18 ou 19 anos, também já trabalhava no Colégio São João, aqui em Porto Alegre, sem deixar a Sogipa e o Estado. 

P – Não devia ser fácil ser atleta naquela época, nos anos 70…

EC – Eu era amador. Meus primeiros testes fiz descalço. A Sogipa é que me deu um par de tênis para correr, um abrigo, e só depois tive um sapato de prego. Na época, atletismo, boxe e futebol eram onde predominavam e predominam, ainda hoje, as classes menos favorecidas. Bourdieu [o sociólogo francês Pierre Bourdieu] coloca isso muito bem, nos seus estudos sociológicos. Ele explica a relação do esporte com a classe social onde o indivíduo tem origem. Assim, meu esporte de origem foi amador. Me deu, porém, oportunidade de entrar no mercado de trabalho, e, além do mais, proporcionou muito aprendizado. Porque o atletismo é um esporte em que tu convives diariamente com a dor, com o sofrimento, com a renúncia. Teu prazer tu encontras por meio da vitória pelo sofrimento. É uma coisa meio masoquista, mas tu encontras esse prazer. E em meio a isso, trabalhava e estudava.

P – Como era isso? Conciliar treino, faculdade e trabalho? 

EC – Assim, ó: na minha vida, sempre fui homem de dormir seis horas por noite. E, praticamente, de trabalhar 18 horas. Entre estudo e trabalho eu tinha três turnos. Se existisse um quarto turno, eu estaria lá.

P – Incluído o treino nisso tudo…

EC – Sim! Competi até 1975 quando fui à Universíade, o campeonato mundial universitário, em Roma (Itália).

P – Voltando um pouco, quando o senhor começou no atletismo, tinha algum plano? Disputar Olimpíada, por exemplo? 

EC – Sempre tive esse sonho. Fui duas vezes pré-convocado, mas não atingi o índice e acabei não indo. Disputei uma Universíade. Outro sonho que alimentei muito na vida foi de colocar um atleta num pódio Olímpico, mas não consegui também.

P – Voltando à linha do tempo… 

EC –  Bom, nesse período, estou trabalhando no Estado, no São João e na Sogipa e termino Educação Física, em 1975. Antes de terminar o curso, porém, fui fazer Nutrição, na Universidade do Vale do Rio do Sinos (Unisinos). Como estava em São Sebastião do Caí, ia e fazia Nutrição ali. Antes de terminar esse curso, porém, apareceu outro, de especialização em Ciência e Medicina do Esporte, na antiga Universidade Católica de Medicina (hoje Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre). 

P – Aí o senhor já tinha deixado o atletismo? 

EC – Sim, deixei de competir. 

P – Então, antes de irmos em frente, vamos voltar um pouquinho para o atletismo. O senhor chegou a participar de competições nacionais e internacionais. Tem alguma história daquela época?

EC – Lembro-me de uma viagem que fizemos para competir em Belo Horizonte, campeonato brasileiro. A competição era de sexta-feira a domingo. Saímos de ônibus, na terça, foram 48 horas na estrada. Competimos e voltamos, chegamos na aqui terça seguinte. Ao desembarcar, porém, fui convocado pela seleção gaúcha para disputar outro campeonato, também em Belo Horizonte! Então, pegamos outro ônibus na quinta e voltamos para lá. Isso marcou muito na minha vida. Só para veres as dificuldades que se tinha naquela época. Nesse mesmo campeonato, o primeiro, ficamos alojados dentro do Mineirão. E, num daqueles dias, tinha Atlético-MG x Santos. Então, como o Santos jantava depois do jogo ali mesmo no Mineirão, fui com uma flâmula da Sogipa para o Pelé assinar. Tenho ela guardada aqui em casa ainda.

P – Como o senhor financiava essas viagens? 

EC – O clube pagava viagem, alimentação e estada. Essas viagens eram o máximo. Ganhar uma medalha era o máximo que tu podias imaginar. Tu teres a medalha – tenho aqui mais de 150 – era a forma de te motivar a treinar mais, porque se ganhasse uma medalha, serias reconhecido, subirias num pódio e aquilo tinha um valor para nós, atletas. Aquele momento era muito, muito grande. Sem o mínimo de remuneração, tinha um reconhecimento do teu esforço através naquilo lá. 

