Entrevista

Graça Craidy – Acredita no que tu tá vendo

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Graça Craidy – Acredita no que tu tá vendo Exposição A mulher que roubava almas, em 2018 (Foto: Wanderlei Oliveira)

Pois o que se vê nessa entrevista com Graça Craidy tem um belo aspecto de retrospectiva, como costumam ter muitas das entrevistas aqui na Parêntese. Craidy vai dando as cores da própria vida com pinceladas que nos fazem entender quem é a artista que nasceu em Ijuí, que devorava livros, que cantava e que fez jornalismo na Famecos (PUCRS). Nas respostas, você lê também o passado escolar, o histórico da família e a formação profissional.

Com as perguntas de Luís Augusto Fischer, Graça Craidy conta ainda de sua passagem pelas agências de publicidade e também as experiências com o ensino na faculdade, sempre levando tudo adiante com muita criatividade. Uma mulher que acredita no poder da arte e que reúne, além de tudo isso, o arteativismo (ou seja, arte mais ativismo) pelo fim da violência contra a mulher.

Para quem não lembra, no texto Quando a gente põe arte na rua, é isto o que acontece nossa entrevistada contou sobre a recente exposição coletiva na qual ela e outros dezessete artistas retrataram 26 escritores gaúchos na galeria Escadaria. Ela também colaborou com a crônica A prenda e o rodeio no campo do bem-querer e com o retrato de Xico Stockinger.

Quer saber mais? Então deixa que a Graça responde.

Vai lá, Fischer, pergunta pra ela.

*Texto de Ângelo Chemello Pereira


Parêntese – Lendo tuas postagens, eu soube da tua origem em Ijuí, aquela cidade cosmopolita apesar de interiorana profunda. Como foi tua formação inicial por lá? A cidade respirava mesmo ares do mundo? Como?

Graça – Minha formação em Ijuí foi totalmente universal, pensávamos no mundo, sabíamos da universalidade do regional, do rio da aldeia que não é mais bonito do que o Tejo mas, sendo da aldeia, é. Ijuí foi construída por imigrantes, gente que veio de vários cantos. Eles traziam o mundo em si. Meus pais viajavam muito e traziam histórias interessantes dos lugares por onde andavam, valorizando a cultura de cada lugar, nos trazendo o espanto do diverso. 

A gente tinha em casa um globo do mundo igual ao do Tio Patinhas. Meu pai fazia teste conosco: Suécia, capital? Finlândia, capital? Além disso, líamos a revista Seleções, a revista Cruzeiro, gibis da Disney, Tarzan e Fantasma, íamos ao cinema todos os domingos, meu pai assinava o Correio do Povo. O mundo batia na nossa porta pelas mãos da cultura. Estudei primeiro num grupo escolar onde minha mãe lecionava, tinha ótimos professores, convivência rica com colegas de todas as origens, depois passei quase dez anos no colégio das irmãs, onde aprendi o valor do conhecimento como bagagem imprescindível, o valor da crítica, da arte, poesia, música, filosofia. 

Pra teres uma ideia, nos anos 1960, estudávamos na aula de Português a interpretação de texto da letra de nada menos que “Pra não dizer que não falei de flores”. “O que o autor quis dizer com somos-todos-soldados-armados-ou-não?” Tínhamos que fazer quatro redações por mês que depois alimentavam um jornalzinho que eu fazia chamado O Bom. Tínhamos que falar 5 minutos lá na frente sobre qualquer assunto (eu falava sobre os autores de música clássica, imagina! Pesquisando na enciclopédia Barsa, o Google orgânico), encenar sketches inventados por nós, cantar no Orfeão. Foi uma formação muito interessante, nos preparava para o mundo.

Além disso, Ijuí tinha um Instituto de Belas Artes, onde aprendi Teoria e Solfejo e a tocar acordeon.  Música, cantar, é algo que me acompanha desde que me dou por gente. Cantava em casa, com minha irmã e minha mãe, meu irmão no violão. Cantava no Coral São Francisco, de Ijuí, onde interpretávamos, imagina, uma ária da ópera Nabuco, “Va Pensiero”, belíssima. Cantava num grupo vocal ijuiense chamado “Os Vocalistas”, nos moldes de Nilo Amaro, nos apresentávamos de graça na cidade e nos arredores. Cantava e regia um pequeno grupo de moças, no colégio das Irmãs, com 16 anos. Cantava nas serenatas das noites ijuienses. Cantava na boemia porto-alegrense até altas da matina, principalmente no Big Som, na Cidade Baixa. Em São Paulo, cantava no coral da agência onde trabalhei. Não virei cantora profissional por um triz.


Meus 15 anos 1966

P – Conta da tua família, por favor: origens, trajetórias, a tua geração. 

[Continua...]

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