Quadro exibe as medalhas de Carravetta. (Foto: Luara Rodrigues)

P – E voltando à sua carreira acadêmica… 

EC – Depois da Universíade de Roma, já estou dando aulas em Porto Alegre, na Escola Estadual Daltro Filho. Além de no São João. Continuei levando minha vida, mas tinha uma inquietação muito grande. Na época, o professor de Educação Física era meio discriminado. Professor de Educação Física era taxado como se só tivesse um neurônio, que contava só até quatro. E digo “não” a isso, querendo fazer mestrado. E entro na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), no mestrado na área de Educação, Métodos e Técnicas de Ensino. Só que enquanto as pessoas faziam o mestrado em três anos e meio, quatro anos, como trabalhava e estudava, levei seis anos.  Nesse meio tempo, surgiu o concurso público para a UFRGS, e participei e fui aprovado. Quando entro para a Escola Superior de Educação Física (ESEF) e começo a me afastar das outras atividades, saio da Sogipa, deixo o Estado. mas ainda tinha sonho de botar um cara nos Jogos Olímpicos. E fui treinar atletas sem remuneração, sem nada. Logo adiante, fui selecionado para cursar doutorado em Barcelona (na Espanha).

P – E no que era esse doutorado? 

EC – Foi dentro de outra área. Como me dediquei muito ao treinamento desportivo, à Biologia, à Estatística, essa parte toda, eu, ali, dei uma mudança radical. Estudei Filosofia, História e Ciências da Educação, com ênfase no esporte olímpico. Estudei também gestão nas relações de controle social. E houve uma guinada na minha vida, nos aspectos mais filosófico e intelectual. Uma transformação muito grande na minha práxis pedagógica. Foi um momento marcante, um marco divisório na minha maneira de ver o mundo, de encarar a Educação e o esporte. Foi o primeiro momento em que pude parar para pensar, só estudar. Foi extremamente importante na trajetória da minha vida. 

P – O que o senhor poderia dizer que mudou? 

EC- Muito. Eu vinha de uma visão mais tecnicista, muito mais reducionista, muito quantitativa. Em relação à própria vida também. A partir daquele momento, passei a ter viés muito mais humanista e visão mais qualitativa. Até ali, via o homem de maneira muito fragmentada. Desde então passei a entender o homem como um todo, numa visão mais integral. Passei a estudar muitas teorias, sistêmica, cibernética relacionada ao homem, teoria do caos, dos conjuntos difusos. Com isso, passei a ter outra visão de mundo. Também fiz autocrítica profunda e tive uma mudança muito forte na minha vida. O que me dá sustentação e prazer na profissão, hoje, é minha fundamentação dentro das ciências do homem e das ciências humanas. 

P – E isso foi em que ano?

EC – Foi entre o final dos anos 80 e o começo dos 90. Chego a Barcelona, para o doutorado, e levo um atleta para morar na minha casa para tentar índice para a Olimpíada de Barcelona (1992). Cheguei a vender um carro para financiar o treino desse atleta, ter dinheiro para as viagens, alimentação etc. 

P – O senhor vendeu o carro aqui em Porto Alegre? 

EC – Vendi em Porto Alegre! O dinheiro, guardei para fazer alguns deslocamentos e para treinar esse atleta. Aí, fomos para Turim (Itália), numa competição lá. Ficamos sete dias, mas ele não seguiu o programa de corrida. Já tinha sido campeão da maratona de Porto Alegre, tinha resultados expressivos, mas chegou lá, não conseguiu o índice e perdeu a vaga para a Olimpíada. Aquilo me deixou muito chateado, muito triste. 

P – Um parêntese aqui, para falar do seu tempo em Barcelona. O senhor pegou uma época na Espanha que deve ter sido bastante marcante, tendo ido para lá em 1991…

EC – Exatamente! Peguei todo o processo de transformação urbana. Todas aquelas transformações que teve. Não só por Barcelona, foi um momento de boom em toda a Espanha. Tanto na economia como na cultura, teve Jogos Olímpicos, Expo 92 (Exposição Universal), em Sevilha. 

P – O senhor teve esse momento em Barcelona pegou essa transformação da cidade, e tudo. Consegue ver algo assim em Porto Alegre? 

EC – Aquele foi um momento que humanizou muito Barcelona. E vejo que Porto Alegre também teve influência humanizadora muito forte da capital da Catalunha, mais ou menos naquela época. [Nota da edição, em 1993, a prefeitura lançou o programa Porto Alegre Mais – Cidade Constituinte, e trouxe os espanhóis Jordi Borja e Manuel Vallejo, que atuaram no planejamento dos Jogos Olímpicos de Barcelona, para palestrar.] Até vejo aproximação muito grande entre as duas cidades. Em relação à arquitetura, à cultura, à história. As duas cidades são diferenciadas culturalmente.

P – Porto Alegre pode ser uma cidade não só de futebol, mas de outros esportes? 

EC – Acho que temos carência muito grande na área da gestão do esporte. Quando falo nisso, falo da gestão da educação. Esporte e educação são muito próximos. E isso é uma crítica que faço às gestões públicas e privadas. Tanto na área da educação, como do esporte e da cultura. Isso apesar de termos potencial humano muito forte. Aqui no Estado, temos intelectuais, artistas e esportistas que são ou foram referências no mundo. Tivemos alguns momentos marcantes, com grandes avanços. Mas, depois, tivemos grandes retrocessos. 

P – O senhor também vê essa falta de gestão no privado? 

EC – Não consigo ver, dissociar, o público do privado. Acho que são uma coisa só, as influências são recíprocas. Uma não exclui a outra. Vamos supor que você tem boas políticas públicas, vai ter sucesso na iniciativa privada. À medida que tiver sucesso na iniciativa privada, vai fomentar as políticas públicas. 

P: É meio como o senhor estava explicando a mudança de ver o ser humano como um todo? 

EC – Tem reciprocidade em relação a isso, mas, voltando, vejo que em Porto Alegre na área do esporte, hoje, temos clubes centenários em esportes olímpicos. Clubes que hoje encontram dificuldades para manter o esporte de elite. Porque hoje o esporte de elite é profissionalizado. Então, essa interação, na minha visão, quem tem de manter o esporte de elite não é o setor público. Agora, em relação à formação de atletas e à educação, acho que tem pontos básicos que nós precisamos ter, que vejo como parte de políticas públicas. 

P – Voltando à sua linha do tempo, o senhor termina o doutorado e volta para Porto Alegre em 1995. Como foi parar no futebol?

EC – Já tinha trabalhado no futebol antes. Tinha trabalhado na base do Grêmio…

P: Em que ano foi isso? 

EC – Na época da Sogipa, no começo dos anos 80. Estive lá nas bases do Grêmio. Depois foi para o futsal. Quando volto de Barcelona, sou convidado a dar consultoria nas categorias de base. 

P – E como foi parar no Inter?

EC – Como o Grêmio foi bem naquele ano (1995), no ano seguinte o Inter me convidou também para fazer consultoria. Em seguida, vem o convite para trabalhar.

P – Na preparação física das categorias de base? 

EC – Não. Aí já foi para trabalhar no clube como um todo. Naquele período, tinha o João Paulo Medina, que veio para cá com uma consultoria para reformular o futebol. Trabalhei com ele na área de gestão. Atuei nesse processo de renovação e reestruturação, das categorias de base à equipe principal.    

P – Como aquela experiência lá de Barcelona foi importante neste momento, nessa chegada no Inter?  

EC – Depois que passei por Barcelona, tudo o que fazia antes, de maneira muito mais intuitiva e com formação muito mais voltada à pedagogia e ao ensino, passo a fazer com visão de gestão, do todo. Além disso, o que aprendi lá me fez ter uma visão mais global do homem, mais integrada. Passei a entender mais a pessoa, o companheiro ao meu lado, a entender as relações – uma visão mais rica visando construir algo. Desde lá, passei a ter essa visão menos mecanicista, menos reducionista. Mudei de ver o resultado pelo resultado para ver o resultado pelo processo, mas um processo construído por meio da interatividade. 

P – O senhor falou do resultado pelo processo. Este modo de pensar, trazido desde Barcelona, acabou casando com o projeto do Medina, porque ele falava que aquele trabalho iria dar resultado dali a dez anos. E deu, com o Mundial de 2006… 

EC – Sim, sim! O Medina foi para mim, naquele momento, um guru. Porque eu vinha de uma fundamentação teórica recente que não se adequava à minha prática anterior. Então, passei a ter uma visão muito mais ampla, usando muito mais os recursos humanos, acreditando mais na criatividade, na liberdade com responsabilidade do indivíduo em tomar iniciativa. E isso, principalmente num esporte como o futebol, no qual dependes muito das tuas tomadas de decisões num ambiente de incerteza, precisas ter espontaneidade para tomar essas decisões, tens que criar. Então, com o Medina, passei a me preocupar muito com a formação daquelas pessoas com quem estava trabalhando. A ideia era buscar reciclar, voltar a estudar, despertar interesses pelo conhecimento, buscar alternativas metodológicas, cada um dentro da sua área. E desde aquela época trabalho com os atletas dentro dessas perspectivas. 

P – O senhor fala em se reciclar, em voltar a estudar. Ainda faz isso?

EC – Sim! Voltei a estudar agora. Estou fazendo MBA em Neurociência e Comportamento. Com 66 anos. Há quatro anos fiz um curso de exercícios funcionais, de duas semanas, oito horas por dia, em Phoenix (EUA). Me submetendo a aulas teóricas e práticas, com alunos que, no máximo, tinham 32 anos. E eu com 62 anos estava lá. Entrando às 8h e saindo às 19h. 

P: O senhor continua querendo aprender, não se cansa?

EC – Eu gosto. Gosto de poder conduzir as pessoas para alguma coisa. Conduzir, ensinar, levar, mostrar. Quando me perguntam qual é minha profissão, digo que é professor. Não sou outra coisa. Escrevo, mas não sou escritor. Sou professor. Escrevo como professor, não como escritor. Não sou intelectual.

P: Voltando ao Inter, o senhor chegou com o Medina, em 1996. Nessa questão de gestão pensando a estrutura toda do clube, o senhor chegou em algum momento pela experiência em Educação Física, a trabalhar diretamente com a preparação física do dia a dia dos jogadores ou foi sempre com essa coisa mais da gestão, mesmo? 

EC – Não, com a preparação física do dia a dia, não. Sempre trabalhei individualmente com eles, preparando programas especiais e com o retreinamento.

P – Como funciona a sua relação com as comissões técnicas? Porque cada profissional que vem é um trabalho diferente, uma metodologia diferente, certo? Como funciona isso?  

EC – Muito boa pergunta. Depende muito das pessoas. Tu vais trabalhando com a comissão técnica e eles vão te conhecendo. Tem treinadores com quem tu tens mais dificuldades, e outros com os quais tens menos. Mas sempre tem aqueles que têm medo da sombra, por insegurança. Só que tu vais trabalhando isso. Não tive maiores problemas em relação a isso, mas tem coisas que eu vejo e digo. Tu queres ficar brabo, ficas. Não que eu esteja certo, mas estou ali para isso. 

P – Nesses 20 e poucos anos de Inter com quem o senhor problema…

EC – Tive um problema sim…

P – Pode dizer com quem? 

EC- Ah, não vou dizer. 

P – O senhor está sempre querendo aprender, e gosta de aprender, pelo que deu para entender. Com quem que o senhor mais aprendeu dentre os profissionais que passaram ali? 

EC – Ah, com todos. Cada um tem sua maneira de trabalhar, suas peculiaridades. Paulo Paixão tem as dele, Fábio Mahseredjian tem as dele, e o Zezinho da esquina, que está começando agora, também tem suas peculiaridades. 

P – Nesse período em que o senhor está lá passaram alguns preparadores físicos estrangeiros, com técnicos de fora como o argentino Jorge Fossati (2010), o uruguaio Diego Aguirre (2015) e agora o também argentino Eduardo Coudet. Tem alguma diferença na forma de trabalho para os brasileiros? 

EC – Tem, são escolas diferentes. Mas no Brasil tu não tens uma escola-padrão de treinamento. Cada profissional tem sua forma de trabalhar. Tu entendes. Eles também têm que se adaptar ao clube em que chegam. 

P – Do tempo que o senhor está no Inter, o clube conquistou títulos importantes, duas Libertadores e um Mundial. Como seu trabalho teve influência nessas conquistas? 

EC – Em todo esse período que estou lá, vivi momentos muito difíceis e outros ótimos. Quase vivi duas quedas, contra Palmeiras (no Brasileirão de 1999) e contra Paysandu (em 2002), e vivi um rebaixamento (em 2016). Por outro lado, tive o prazer da conquista de duas Libertadores, do Mundial e de outros títulos internacionais. Como colaborador, dentro da equipe como um todo, sempre procurei agregar. Assim, tive pequena parcela dentro de um todo no trabalho fora do campo. Sempre trabalhando para a equipe e para o clube.

P – Dos jogadores com os quais o senhor trabalhou, daria para destacar algum dentro daquela filosofia do humano como um todo, ou seja, como atleta, profissional e pessoa?

EC – O Inter sempre teve no seu plantel jogadores que pensavam, que colaboravam, que tinham, filosoficamente, comprometimento profissional. Que com isso se tornavam líderes. Entendo também que o reflexo dos bons líderes contagia. Então, na época do Fernandão, o exemplo dele contagiava. O Clemer e o Iarley também foram outras duas grandes lideranças. Essas lideranças fortes sabem dar bom exemplo. Hoje, D’Alessandro sabe dar o bom exemplo, ele socializa exemplos positivos. Então, a atitude de jogadores como esses passa a ser modelo para os outros atletas. O que notei nesse tempo todo é que esse tipo de atitude tem sido cada vez mais constante no futebol. Os jogadores estão cada vez mais comprometidos com a profissão, passando a tomar determinados cuidados que muitos jogadores do passado não tinham. 

EC – O senhor falou de dois grandes ídolos da torcida colorada, Fernandão e D’Alessandro. Como foi trabalhar com o primeiro e como é atuar como o segundo?

EC – Fernandão e D’Alessandro são dois grandes ídolos da história do Inter, mas de gerações diferentes. Os dois sempre manifestaram identificação muito forte com o grupo e com o clube. Os propósitos das suas lideranças sempre foram muito parecidos, cada um com suas características individuais. Trabalhei com ambos, em convivência muito próxima. Os dois se destacam pela participação muito ativa dentro do vestiário, reunindo princípios, valores e predicados que são importantes para contagiar um grupo, um vestiário. E para estabelecer liderança e diálogos entre o grupo, a comissão técnica e a direção. Quero muito bem a ambos. 

P – Agora, encaminhando para o final, o senhor se formou em 1975, nesses 45 anos de profissão de professor de Educação Física e nesses mais de 20 anos trabalhando com futebol, o que o senhor notou que mudou na preparação física e no jogo?

EC – Vejo assim, em primeiro lugar: a ciência do esporte teve uma evolução muito grande. Em segundo lugar: hoje as pesquisas científicas trazem contribuição muito grande dentro da ciência do esporte. E em terceiro, a ciência do esporte não é única, cada vez mais temos trabalhado em relação interdisciplinar com outras ciências. A formação dos profissionais evoluiu muito! Tanto os que trabalham com o futebol como os atletas. Hoje, tens um corpo interdisciplinar com fundamentação teórica específica muito rica. Tens fisioterapia, assistente social, médicos, preparadores físicos, nutricionistas. Todos esses profissionais convergem para o desenvolvimento dos atletas. E tem os jogadores que passaram a ter mais consciência profissional, em relação ao próprio esporte e ao espaço deles na sociedade. Acho que isso vem evoluindo gradativamente. 

P – Uma última pergunta, a gente está em quarentena por conta da Covid-19, o que todo este período de parada vai acarretar à preparação física dos jogadores? 

EC – Tua pergunta é bem interessante. É obvio que ele vai se preparar muito mais fisicamente do que em qualquer outra época, porque passou um período treinando em casa e agora só treina praticamente o físico. Mas a performance do futebol é geral, não é só física. É técnica, tática, relacional, cognitiva. Então, o preparo não é fragmentado. Eles poderão sair dessa bem fisicamente, mas terão que reforças as outras áreas. 

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